Conversa de café

Sugestões semanais de leitura (e não só) para diálogos animados à volta de uma bebida.

Bom fim-de-semana.

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“Fidel colocou milhões em contas no exterior”

Durante 17 anos, Juan Reinaldo Sanchés fez parte da guarda pessoal de Fidel Castro. Com o passar do tempo, tornou-se um dos seus mais próximos colaboradores: era ele quem tinha de anotar num diário tudo o que El Comandante fazia. Quando quis abandonar o círculo que o rodeava, caiu em desgraça: foi preso e torturado. Após oito tentativas conseguiu fugir de Cuba para os Estados Unidos onde, este ano, lançou um livro com os detalhes da vida desconhecida de Fidel e as suas contradições com a ideologia comunista. De acordo com Juan Reinaldo Sanchés, El Comandante possui mais de 20 casas, incluindo uma ilha privada com tartarugas e golfinhos, só bebe leite fresco da sua vaca particular, grava todas as conversas no gabinete, esteve duas vezes às portas da morte e desviou milhões de dólares para contas por si controladas – para além de ser cúmplice com o tráfico de droga para os EUA. No dia em que ele está em Lisboa a promover a edição do seu livro em Portugal, deixo aqui a entrevista que lhe fiz há cerca de três meses e que foi a base para um artigo publicado na SÁBADO.

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Quando se tornou guarda-costas de Fidel Castro?

A 1 de Maio de 1977. Antes tinha tirado um curso de dois anos numa escola de especialistas em segurança pessoal e já tinha uma experiência de nove anos em segurança pessoal, fazendo parte de outros “anéis” da segurança de Fidel.

Porque o escolheram?

Por causa do meu desempenho durante nove anos e pelos meus resultados na escola de especialistas em segurança pessoal. Já tinha cinturão negro em artes marciais e era campeão de tiro.

Como se tornou um dos mais próximos de Fidel no grupo de guarda-costas?

Não era o único mais próximo dele. Havia o chefe de equipa e o seu médico pessoal. Acontece que, como tinha a responsabilidade de escrever o diário pessoal de Fidel, isso aproximava-me bastante dele. Tinha de anotar tudo o que ele fazia desde que se levantava até que se deitava, quem via, com quem conversava, o que comia, por que vias circulava, etc. E para fazer essas anotações, devia estar sempre ao lado dele. Neste trabalho conheci diferentes presidentes que visitaram cuba entre 1977 e 1994 e também dirigente da esquerda latino-americana como Luís Gorvalán, do Chile, Schafik Jorge Handal, da FMLN de El Salvador, e Joaquín Villalobos, do Exército revolucionário do Povo.

No meu livro, que escrevi com a colaboração do jornalista francês Axel Guilden, conto a história de que Fidel Castro realizou várias reuniões em Cuba com estes homens de esquerda e comandantes guerrilheiros para utilizar em El Salvador a mesma estratégia que tinha desenvolvido na Nicarágua: a união das diferentes frentes guerrilheiras numa única grande ofensiva militar contra a capital. Mas Villalobos e Schafik nunca chegaram a acordo porque entre eles havia uma rivalidade pela liderança desta luta e nunca foi possível unirem-se para Fidel alcançar os seus objectivos

Quais eram as suas responsabilidades?

Primeiro tinha a responsabilidade da sua segurança. Depois tinha que escrever o seu diário pessoal. Além disso, durante alguns anos fui responsável pela preparação técnica, profissional e física dos outros membros da escolta. Fiz também parte da equipa avançada das viagens de Fidel Castro ao exterior e tornei-me responsável directo da segurança no estrangeiro a partir de 1989.  Numa dessas avançadas realizou-se a viagem ao Zimbabwe para a VIII cimeira dos países não alinhados em 1986. Conto como preparei várias casas que se compraram em dinheiro, assim como automóveis Mercedes e Toyotas para a segurança de Fidel durante a estada no país. Foi construído um refúgio na própria residência e uma sala de reuniões totalmente segura contra escutas estrangeiras. Esta operação, detalhada no livro, custou mais de dois milhões de dólares, para apenas uns dias de Fidel Castro neste país africano.

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Juan Reinaldo a retirar a caneta entregue por uma jornalista a Fidel Castro. A segurança temia tentativas de assassinato

 

Toda a sua vida Fidel Castro afirmou que não tinha património. Isso é verdade?

