O jihadista americano na Síria

Eric Harroun é americano. Em Julho de 2013 viajou para a Siria para lutar contra o regime de Bashar Al-Assad. Tornou-se mais um dos muitos ocidentais – incluindo portugueses -que foram fazer a jihad. Mais tarde acabou por ser preso pelo FBI por suspeitas de terrorismo. Esta é a sua história, contada pelo próprio à Vice.

Micro revista de imprensa

Não há muito a dizer: o Orçamento rectificativo estabelece que a Contribuição Extraordinária de Solidariedade não pode ser acumulada com os cortes nas pensões de viuvez. Logo, o dinheiro retirado a mais aos pensionistas desde Janeiro devia ser devolvido já a partir de Abril. Mas não foi. A notícia está no Jornal de Negócios de hoje. Mais uma prova de que o Estado é muito lesto a exigir, mas proporcionalmente lento quando se trata de cumprir.

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Nota: a micro revista de imprensa destaca um artigo publicado nos jornais e revistas portugueses. Pode ser uma notícia, uma reportagem, uma entrevista ou uma crónica. Pode ter várias páginas ou ocupar uma coluna. O critério é sempre o mesmo: importância, interesse e qualidade

Jorge Silva Carvalho fala pela primeira vez em dois anos

Ao fim de três anos de insistentes pedidos por parte do Fernando Esteves, Jorge Silva Carvalho aceitou finalmente dar uma entrevista. Porquê agora? O antigo director do Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa diz que terminou a fase de inquérito do processo em que foi acusado de violação do segredo de Estado, corrupção, abuso de poder e devassa da vida privada e já pode falar sobre o caso. Entre outras coisas garante que não usou informações privilegiadas, que não violou o segredo de Estado, que não foi corrompido e que o relatório sobre Pinto Balsemão era um mau documento que, por isso, nunca foi usado. Ainda assim, o ex-espião não abre totalmente o jogo: há revelações que guarda para o julgamento. A entrevista é hoje a capa da Sábado. A peça é da CMTV.

O primeiro vídeo do YouTube

Eram 20h27m de 23 de Abril de 2005. Nesse momento, Jawed Karim, um dos fundadores do YouTube, colocou online o vídeo “Me at the zoo”. São 19 segundos que mostram Karim em frente aos elefantes do Jardim Zoológico de San Diego. Porque é que é importante: foi o primeiro filme colocado online no site que é hoje o maior local de partilha de vídeos do mundo. Faz hoje 9 anos. E já foi visto mais de 14 milhões de vezes.

Coisas da Sábado

Hoje nas bancas: Jorge Silva Carvalho conta tudo em entrevista exclusiva; as três reportagens de Gabriel Garcia Marquez em Lisboa, entre Junho e Julho de 1975, na íntegra; o 25 de Abril em 40 objectos; entrevistas ao coronel Maia Loureiro e ao ex-MNE Rui Patrício; empresários traficantes vão a julgamento; os 10 locais preferidos de Jorge Jesus; a primeira aventura de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada; e muitos mais.

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Na Tentações: E se lhe servissem comida congelada?; 5 coisas que tem de saber sobre a época dos caracóis; os filmes do IndieLisboa;o novo romance de Jonathan Coe; como festejar os 40 anos do 25 de Abril; quem doou mais de 1000 objectos ao MUDE; 285,75 euros em descontos; e muito mais.

O homem que prendeu os milionários no pós-25 de Abril

No início do mês, o meu camarada de redacção Pedro Jorge Castro lançou mais uma brilhante obra. Desta vez sobre o período conturbado do pós-25 de Abril. Chamou-lhe O Ataque aos Milionários e retrata de forma sublime a forma como as famílias mais ricas viveram a revolução de 1974. Os acontecimentos são relatados com base em 47 entrevistas e documentos inéditos encontrados numa dezena de arquivos. E provam que, com vontade e capacidade de trabalho, ainda há muita coisa para contar sobre a história recente do País.

