Como?

Como se despede alguém? Melhor: como se escolhe quem deve ser despedido? Quais são os critérios objectivos? Eles existem? Vão embora aqueles que ganham mais? Vão os que não produzem? Vão aqueles que recusam fazer favores? Vão os que não passam todos os dias no gabinete para dizer olá? Vão os amigos? Os inimigos? Aqueles por quem a chefia nunca teve especial simpatia? Vão os calados? Os tímidos? Vão os barulhentos? Os atrasados? Os que cheiram mal?

Como se despede alguém? Em teoria é simples. A administração de uma empresa decide que é preciso cortar custos, estabelece um valor e encarrega a direcção de um jornal – porque é disso que se trata – de o atingir. Isso pode ser feito de várias formas: reduzir a dimensão do papel e alterar a sua qualidade para pior, diminuir o número de páginas, cortar colaboradores externos, etc. Quando nada mais resta, só há uma solução para diminuir custos fixos: cortar salários. Ou seja, despedir pessoas.

Em seguida os directores reúnem-se e fazem uma lista daqueles a dispensar. Não importa quanto tempo das suas vidas elas deram àquele jornal. Quantas horas perderam em prol de uma notícia, uma reportagem, uma crónica. Quanto tempo roubado à familia ali foi investido. Quantas vezes os filhos ficaram por deitar porque o fecho atrasou. Quantas noites foram passadas fora de casa. Não. Há um número a atingir. Houve uma ordem. É preciso cumpri-la. E salvar o próprio lugar.

Como se despede alguém? Faz-se uma ronda pela redacção e pinta-se um alvo nas costas dos jornalistas? Fica-se a olhar através dos vidros de um gabinete para o que se passa lá fora e decide-se em função de quem parece estar menos ocupado? Aquele que está no Facebook?

Como se despede alguém? Como se opta conscientemente por enfraquecer um jornal? Como é que se consegue dizer aos leitores que aquelas páginas vão continuar a ter a qualidade suficiente? Como se pode garantir que aquele órgão de comunicação social vai continuar a cumprir os seus deveres de informar, vigiar, denunciar? E nós? Como é que podemos ficar calados enquanto continuam a pregar pregos no caixão do jornalismo?

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“Dias de queda”

A Fernanda Câncio, ontem, no Diário de Notícias. Tiro-lhe o chapéu.

“Dias de queda

Houve o deslumbrante, comovente até, elogio de Teresa Leal Coelho ao Tribunal Constitucional, em forma de milagre das rosas: a maioria confessando que quis e acreditou nomear comissários políticos descobrindo, atónita e vingativa, que lhe saíram juízes do regaço. Houve a reação vagal de quem há muito vagou o lugar e que, 20 minutos de ausência depois, achou, apesar (por causa?) dos diretos de todas as TV, não dever uma palavra, uma justificação, um módico de boa educação, ao País no dia dele – decerto crendo que, neste caso como nos outros, se fingir que não se passou nada, é como se nada se tivesse passado.

Tanta coisa nesta semana. Mas não vou, como o desmaiado vacante, retomar o discurso como se não tivesse caído. Os nomes das pessoas que esta semana receberam notificação de despedimento no grupo editorial do DN ocupariam esta coluna toda – pensei usá-la assim. Mas seria uma outra forma de não me obrigar a falar sobre isso. De guardar o silêncio envergonhado, embaraçado, que os jornalistas guardam sobre as suas tragédias, nós que corremos a “cobrir” as dos outros, os despedimentos dos outros, as lágrimas, desalento e desespero dos outros, para fazer delas posto de espreita sobre o mundo.