Não. Fidel tem residências espalhadas por toda a ilha. Durante o meu trabalho conheci pessoalmente mais de 20 casas de uso exclusivo de Fidel, moradias que não são habitadas por mais ninguém. Além disso, Fidel tem marinas com iates, como aquela que fica a sul de Cienaga de Zapata, chamada Caleta del Rosário, onde trabalham mais de 100 homens como marinheiros, mecânicos navais, pessoal de serviço e guardas, apenas para uso exclusivo de Fidel. Ele tem também uma ilha privada a sul da Cienaga de Zapata, possui um iate de 80 pés de comprimento por 20 de largura e outros três iates mais pequenos de 54 pés de comprimento por 17 de largura. Como se isso não bastasse, tem também à sua disposição barcos de pesca de 60 metros de comprimento a pescar apenas para ele. Todas as embarcações estão na Marina Caleta del Rosário. Fidel é ainda proprietário de um couto de caça nos arredores da povoação de Los Palácios, na província de Pinar del Rio, onde, no Inverno, se dedica a caçar patos que emigram da Florida.

Revela também a existência da ilha de Cayo Piedra. Pode descrevê-la?

Na verdade são duas ilhas pequenas unidas por uma ponte com mais de 200 metros de comprimento. Esta ilha fica a sul da Ciernaga de Zapata, na província de Matanzas. Fidel habita uma casa que anteriormente pertencia a um faroleiro e que foi convertida num chalet. Tem pista de helicóptero, molhe para atracar os iates, um restaurante flutuante, criadores de tartarugas e até um delfinário, para além de uma residência para visitantes com piscina olímpica e outras instalações.

Fidel ia para lá com frequência?

Geralmente ia aos fins-de-semana no Verão e passava a maior parte de Agosto na ilha. Eu ia com ele na maioria das vezes porque fazia parte dos mergulhadores que pescavam com Fidel.

Ele levava a família ou ia sozinho?

Geralmente ia com a família, a mulher Dália e o seu filho mais pequeno, Angel. Os outros filhos iam uns dias mas saíam já que estavam a estudar ou simplesmente gostavam mais de passar as férias em Varadero, rodeados de outros jovens filhos de dirigentes. Quando Fidel levava algum convidado então ia sozinho. A sua esposa, Dália, nunca apareceu em público até se conhecer a doença de Fidel em 2008.

Tinha amantes? Levava-as para lá?

Geralmente a sua amante Juanita Vera ia à ilha quando Fidel convidava algum estrangeiro que falava inglês porque ela era a tradutora de Castro.

E os filhos?

Os cinco filhos com Dália (Alexis, Alex, Alejandro, António e Angel) iam regularmente à ilha. Mas os outros filhos (Fidel Castro Diaz Balart e Jorge Angel Castro) não iam com frequência. Só os vi lá em duas ou três ocasiões e sempre em separado.

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No iate Aquarama II

O que faziam para passar o tempo?

Actividades próprias do mar, pesca submarina, pesca em barcos, nadar no mar alto, visitar outras ilhas da zona, etc.

Costumava levar convidados?

Os mais frequentes eram os seus amigos Gabriel Garcia Marquez e António Neñez Jimenez, assim como os seus familiares. Além deles também visitaram a ilha estrangeiros como o milionário Ted Turner e a jornalista Bárbara Walters.

Fala no iate Aquarama II. Pode descrevê-lo?

Foi fabricado em cuba com madeira preciosa enviada de Angola. O anterior, o Aquarama I, foi de um dirigente do governo anterior a 1959 e Fidel utilizou-o muitos anos até não poder navegar mais. Então mandou construir este, muito parecido com o anterior, mas com equipamentos de navegação mais modernos e uma estrutura mais aerodinâmica.

Fidel é um conhecido fã de desporto. Mas no livro diz que a pesca é o seu desporto favorito. Porquê?

Ele gosta imenso de pesca submarina. É o desporto que mais praticava durante o Verão. Mas no Inverno ia para o couto de caça particular, chamado La deseada.

Pode descrever o ritual da pesca submarina e o seu papel nessa actividade?

Fidel Castro pescava de uma forma pouco habitual. Entregávamos-lhe as armas de caça já carregadas e prontas para atirar. Ele disparava e quando um peixe ficava no arpão não o recolhia. Era um dos mergulhadores que o apanhava e levava para o barco. Fidel depois estedia a mão e outro mergulhador entregava-lhe um novo arpão pronto a disparar. O meu trabalho era apoiar estes mergulhadores e com uma espingarda submarina muito mais potente espantar os tubarões, barracudas e moreias que rodeavam Fidel Castro. Protegia-o desta forma quando estava na água.