Para o Pedro deixo aqui três notas: os meus parabéns, votos de muito sucesso nas vendas e um grande obrigado por permitir publicar aqui o prólogo do livro sobre Eduardo Rosário Dias, o “polícia da revolução”. Vão ver que quando acabarem de ler vão ter vontade de ir à livraria mais próxima. Ou ao link ali em cima.

capa O Ataque aos Milionários

O TENENTE QUE PRENDE OS BANQUEIROS

Às cinco da tarde, as mãos de Rosário Dias vão tremer quando apontar uma arma aos banqueiros da família Espírito Santo.

Horas antes, na manhã deste 11 de Março de 1975, o primeiro-tenente Eduardo Rosário Dias, 37 anos, encontra-se no gabinete do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, onde é adjunto para os assuntos económicos. Quando os aviões começam a sobrevoar Lisboa para um golpe militar contra-revolucionário, outro colaborador do chefe do Governo invade a reunião do Conselho de Ministros e anuncia: «Senhor primeiro-ministro, estão a atacar o RALIS [Regimento de Artilharia de Lisboa], recebi instruções para o tirar daqui.»

Álvaro Cunhal, líder comunista e ministro sem pasta, já está de pé, a caminho da porta, mas ainda recomenda: «Metam o primeiro-ministro num bunker.»

O plano de segurança prevê algo parecido: Vasco Gonçalves deve ser transportado até à Base Naval do Alfeite, para embarcar num submarino que tem tudo preparado para permanecer até 30 dias no mar. O chefe do Governo é conduzido até à Margem Sul de Lisboa no seu Citroën «boca-de-sapo», escoltado por várias viaturas com cerca de 20 pessoas, entre membros do seu staff e seguranças – alguns destes, quando os carros saem de São Bento, levam metralhadoras no colo, prontas a disparar.

Na mesma direcção segue Ana Espírito Santo, 42 anos. Assim que vê a agitação militar em Lisboa, interrompe o almoço dos dois filhos e leva-os, juntamente com a empregada, para a Quinta do Peru, em Azeitão, onde está a sua mãe. Na Ponte 25 de Abril, apercebe-se do engarrafamento provocado pelas barricadas populares que revistam todas as viaturas, em busca de armas. Vira-se para o banco de trás e avisa os filhos, João, Manuel e Ana, de 10, 6 e 2 anos: «Meninos, se alguém vos perguntar o nome, são Brito e Cunha. Não dizem o nome Espírito Santo.»

Um dos populares dá um tiro no pneu de outro carro ali ao lado e Ana Espírito Santo pede aos filhos e à empregada para começarem a rezar. A sua carrinha é integralmente revistada pelos populares, que levantam o capot e reviram o porta-bagagens. Como não encontram armas, autorizam-na a seguir viagem.

Ana é neta do fundador do banco da família, José Maria Espírito Santo Silva; é sobrinha de José e Ricardo Espírito Santo, sucessores na presidência; é filha de Manuel Espírito Santo, que chefiou a instituição até 1973; e é irmã do líder do banco durante o processo revolucionário, Manuel Ricardo Espírito Santo, que, aos 41 anos, comanda o segundo maior grupo empresarial português.

O maior é a CUF (Companhia União Fabril), que integra mais de cem empresas, como o Banco Totta & Açores, a Lisnave e a seguradora Império. Os seus líderes também tentam sair de Lisboa. À uma da tarde, Jorge de Mello, 53 anos, procura obter, «com a máxima urgência», um bilhete para a Suíça, mas respondem-lhe, ao telefone, que já não seguirão aviões para o país. No aeroporto está desde as 11h30 o seu irmão e braço-direito, José Manuel de Mello, 47 anos, acompanhado por uma secretária, para apanhar o avião das 14h45 com destino a Paris.

Devido ao golpe orquestrado pelo anterior Presidente da República, António de Spínola, o aeroporto está controlado por militares e o avião da Air France já não faz escala na capital portuguesa. José Manuel de Mello pede então ao gerente do Banco Totta & Açores do aeroporto, seu funcionário, que accione contactos para conseguir lugar noutro voo, da KLM.