Somos isso, temos essa missão: espécie de guarda avançada, cega, lenta, à procura de sinais. De vez em quando, os sinais vêm ter connosco. Abalroam-nos. Inevitável, diz a gestão deste grupo: que é “a única forma”. Posso vir a acreditar nisso. Mas preciso que me expliquem. Que me demonstrem. Que me oiçam; quem sabe tenho, temos, ideias para ajudar a resolver o problema. A lei, esse tão infrequentável luxo nos tempos que correm, diz que os jornalistas “têm o direito de participar na orientação editorial do órgão de comunicação social para que trabalhem, bem como a pronunciar-se sobre todos os aspectos que digam respeito à sua actividade profissional”. A lei diz isto porque reconhece aos jornalistas uma natureza específica, especial: somos fundamentais para a democracia. Mas poderemos sê-lo, com o que isso implica de independência, de segurança, de intrepidez e resistência, se formos tratados, nós que somos supostos averiguar sobre tudo, investigar sobre tudo, ter uma perspetiva sobre tudo, uma narrativa sobre tudo, afrontar tudo e todos, como se não tivéssemos capacidade de perceber o que nos acontece e porquê, riscar uma palavra sequer sobre isso?

E, o que é mais, se nos deixarmos assim tratar. Será assim tão impossivelmente heróico cumprir os nossos deveres e exigir os nossos direitos? Com que cara pediremos amanhã a alguém que dê a cara no nosso jornal, se não damos a cara por ele, pelo jornalismo, por nós? Com que cara continuaremos como se nada se tivesse passado, à espera de cair de vez?”

“Uma reportagem não é um iogurte. Uma redacção não é uma fábrica”

Este texto da Sarah Adamopoulos foi publicado em Janeiro no Aventar. Recupero-o hoje, um dia depois de conhecido o despedimento de 160 pessoas na Controlinveste, 65 dos quais jornalistas.

“Um jornal que ainda não foi inventado

Vi (ouvi) com interesse os participantes no Prós&Contras de ontem, dedicado aos «conteúdos» jornalísticos do futuro (devir próximo, sem dúvida). Mas também com tristeza, por verificar a que ponto os jornalistas profissionais da minha geração andam de facto «aos papéis», como bem disse Ana Sá Lopes. E andam aos papéis porque, creio eu, têm andado demasiadamente preocupados com o «modelo de negócio» e insuficientemente com o jornalismo propriamente dito. O que é compreensível, atendendo àquela que tem sido a realidade da generalidade dos jornalistas desde a morte anunciada da imprensa que constituiu a massificação do acesso à Internet.

De costas largas, a Internet tem desde há vários anos servido para justificar a destruição dos jornais, o despedimento de jornalistas, a reconstituição das redacções com recurso a jornalistas precários e estagiários, a redução de todos os meios, humanos uns e financeiros outros, a dispensa de revisores (tão importantes para a manutenção da qualidade dos textos) e outras etapas que paulatinamente têm vindo a ser queimadas, suprimidas no processo de produção da informação jornalística. Acrescente-se a esse panorama, já de si desolador, o «tráfico» de crónicas, por vezes a soldo zero, que cria espaço nos jornais para a defesa de interesses particulares e/ou de classes específicas da sociedade portuguesa.

Mas mais largas ainda do que as da Internet serão as costas do «novo paradigma», à boleia do qual se têm cometido todo o tipo de «erros estratégicos», aceitando (com voluntarismo até) que se acordizem os textos dos jornalistas que escrevem em bom português, dessa forma sujeitando-os (amiúde contra a sua vontade, como é natural em escreventes profissionais da Língua) à novilíngua disforme que é o AO90, ou aceitando que nos jornais se corra prevalecentemente atrás da notícia que morre no dia seguinte e será reproduzida em toda a parte, em vez de fazer jornalismo de investigação, e de fazer o que não há e tem de ser feito: um jornalismo de fundo (apenas ele pode competir com o chamado «jornalismo do cidadão», seja lá o que isso for para além de um «mercado» criado pela espectacular liberdade de expressão que a Internet propiciou), mediante uma leitura atenta, profunda e incessante da sociedade (que só pode ser assegurada pela reportagem e pela investigação realizadas por profissionais), leitura necessariamente independente relativamente aos interesses particulares das administrações, e, finalmente, por uma diferenciação do «produto» jornalístico.