Descreve Fidel como uma espécie de Luís XV. Porquê?

Porque tinha toda uma corte de servidores em seu redor, unicamente para o servir em todos os seus gostos e prazeres e porque tem condomínios e propriedades única e exclusivamente para seu uso pessoal, ilhas, iates, marinas, couto de caça, etc.

Como é possível que a existência da ilha se tenha mantido em segredo todos estes anos?

Porque tudo o que está relacionado com a vida pessoal de Fidel Castro sempre foi tratado em Cuba como um segredo de estado e apenas as pessoas escolhidas pelo próprio Fidel o podiam visitar.

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

Havia outros luxos?

Sim: vacas exclusivas para o leite que toma, fábricas de tabaco, iogurte, queijos, gelados, etc. Mas este aspecto está bem detalhado no livro já que se trata da vida oculta de Fidel.

Como era um dia normal?

Em Havana, levantava-se por volta das 13h ou 14h. A primeira coisa que fazíamos era dar-lhe “os telegramas”, ou seja, todas as notícias que saiam nas mais importantes agências de imprensa a nível mundial, juntamente com um relatório do ministério do interior, fundamentalmente da espionagem e contra espionagem, com o estado e desenvolvimento de actividades de espionagem em diferentes países, especialmente nos Estados Unidos e ainda outro relatório das forças armadas cubanas relativas às actividades das missões cubanas no exterior, seja em Angola, Nicarágua ou outro país. Saia de casa de Punto Cero às 15h ou 16h, ia ao Palácio ou ao Ministério das Forças Armadas para ver Raul ou aos dois lugares. No Palácio recebia as pessoas que queriam vê-lo ou ele tinha interesse em ver, nacionais ou estrangeiros, assistia às reuniões programadas do partido, Estado ou governo. Ao final da tarde ia visitar algum dignitário estrangeiro, ou então Garcia Marques ou Nuñez Jimenez nas suas casas. Depois ia para a sua residência de Punto Cero já de madrugada. Ficava lá ou saia com a mulher, Dália, para ver um filme no seu cinema particular que ficava a cerca de 1,5km de casa.

Mesmo em casa comiam como se estivessem num restaurante?

Na residência trabalham dois ou três cozinheiros e as refeições são feitas em função do que cada membro da família deseja comer. Este pedido é deixado na cozinha da residência por Dália no dia anterior, assinalando o que cada membro deseja comer ao pequeno almoço, ao almoço ou a comida e a que hora cada pedido deve estar pronto.

Falou em vacas exclusivas. O que quer dizer?

Na residência de Punto Cero há vacas, uma para cada membro da família. A destinada a Fidel é a número cinco. O leite é fresco, do dia. Mesmo quando Fidel viajava para o estrangeiro, um avião cubano ia ao encontro da delegação para enviar os telegramas e relatórios de que já falámos, assim como o leite, iogurte e vegetais que Fidel consumia.

É descrito como um indivíduo paranóico. Por quê?

Fidel quer mostra-se como uma pessoa calma e equilibrada e consegue-o em muitas ocasiões. Mas há momentos em que se mostra paranóico sobretudo no seu círculo mais intimo. Ninguém o pode contradizer, nem tem valor para o fazer – mesmo quando acha que ele está errado.

Ele grava todas as conversas?

Dentro de casa não sei. Grava as conversas telefónicas e também as da sua escolta. Para isso há, no perímetro de Punto Cero, uma pequena casa onde estão as equipas e membros da segurança que as manipulam a fim de ter todas as gravações que desejem. Dália sabe disto, uma vez que é ela quem dirige todo o que se relaciona com a residência e o pessoal que lá trabalha.

No seu gabinete no palácio, grava tudo. Desde as conversas com os visitantes, às que realiza por telefone. Há uma equipa de repórteres e gravadores. À frente desta equipa está Hilda Castro, uma antiga colaboradora de Fidel desde os anos 1960. Esta equipa faz também a transcrição das conversas telefónicas para quando Fidel as quiser ler.

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Diz que os convidados estrangeiros eram vigiados pelos serviços de segurança. O que faziam concretamente?