Enquanto espera, senta-se a beber uma cerveja e a comer uma sanduíche, e apercebe-se de que está rodeado por cerca de duas dezenas de militares. Sente-se tão ameaçado que combina com um empregado do bar, seu ex-colega de escola, a hipótese de fugir dali pela cozinha. Mas não é preciso. O empregado consegue interceptar as comunicações militares através do rádio. A seu lado, José Manuel de Mello ouve a voz do capitão responsável pela vigilância do aeroporto perguntar ao presidente, Costa Gomes, se deve prender o vice-presidente da CUF. Depois de uma ligeira hesitação, a resposta do chefe de Estado é negativa.

O presidente do Sindicato dos Bancários, Anselmo Dias, está em reuniões com sindicalistas na Beira Baixa. São outros dois dirigentes, António Marques Alves e Carlos Guimarães Abreu, os primeiros a chegar à sede do sindicato, na Rua de São José – preparam-se para fazer História: são eles que estabelecem a relação entre o golpe de Spínola e os interesses dos grandes banqueiros. Escrevem logo a «Informação 13/75», um apelo ao fecho dos bancos, para travar eventuais fugas de capitais ou financiamentos aos golpistas contra-revolucionários:

«Camaradas, face à tentativa desesperada dos restos da escumalha fascista, o sindicato de Lisboa decidiu: encerrar os bancos, mantendo a estrutura sindical a vigilância aos sectores fundamentais; não permitir o acesso aos estabelecimentos bancários às administrações.

Camarada Bancário: mantém o contacto com o Sindicato; cumpre e faz cumprir estas determinações durante o dia de hoje; aguarda novas instruções. Cumpre-as escrupulosamente e fá-las cumprir.»

A ordem do sindicato chega rapidamente à sede do Banco Espírito Santo, na Rua do Comércio. António Ricciardi, 54 anos, número 2 da administração do BESCL, e Carlos Mello estão a almoçar na sala de refeições da administração quando a comissão de trabalhadores percorre o edifício a avisar que todos têm de sair, porque o banco vai fechar.

Dezenas de empregados da instituição concentram-se à porta. Um dos directores, Jorge Espírito Santo, 38 anos, vai deixar as filhas a casa da avó, no Paço do Lumiar, de onde telefona para o seu gabinete, no fim da hora de almoço. «Patrão Jorge, não venha para o banco!», aconselha um dos trabalhadores. Apanhado de surpresa, o director pede para falar com o irmão Manuel Ricardo Espírito Santo, o presidente, mas do outro lado repetem: «Patrão Jorge, não venha para o banco!» Nova insistência, para saber o que se passa, provoca a mesma resposta, já mais em tom de ameaça do que de conselho: «Patrão Jorge, não venha para o banco!»

José Roquette, director da instituição, almoça no Chiado com o empresário João Flores e, entre tantos rumores que rapidamente se espalham sobre o golpe, também decide ligar para o gabinete do presidente do banco. Quem responde é um sindicalista: «O Dr. Manuel Ricardo não atende, nem nunca mais vai atender este telefone.» Roquette percebe que algo está a acontecer na sede, mas decide regressar. «Estou há quase 20 anos com eles. Se vão presos, eu tenho de ir também».

O subdirector José Manuel Espírito Santo, 29 anos, tenta entrar no edifício, mas barram-lhe o acesso. Procura então o irmão Manuel Ricardo, que está a acabar de almoçar num restaurante da Rua Ivens. Juntos, conseguem furar o cerco à porta e concentram-se, com os outros líderes do banco, na sala do conselho de administração.

Ricardo Salgado chega mais tarde – vem de uma reunião no Grémio dos Bancos e os piquetes de trabalhadores já não o deixam entrar no edifício.

No Alfeite, Vasco Gonçalves percebe que a situação está controlada e não chega a refugiar-se no submarino, fica a almoçar na base naval. Na sua comitiva cresce o nervosismo quando percebem que um dos oficiais responsáveis pelo Alfeite bebe whiskies a um ritmo pouco aconselhável, para o caso de ser preciso tomar decisões rápidas.