«Produto», «conteúdos», eis duas palavras que não podem continuar a definir o jornalismo, nem a ocupar o lugar central de todos os debates sobre como salvá-lo. Um jornal é um negócio, é inquestionável, mas não é um negócio qualquer. Uma reportagem não é um iogurte. Uma redacção não é uma fábrica. Uma sociedade não é um hipermercado. Um leitor não é um cliente qualquer. O universo de leitores de um jornal não é um «mercado» indistinto de consumidores indiferenciados, como grandemente acontece no caso do sector alimentar (apesar de haver grandes diferenças entre os supermercados dos armazéns El Corte Inglés e os da cadeia lower-cost Minipreço).

Devagarinho, sem querer dar por isso, os jornalistas foram aceitando muita coisa inaceitável – tiros no pé em nome da manutenção de um emprego ou de uma colaboração precária que de modo algum valeu esse baixar de braços, essa aceitação, tantas vezes calada, de tudo o que foi transformando o jornalismo numa actividade indefinida, sujeita a imperativos de cariz essencialmente financeiro e comercial, grandemente dominada pelo discurso económico dos tempos, a que se acrescentou a «austeridade» que obrigou à redução das redacções, com as consequências que conhecemos. Muitos, aliás, vieram a perder o seu emprego, as suas colaborações, apesar de tudo o que se dispuseram a aceitar ao longo dos anos. Dupla amargura, de quem imaginou que o barato não saía caro.

Portugal está cheio de jornalistas e fotojornalistas desempregados. Alguns conseguiram arranjar outros modos de vida, abraçaram outras «escritas», alguns tornaram-se funcionários de empresas de «comunicação», outros relações públicas, outros assessores de imprensa (contra entrega da carteira profissional de jornalista), alguns são agora professores, outros tradutores, revisores, escritores-fantasma, autores disto e daquilo, fotógrafos de casamentos e baptizados, freelancersrecibo-verdistas de tudo e mais alguma coisa, etc, etc. Mas nunca mais deixarão de ser jornalistas, lá dentro deles, no lugar da verdade profunda de quem intrinsecamente são. E todos, ou muitos, sonham aos quarenta ou aos cinquenta anos com um novo projecto, anseio que ultrapassa em muito o desejo de voltar a ter trabalho.

O esquecimento a que na nossa sociedade se votam os mais experientes, por vezes os melhores, votou também esses jornalistas ao desprezo. Nenhum centro de emprego lhes arranjou ou arranjará trabalho, as contratações no jornalismo jamais se fizeram por essa via (o que de resto seria interessante estudar). E no entanto, apenas eles podem mudar para melhor o estado actual das coisas. Porque embora se tenham feito jornalistas na era analógica, experimentaram a mudança tecnológica, que aplicaram, pior ou melhor, mais ou menos depressa, ao chamado «novo paradigma». São aquilo a que gosto de chamar «tradutores», porque apenas eles dominam a um tempo as linguagens analógica e digital, que constituem duas culturas distintas, coexistindo ambas na actual sociedade global – habitada no Ocidente por um crescente número de leitores mais velhos, e não apenas pelos jovens dos países (e «mercados») emergentes.

Voltando ao caso português. Penso que os jornalistas mais jovens, os recém-licenciados a recibos verdes de 500 euros que proliferam nas redacções, transportam (muitas vezes por via da formação que tiveram nas escolas de jornalismo que espelham os equívocos a que o ofício foi sujeito) muitas das fragilidades que têm vindo a minar o sector: a prevalência da forma (do produto, do packaging, da embalagem) sobre o conteúdo (e não disse «conteúdos»), da vertigem sobre a reflexão, do acessório sobre o essencial. Mas na essência, o jornalismo é sempre a mesma coisa: informação, conhecimento, memória também. A pergunta é pois: como fazer uma informação diferenciada, que viabilize, pela qualidade profissional (distinta de tudo o que pode ser encontrado no vasto pântano de informação irrelevante que é a Internet dos «cidadãos» do Facebook e das caixas de comentários de toda a parte) novos projectos jornalísticos que a um tempo possam ser: a) editorialmente inovadores; b) financeiramente viáveis? Resposta: com a contribuição de ao menos uma parte desses tantos bons jornalistas nascidos nos «Trinta Gloriosos» e que naufragam hoje nos muitos mais anos «Desastrosos» que lhes calharam na rifa cósmica, societal, europeia, política. Há em cada um deles um jornal que ainda não foi inventado.