Todas as pessoas de interesse, sejam presidentes, personalidades da cultura ou jornalistas, são vigiados constantemente pelos órgãos da contra-inteligência. Seja nas suas residências em Cuba ou quando estão a circular pelas ruas da cidade. Os relatórios são guardados e usados por Fidel num momento que considere oportuno.

Conta também que um diplomata francês apanhado no tráfico de arte se converteu num espião cubano?

Soube disto através de um relatório que a espionagem cubana enviou a Fidel sobre o caso dele.

Muitas vezes o mundo não conhecia o verdadeiro estado de saúde de Fidel. Como fazia para o ocultar?

Era um segredo de estado. Quando ele esteve internado em 1983 e 1993, vítima da doença que mais tarde o afastou do poder em 2006, nós na escolta fazíamos trabalhos de desinformação que consistia em utilizar um membro da escolta chamado Silvino Alvarez e disfarçá-lo com o uniforme de Fidel e uma barba postiça. Este duplo era utilizado à distância das pessoas, ou seja não era para o substituir numa reunião ou num discurso. Só o fazíamos quando o colocávamos no automóvel pessoal de Fidel e o passeávamos por Havana enquanto Fidel estava internado na sua clínica, com o objectivo de dar a impressão de que Fidel continuava a fazer a vida normal.

Qual era a relação dele com Angola?

Sempre disse que de Angola levaria só os mortos. No livro conto como foram parar a cuba madeiras preciosas e diamentes de Angola. E, no caso dos diamantes, como Fidel os recebeu em mão e também como desde a sede do ministério das Forças Armadas dirigiu toda a guerra neste país africano.

Ele tinha empresas e contas em bancos?

Sim, criou sociedades anónimas nos anos 1980 e que não estavam subordinadas à economia nacional: apenas ao conselho de estado, de forma a que os lucros dessas empresas fossem parar directamente às mãos de Fidel Castro. E sim, tinha contas em bancos mas só Fidel podia dispor delas. Empresas como a Coorporación Cimex, Cubalse, Cubanacán, etc. No livro conto como em várias ocasiões vi Abrahan Masique, então director de Cubanacán SA, entregar a Fidel Castro um milhão de dólares proveniente dos lucros de Cubanacán. Milhões que ele mandou um ajudante colocar em contas no exterior.

Porque deixou a escolta?

Em 1989 ouvi uma conversa (tal como os microfones do gabinete) entre Fidel Castro e o seu ministro do interior relacionado com o tráfico de droga. Aí dei-me conta que Fidel dirigia e sabia de tudo o que estava relacionado com a droga. Nesse momento senti-me enganado e defraudado por Fidel e pela revolução e estabeleci como objectivo sair. Mas tive de esperar até 1994, ano em que tinha todas as condições para pedir a reforma. Quando chegou a essa data pedi-a e Fidel enviou-me para a prisão. Passei dois anos detido, nas condições normais em Cuba: má alimentação, abusos por parte dos guardas, má higiene, etc.

Durante uma visita ao estrangeiro

Durante uma visita ao estrangeiro

Como foi para os Estados Unidos?

Quando saí da prisão, em 1996, comecei a tentar sair ilegalmente de Cuba, mas todas as tentativas foram infrutíferas até ao ano 2008 em que consegui sair ilegalmente através do México e daí para os Estados Unidos.

Porquê escrever este livro? .

Porque o mundo deve conhecer quem é verdadeiramente Fidel Castro. E não é o Fidel Castro que o próprio Fidel e o governo cubano trataram de promover pelo mundo.  Todos os livros sobre Fidel partem da informação dada por ele próprio ou pelo governo. Assim vemos os livros Um Grão de Milho, escrito por Tomás Borge, Fidel e a religião, de Frei Betto, e 100 horas com Fidel Castro, de Ignacio Ramonet. Todos partem de entrevistas a Fidel.

Na prisão dei-me conta de toda a informação que possuía e estabeleci o objectivo de dar a conhecer ao mundo o verdadeiro Fidel Castro. Fui tirando essa informação de Cuba por diferentes vias: na memória, em CD, em documentos e fotografias, de forma a que quando cheguei aos EUA tinha 90% da documentação que precisava. Posteriormente, em Miami, continuei a sacar informação valiosa de Cuba, o que me ajudou muito não só a escrever o livro como a provar o que dizemos. Este livro é o primeiro que aborda a vida privada de Fidel Castro, escrito por um testemunho presencial dos acontecimentos que ele trata. Daí a importância da obra.