Entretanto, o adjunto para as questões económicas é alertado à distância para tudo o que se passa em Lisboa. «Tenho informações de que neste momento os administradores do Banco Espírito Santo estão reunidos e vou lá prendê-los», anuncia Rosário Dias. «Como é que vais?», pergunta-lhe Lopes Mendonça, o adjunto responsável pela protecção de Vasco Gonçalves. «Vou num dos carros que nós trouxemos, levo os nossos amigos seguranças e prendemo-los.»

Rosário Dias regressa a Lisboa, mas as brigadas populares também o obrigam a parar na Ponte 25 de Abril. Está vestido com o uniforme da Marinha e ainda não é claro se este ramo das Forças Armadas está ou não com os golpistas. Quando revistam a bagagem do carro oficial, encontram uma série de armas e pedem-lhe explicações, sem perceberem que estão a atrasar o adjunto mais revolucionário do primeiro-ministro. Só o deixam retomar a viagem graças à intervenção de um fuzileiro que passa no local e o reconhece.

Eduardo Rosário Dias é uma espécie de polícia da Revolução, visto por muitos dos próprios revolucionários ora como um idealista generoso, ora como um radical exaltado, ora como um «maluco perigoso» que intimida até os ministros do Governo a que ele também pertence. Lê tudo o que encontra sobre as revoluções de Cuba e do Chile, anda frequentemente acompanhado por sindicalistas, vive obcecado com as fugas de capitais ou, mais concretamente, com a mera possibilidade de o patronato conseguir fugir do país levando o dinheiro. É claramente impulsivo e de excessos.

Tudo passa por Rosário Dias: é ele que avalia os nomes dos novos administradores dos bancos; é ele que escreve relatórios em papel timbrado do gabinete do primeiro-ministro, onde se congratula com as conquistas sindicais na banca; é ele que tem o hábito de telefonar à Guarda Fiscal quando o Governo quer proibir a saída de algum empresário do país; e é ele que supervisiona as primeiras detenções de homens de negócios, a 13 de Dezembro de 1974, quando são presos os administradores da Torralta e do Banco Intercontinental Português, incluindo o presidente desta instituição, Jorge de Brito, fundador da Brisa e futuro presidente do Benfica.

Antes das detenções, Rosário Dias está presente em São Bento, na reunião em que Vasco Gonçalves informa os ministros da Justiça, Salgado Zenha, das Finanças, Silva Lopes, e da Economia, Rui Vilar, sobre as ordens de prisão contra 13 empresários acusados de sabotagem económica. «Se os procedimentos legais fossem cumpridos não era necessário chamar tantos ministros», responde Salgado Zenha. Mas a decisão está tomada e é Rosário Dias que vai comandar as operações – os ministros ficam impressionados com o pistolão que o adjunto de Vasco Gonçalves leva dentro da mala.

Não se inibe de dar ordens às direcções-gerais dos ministérios, passando por cima dos ministros, e identifica-se num cartão pessoal como «assessor para o Ministério das Finanças em representação do primeiro-ministro». Numa discussão mais tensa com Artur Alves Conde, o secretário de Estado do Tesouro dos três primeiros governos provisórios, responde: «Os senhores têm de tomar cuidado, eu cá por mim previno-me. Vê aqui isto?» Abre a mala e num ápice monta uma arma intimidatória. «É assim que me defendo.»

Na tarde de 11 de Março de 1975 é emitido este comunicado para tranquilizar a população:

«O Sindicato dos Bancários de Lisboa, face à desesperada tentativa reaccionária, resolveu encerrar os bancos a partir das 14 horas. Esta medida destina-se a proteger os valores à guarda dos bancos da rapina das administrações reaccionárias. Não há portanto motivo para qualquer receio.»

Quando Jorge Espírito Santo consegue entrar no banco para ocupar o seu lugar, aproxima-se um funcionário que ele próprio contratou depois de terem frequentado a mesma escola:

«Ó Jorge, dás-me um cigarro?» Acende-o com o isqueiro Dupont do director-adjunto do banco e aponta-lhe uma pistola à cabeça. Jorge Espírito Santo reage: «Quando for a minha vez, não tens tempo para pedir um cigarro, dispara logo isso.» Não há tiros, mas o seu ex-colega de escola não baixa a arma. Quando o director-adjunto pede para ir à casa de banho, segue-o com a pistola apontada. Depois, manda-o encostar-se a uma parede, de costas, e mãos no ar.