Projectos que serão sem dúvida ancorados na Internet, disponibilizando ao segundo a actualidade noticiosa colhida, seleccionada e editada por profissionais, mas também informação de fundo, que pense este mundo, que o interrogue, que o desconstrua para construí-lo mais adiante, de uma outra forma, e com outros «conteúdos» – alguns impressos em papel, com textos e imagens que não há na Internet.”

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Sem título

Pela Fernanda Câncio, no Jugular

“é a segunda vez em cinco anos. da outra, estava na redacção no dia em que os escolhidos foram informados. desta, não. calhou estar de férias. calhou que a primeira informação que tive foi de um amigo de fora do jornal, por sms, quando ainda nem tinha olhado para as notícias.

não, não era uma surpresa. sabiamos há meses, após a entrada de novos accionistas, e sobretudo depois de o jornal ter reduzido o número de páginas, que era expectável um despedimento colectivo. cada um fez as suas contas de cabeça — ou no site da autoridade das condições de trabalho onde, sinal dos tempos, existe já até um simulador para indemnizações –, pensou nas hipóteses que tinha, nas despesas fixas, naquilo de que poderia prescindir, talvez até (pensamos essas coisas) que há males que podem vir por bem. e esperou. não há muito mais a fazer, pensámos (não haveria?).

uma das pessoas que foi hoje despedida esteve comigo na grande reportagem, o meu segundo emprego. conheço-a há 23 anos. não somos propriamente amigos, mas quando recebi a primeira nota de culpa da minha vida, ofereceu-se para testemunhar por mim. e eu, que posso fazer hoje por ela?

duas das outras pessoas que foram despedidas estiveram comigo na notícias magazine. há 17 anos. as outras conheço-as do dn. excepto uma. essa conheci-a em 1992, numa reportagem. conheci-a a fazer aquilo que faz: resistir. jornalismo, se for a sério, é sempre uma forma de resistência, mas no lugar onde ela está é preciso resistir só para manter a cabeça direita.

não vou pôr nomes aqui, porque não pedi autorização para isso e porque não faz sentido — todas as pessoas a quem ontem comunicaram o despedimento têm um nome, uma história, uma vida, não apenas aquelas de quem gosto mais, que admiro mais, de quem me sinto mais próxima ou que fazem mais parte da minha narrativa pessoal.

não tenho a pretensão de perceber o que estão a sentir, o que estão a passar; não sei o que lhes dizer. eu, como todos os — por enquanto — poupados só posso saber o que sente quem sabe que ficou: uma espécie de traição, tanto mais traidora quando sabemos que, mesmo que eventualmente de nada servindo fazer alguma coisa, não há coisa alguma que nos ocorra fazer a não dizer porra, ou merda, ou outro palavrão qualquer, sabendo que do outro lado só se pode pensar ‘pois, estás muito sentida  e solidária e tal mas tens o teu emprego, não é? e porque é que tens o teu emprego e eu deixei de ter?’

e têm razão. porque é só isso que lhes oferecemos: um ombro, um abraço de adeus. e um não tão secreto suspiro: não foi ainda connosco. e a vertigem de saber que podia ser, que só por acaso não é, o quase desejo que fosse, para não sentir esta culpa, esta responsabilidade, este peso. talvez invejemos a liberdade — é fácil invejar a liberdade com um ordenado ao fim do mês.

quando foi que nos habituámos a aceitar que somos impotentes? que as coisas são o que são? que as decisões dos conselhos de admnistração, como ‘dos mercados’, são tão inelutáveis como as forças da natureza? quando foi que ficámos tão cobardes?

que aconteceu às comissões de trabalhadores, às negociações entre trabalhadores e empresas, aos compromissos, aos acordos, à divisão de forças? que aconteceu à nossa voz? que aconteceu connosco?

colectivo, nisto, só o despedimento. é bom que pensemos nisso — porque, na nossa hora, teremos por nós exactamente o que agora oferecemos. “

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“Um dia na vida”

Pelo Pedro Santos Guerreiro, ontem, no Expresso diário.