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Micro revista de imprensa

É a história do dia: um homem foi internado compulsivamente, a pedido da família, sem ser avaliado por um médico. Pior: a médica que assinou a ordem foi a mesma que depois o seguiu no Hospital. Por mais que dissesse que não estava louco, mais lhe diziam que essa era a principal característica dos malucos: não reconhecer o seu estado. Teve de ser um tribunal a decretar a sua sanidade mental. Um caso em que a justiça funcionou, contada pelo Carlos Diogo Santos, no i.

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Nota: a micro revista de imprensa destaca um artigo publicado nos jornais e revistas portugueses. Pode ser uma notícia, uma reportagem, uma entrevista ou uma crónica. Pode ter várias páginas ou ocupar uma coluna. O critério é sempre o mesmo: importância, interesse e qualidade

Coisas da Sábado

Hoje nas bancas: Violência doméstica: quatro sobreviventes contam como escaparam; entrevista a Abdullah Al Andalusi; o orçamento bom e o orçamento mau; maçons impedidos de pertencer a clubes; os testas de ferro do general Bento Kangamba; as mulheres que lutam contra o Estado Islâmico; o que fazem os trabalhadores sem funções da PT; Portugal está na rota do tráfico de chifres de rinoceronte; entrevista de vida a Herman José; o guarda-redes que defendeu um penalti de Eusébio; grandes mestres espanhóis na Gulbenkian; e muito mais.

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As regras de um editor mítico

“As long as a journalist tells the truth, in conscience and fairness, it is not his job to worry about consequences. The truth is never as dangerous as a lie in the long run. I truly believe the truth sets men free.”

Ben Bradlee, antigo editor do The Washington Post (1921-2014)

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Katherine Graham , Carl Bernstein , Bob Woodward , Howard Simons e Benjamin Bradlee, durante o escândalo Watergate.

Micro revista de imprensa

A violência doméstica é uma realidade terrível. Quase todas as semanas são conhecidos casos de maus tratos. Na grande maioria, as vítimas são as mulheres. Mas raramente nos lembramos das “vítimas colaterais” destes casos: as crianças que ficaram órfãs. A mãe morreu. O pai foi preso. Elas serão entregues a uma instituição ou a um familiar, caso o tenham. E nada poderá apagar esse momento, em que ficaram sem pais. Hoje, o i deu-lhes atenção – e cumpriu o papel de serviço público que um jornal deve ter.

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Nota: a micro revista de imprensa destaca um artigo publicado nos jornais e revistas portugueses. Pode ser uma notícia, uma reportagem, uma entrevista ou uma crónica. Pode ter várias páginas ou ocupar uma coluna. O critério é sempre o mesmo: importância, interesse e qualidade

Tudo o que precisa de saber sobre… o Conselho Europeu

Na quinta e na sexta-feira, 23 e 24 de Outubro, os chefes de Estado e de Governo da União Europeia reúnem-se em Bruxelas para mais um Conselho Europeu. O encontro será o último a contar com a presença de Herman Van Rompuy e de Durão Barroso, respectivamente, presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia. A próxima reunião já terá nos seus lugares os recém-eleitos líderes das duas instituições: Donald Tusk e Jean Claude Juncker.

Os principais assuntos na agenda serão os objectivos para a política energética e ambiental da UE até 2030. No entanto, será também discutido o estado da economia europeia – com base numa apresentação da Comissão Europeia e num trabalho do Conselho de Assuntos Gerais – bem como os assuntos mais importantes da actualidade: a situação na Ucrânia e no Médio Oriente, bem como a crise do ébola.

No entanto, o que é exactamente o Conselho Europeu? Como foi criado? Para que serve? Como funciona? Isto é o que precisam de saber sobre a instituição de decide grande parte do que se passa nas nossas vidas.