Rosário Dias usa mais uma vez os sindicalistas da banca como cúmplices e transforma-os, à sua imagem, em polícias da Revolução, seus ajudantes, identificados através de braçadeiras vermelhas. São eles que assinalam este momento histórico no livro de honra do banco, com o símbolo dourado na capa, habitualmente destinado a registar a visita de figuras ilustres. As últimas palavras tinham sido ali deixadas em Junho de 1973, um ano antes da Revolução, e mostram que foram escritas a seguir a um encontro de homens de negócios: «Foi um gosto estar aqui com tantos e bons amigos».

Nesta mesma página, na metade inferior, os revolucionários escrevem a maiúsculas:

«AQUI ACABOU O DOMÍNIO DOS CRIMINOSOS MONOPOLISTAS, INIMIGOS DO POVO E DA REVOLUÇÃO – 11/3/75 ÀS 14 HORAS».

São os trabalhadores que controlam a sede do banco na Rua do Comércio. A administração está cercada e vigiada na sala de refeições, usada para receber os clientes mais importantes. Estão o presidente, Manuel Ricardo Espírito Santo, os seus irmãos Jorge e José Manuel, o comandante António Ricciardi, o administrador Carlos Mello, o secretário-geral, José Maria Espírito Santo, e os directores José Roquette e Manuel Couto, acompanhados das respectivas secretárias.

«Acabou-se a brincadeira, agora é a sério, estes senhores estão presos», anuncia Rosário Dias, quando entra, de arma em punho. Num bloco de papel com o timbre do banco, anota os nomes que os sindicalistas lhe indicam. Depois, os administradores são revistados e seguidos até à rua por trabalhadores armados. «Matem-nos», grita-se à porta do banco. E enquanto os distribuem pelos carros, são alvo de insultos e cuspidelas.

Manuel Ricardo Espírito Santo é transportado no Citroën «boca-de-sapo» do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, acompanhado pelo irmão mais novo, José Manuel, e por José

Roquette. Em mais dois Peugeot do banco seguem António Ricciardi, Carlos Mello, José Maria Espírito Santo, Jorge Espírito Santo e Manuel Couto. Durante a viagem, em todos os carros há empregados do banco com armas apontadas aos banqueiros.

À chegada a Caxias, ficam retidos à porta. O comandante da prisão, José Costa Xavier, não os deixa passar porque não há qualquer mandado a justificar a detenção. «Mas estão aqui os Espírito Santo todos presos e não os deixam entrar? É a galinha dos ovos de ouro…», responde, incrédulo, o condutor de uma das viaturas.

Esperam todos cerca de uma hora, dentro dos automóveis, até chegarem os mandados assinados por Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON, o Comando Operacional do Continente, onde se controla todo o processo revolucionário.

Os banqueiros são então acusados de pertencerem a uma associação de malfeitores, de serem exploradores do povo e de sabotarem a economia.

Na cadeia, fuzileiros barbudos e de cabelos compridos empunham as armas enquanto lhes dão ordens: «Encoste-se ali», «Baixe as calças», «Tire a camisa e o casaco». São revistados, fotografados e obrigados a despir-se. Fecham-nos numa cela com cinco beliches, uma mesa com bancos e uma janela. É a sala 6 da prisão de Caxias, onde vão viver os próximos meses.

Manuel Ricardo Espírito Santo, líder do grupo há apenas dois anos, desabafa com o irmão Jorge: «Somos a terceira geração à frente do banco e vamos perder tudo.»

Rosário Dias regressa ao gabinete do primeiro-ministro. Descreve em detalhe, orgulhoso, o seu gesto revolucionário, mas assume a tensão do momento: «Pela primeira vez empunhei uma pistola e não consegui mantê-la firme.»

O tenente Eduardo Rosário Dias

O tenente Eduardo Rosário Dias