«Um dia na vida

Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.

A vida já continuará, mas hoje não. “Fui eu? Foram eles? O que fiz de errado? O que farei agora? Como vou dizer? Como vou fazer? Quero um abraço. Não quero ver ninguém. Quero viver. Quero morrer. Merda para isto. Respira fundo. Mas para quê? Rosna. Chora. Põe-te de pé! Desaba… Com esta idade? Com esta idade.”

Todos os dias são um dia na vida. De quem é chamado para sair. De quem não é chamado e fica, às vezes com mais culpa que alívio. Ou mais raiva que tristeza. Fuma-se lá fora, conversa-se lá dentro, recebe-se chamadas aflitas, “não, eu safei-me”. O que se faz aos braços, esmurra-se, cruzam-se? Num jogo de cadeiras, só os que tocam música não estão a jogar. De manhã, a empresa fora sacudida pelo comunicado. Alguns diretores são chamados para a consumação. Outros diretores tiraram férias, fugindo à notícia da razia. Veio o administrador, despedimento coletivo, reestruturação, corte de custos, a crise.

Ontem. Dez de Junho. “Portugueses, este ano de 2014 abre um caminho de esperança. Mas, para ter esperança no futuro, devemos continuar a trabalhar no presente. Não podemos ficar à espera, passivamente, que a situação se altere por si mesma.” Passivamente.

O discurso político é o mesmo desde 2011. É tudo muito difícil, é tudo sem alternativa, é preciso reformas estruturais, é preciso um largo consenso entre partidos e que inclua também os parceiros sociais. Tirando o não-há-alternativa, o discurso fazia sentido em 2011 e faz sentido em 2014 e é isso que não faz sentido nenhum. A devastação económica e social destes três anos tinha de ter tido um propósito de regeneração que não teve. Se tivesse tido, o discurso já seria outro. Isso é o imperdoável. Esse é o falhanço. Se ainda precisamos do que precisávamos ainda estamos como estávamos. Tirando estarmos mais pobres. E mais desiguais. E mais desempregados. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.

Todos os dias são um dia na vida de alguém. Hoje foi naquela empresa, ontem foi noutra, e tudo seria compreensível se fizesse parte do ciclo da vida. Faz parte do ciclo da morte. O desemprego de longa duração, o desemprego de jovens e de velhos, a redução dos apoios sociais (flexisegurança sem segurança) não é sentido de justiça nem uma sociedade a funcionar. É uma nação que exclui. Quem perde sai. Às vezes até é notícia. Hoje foi. Um dia de cada vez. Um dia é de vez.

Amanhã?

 

“I read the news today oh boy

About a lucky man who made the grade

And though the news was rather sad

Well I just had to laugh

I saw the photograph

He blew his mind out in a car

He didn’t notice that the lights had changed

A crowd of people stood and stared

They’d seen his face before

Nobody was really sure

If he was from the House of Lords”

A Day in the Life, The Beatles»

Compreender a guerra na República Centro Africana em 5m22s

Em Portugal só temos ouvido falar da crise na República Centro Africana quando está em causa a caótica decisão do governo de ora enviar para lá, como integrante de uma missão de paz, uma força da GNR, ora de optar por uma equipa da Força Aérea. Mas há muito mais do que isso: há uma série de anos que o conflito provoca a morte a milhares de pessoas. Esta é uma explicação rápida mas detalhada (para aquilo a que estamos habituados) que permite compreender o conflito.