  • O Conselho Europeu (CE) não existia originalmente na União Europeia. Por iniciativa do presidente francês, Giscard d’Estaign, as reuniões dos líderes passaram a ser regulares. Mais tarde, à medida que a integração europeia se aprofundou e o nível necessário de decisão aumentou, os encontros foram introduzidos nos tratados como Conselho. A primeira vez, em Maastricht, em 1992. Reunia chefes de Estado e de governo, sempre no país que assegurava a presidência rotativa. Com a assinatura do tratado de Nice os encontros passaram a ser sempre em Bruxelas. Como tudo na União Europeia, esta foi uma decisão negociada: o número de votos de cada País no Conselho, que obedece a critérios populacionais, precisava de ser revisto. E, em Nice, a Holanda (que tem mais 50% de população) passou a ter mais um voto do que a Bélgica. Mas os belgas só aceitaram a alteração com uma garantia: os CE passavam a ser sempre em Bruxelas. Com o Tratado de Lisboa passou a ser uma das sete instituições da UE.
  • Há quatro reuniões por ano: em Março, Julho, Outubro e Dezembro. O presidente do CE indica os temas a abordar com muita antecedência – cerca de um ano antes. A organização do encontro precisa de cinco dias para preparar toda a logística e de três para desmontar o equipamento. Três ou quatro dias antes da data marcada, o presidente do CE envia uma carta formal aos chefes de Estado a convidá-los a estarem presentes. No dia da cimeira há um pequeno-almoço entre o líder do país que exerce a presidência rotativa da UE, o presidente do CE e o presidente da Comissão Europeia, para preparar o encontro.
  • Os líderes aterram no aeroporto de Bruxelas e chegam ao edifício Justus Lipsios, na Rue de la Loi, em limusinas Audi ou BMW, escoltados pela polícia federal belga. Cada comitiva tem um máximo de 21 elementos. Portugal costuma levar cerca de 14 pessoas às reuniões. A composição tem de ser enviada com antecedência bem como a indicação do nível de acesso de cada um. Por norma, Alemanha e França são os países com as delegações mais numerosas. Ângela Merkel leva até um intérprete pessoal. Já o presidente francês – como chefe de Estado – faz-se sempre acompanhar por um ajudante de campo, por um médico pessoal e pelo chefe de protocolo.

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  • Existem três tipos de credenciais: vermelha, azul e cinzenta. A primeira é a que dá um nível de acesso mais elevado e é entregue a apenas duas pessoas: ao embaixador do país junto da União Europeia e ao Antici – o mais próximo colaborador do diplomata (fixe este nome, é importante). A segunda é distribuída aos colaboradores do primeiro-ministro: ao ministro dos Negócios Estrangeiros ou ao secretário de Estado dos Assuntos Europeus, ao director geral dos assuntos europeus, ao número dois da representação em Bruxelas, ao representante no Comité Político e de Segurança, aos assessores diplomáticos, económicos e de imprensa do chefe de governo e aos diplomatas especializados colocados na UE. A terceira é dada ao pessoal de apoio.
  • A polícia municipal controla o perímetro do edifício. No interior, a segurança é feita por elementos das forças especiais belgas. Antes da chegada dos líderes todos os recantos são inspeccionados por cães. Há militares no telhado e uma equipa de prontidão ao lado da sala de reuniões principal. São recebidos num tapete vermelho pelo chefe de protocolo do Conselho Europeu e, muitas vezes, prestam declarações a alguns dos quase 2000 jornalistas acreditados para as cimeiras.
  • A cimeira começa sempre com uma reunião na sala do conselho às 16h30 de 5ª feira. Para além dos líderes estão presentes o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso e algum convidado ocasional.

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  • A sala do Conselho tem quatro entradas. As secretárias dos líderes estão dispostas num circulo oval. A distância entre os extremos é tão grande que os dirigentes não conseguem distinguir bem a cara uns dos outros (o que é complicado quando chega alguém novo). Por isso, as intervenções são transmitidas nos ecrãs que os líderes têm à frente. A sala está rodeada por gabinetes envidraçados para os tradutores, que não têm um guião. Muitas vezes a tradução não é directa: ou seja, a intervenção de Passos Coelho pode ser traduzida para inglês e só depois para polaco ou grego.
  • Os lugares são ocupados segundo a ordem das presidências rotativas. Ao centro da mesa, está o presidente do CE, Herman Van Rompuy. Do lado oposto o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. O líder que exerce a presidência rotativa fica sempre à direita do belga. Neste momento o lugar é ocupado pela Itália. O primeiro-ministro português senta-se normalmente entre os líderes da Alemanha e da Eslovénia. Passos Coelho tem tido Angela Merkel à esquerda e a primeira-ministra Alenka Bratušek à direita. Mas devido à rotação dos lugares estará entre a chanceler alemã e Durão Barroso. No próximo semestre voltará para junto de Bratušek.
  • Depois de Van Rompuy dar início aos trabalhos, os líderes são convidados a intervir. Não há um tempo limite para uma intervenção. Os líderes de Alemanha e França são os mais participativos. Em teoria, uma simples ronda poderia durar horas – mas não é o que acontece normalmente. Apenas nas questões mais importantes, como a discussão do orçamento comunitário, em Fevereiro de 2013, os líderes falam todos. Nessa noite, nenhum dos participantes dormiu: o encontro foi apenas suspenso para breves reuniões bilaterais para se tentar chegar a consenso. Nos intervalos os líderes distraem-se em conversas com os parceiros do lado ou a ver os smartphones e iPads.

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  • Além dos líderes e representantes das instituições europeias estão na sala o secretário-geral do CE e três funcionários cuja função é anotar o que os dirigentes dizem. A cada 20 minutos, um deles sai da sala e encaminha-se para a divisão 50.2 onde estão diplomatas de todos os Estados-membros. Aí chegado lê em voz alta os respectivos apontamentos em francês ou inglês.
  • Estes diplomatas são conhecidos por Anticis – lembra-se? – em honra do italiano Paolo Massimo Antici, que criou o grupo em 1974. A sua função é escrever o que o funcionário lhes disse e enviar o respectivo relatório às delegações nacionais que estão instaladas numa sala dois pisos acima. Antigamente os relatórios seguiam por fax, escritos à mão. Agora são enviados por email. É a forma do que se passa na reunião ser acompanhado em directo. Mas como as interpretações são muitas vezes diferentes, isso gera mal-entendidos.
  • Para além de enviar os relatórios, os diplomatas têm de estar atentos às necessidades dos respectivos líderes. Por exemplo: se Pedro Passos Coelho tiver uma dúvida ou precisar de um documento ou de uma aspirina, carrega num botão que existe à sua frente. Isso ilumina a luz portuguesa num painel colocado na sala dos Anticis – e o diplomata entra na sala para ver o que o chefe de governo precisa. Já houve um chefe de Estado que pediu uma cerveja.
  • Quando alguma das mensagens enviadas pelo diplomata às delegações mostra uma alteração de política, as representações tem na sua posse uma credencial vermelha que permite ao embaixador em Bruxelas entrar na sala e alertar o primeiro-ministro para uma questão importante.
  • Só as grandes questões é que chegam à cimeira sem estarem acordadas nos conselhos de ministros sectoriais. O primeiro esboço das conclusões começa a ser preparado com semanas de antecedência. Antigamente o documento era conhecido como o “monstro” devido à sua dimensão (quando os poderes do conselho eram sobretudo declarativos) Hoje já não é assim. O documento vai evoluindo até se chegar ao resultado final.

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  • À noite há um jantar que começa, normalmente às 21h30. A mesa tem mais de 11 metros e foi oferecida por Sílvio Berlusconi. As cadeiras de cada líder – que tem o respectivo nome à frente – estão separadas umas das outras por 34cm. Uma funcionária do Conselho Europeu leva sete horas a passar a ferro os guardanapos, as coberturas das cadeiras e a toalha que, por ser tão grande, é engomada já em cima da mesa.
  • As mesas de reuniões e refeição são adornadas por flores, sempre diferentes. No entanto, os recipientes onde são colocadas são reutilizados. Como a mesa de refeições é enorme, para a decorar, o florista tem de subir para cima dela – descalço, claro.

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  • À hora de jantar não é permitido mais ninguém na sala. Como muitas decisões são tomadas à refeição, é frequente os líderes levantarem-se para discutir algumas questões com os respectivos peritos. Em cimeiras mais críticas, a reunião prolonga-se pela noite dentro. Existem também duas credenciais douradas que permitem a entrada na sala. No final, o secretário-geral do conselho faz um resumo do que se passou aos Anticis.
  • As conclusões do encontro são escritas pelo secretariado do Conselho Europeu durante a noite e enviadas ao Antici. Este distribui-as pela comitiva. Às vezes, o que está escrito não é exactamente o combinado: é o consenso criado pela presidência. O chefe de governo lê-as durante o pequeno almoço e os diplomatas indicam-lhe o que é preciso conseguir alterar.
  • No segundo dia, a reunião começa de manhã e é normalmente dedicada a verificar as conclusões. O encontro termina com uma fotografia de família. Cada líder sabe o seu lugar através de uma bandeira do seu país colocada no chão ou no estrado. Seguem-se as declarações à imprensa. Cada país tem uma sala para o briefing. A portuguesa é a BD77.

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