“A Alemanha precisa de fazer as reformas que Portugal já fez”

Bruno Maçães é um secretário de Estado português dos Assuntos Europeus. Não o conhecem? Não faz mal. Poucos sabem quem ele é. Na Grécia é conhecido como “o alemão” por aderir incondicionalmente às políticas ditadas por Berlim. No Conselho de Assuntos Gerais e no Conselho dos Negócios Estrangeiros da União Europeia – onde já substituiu o ministro Rui Machete – é conhecido por falar em inglês, posição que contraria a política oficial do governo português. No Twitter, mantém uma conta alimentada em inglês, que se tornou célebre depois de publicar uma fotografia tirada nas celebrações do dia da independência da Polónia e onde esta segunda-feira escreveu que “a Alemanha precisa de implementer muitas das reformas estruturais que Portugal implementou nos últimos anos”. A frase faz parte de um discurso feito por Maçães a 11 de Março no segundo fórum Alemanha-Portugal, em Berlim. Resta saber de que reformas estava ele a falar.

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O resumo da crise política feito pela Reuters – para todo o mundo

A notícia é de hoje. É da Reuters. E é um retrato assustador da forma como Portugal é visto a partir de fora. Os sublinhados são meus.

Portugal political crisis a catalogue of missteps

By Andrei Khalip

LISBON (Reuters) – Portugal’s political crisis may have been papered over but the ill-timed power games have done little to help the bailed-out country’s credibility abroad.

Featuring several U-turns, including an “irrevocable” resignation by a junior governing coalition partner which ultimately led to his promotion, the crisis wasted a precious three weeks and left its protagonists weakened and facing the same heap of economic problems to solve as before.

The economy is still in its worst recession since the 1970s, deepened by austerity terms attached to its EU/IMF rescue loans, and Lisbon still has to cut its fiscal deficit to ensure funds keep flowing.

“Sadly, the crisis leaves Portuguese politics facing certain third-worldish disdain from abroad,” said Adelino Maltez, a political scientist in Lisbon. “Even our president said it’s an unpredictable country, investors see it too and hardly like it.”

The president, Anibal Cavaco Silva, showed his own lack of predictability by rejecting a government-proposed solution to an internal rift. He then went on a two-day bird-watching trip to the remote Savage Islands in the middle of the Atlantic.

His intention was to leave the main parties alone to negotiate a “national salvation” pact he had requested but he then made comments about the crisis to an army of reporters who accompanied him. Ultimately, it also left the 74-year-old president looking out of touch.

“It was a calm night and there have been no unpleasant news from Lisbon,” he said on Friday morning, just hours before the opposition Socialists broke off talks with the two parties of the ruling coalition and said no deal was possible.

The Socialists’ proposals showed they simply wanted to end all austerity, which would have defeated the purpose of an agreement.

Cavaco Silva wanted a cross-party pact to support the EU/IMF bailout, which requires the continuation of debt-cutting policies until the bailout program is due to end in mid-2014, although a return to market funding is now in doubt.

Analysts say there is no choice but to stay the general austerity course, begging the question as to why this political crisis flare in the first place.

RESIGNATION THAT WASN’T

The last three weeks has featured a catalogue of self-inflicted wounds by Portugal’s ruling class.

The crisis began on July 1 with the resignation of Finance Minister Vitor Gaspar – the architect of the austerity drive – who cited waning support for his strategy. One newspaper, “i”, said in a widely quoted report that the last straw for Gaspar had been an angry customer in a supermarket spitting at him and his wife.

The next day, the crisis spiraled when Paulo Portas, the leader of the rightist CDS-PP junior coalition party that guaranteed the centre-right government’s parliament majority, resigned as foreign minister.

He said he objected to the promotion of Gaspar’s close colleague Maria Luis Albuquerque to finance minister.  

Prime Minister Pedro Passos Coelho refused to accept Portas’ resignation, the two patched up their differences and agreed to preserve the coalition on the condition that Portas became deputy prime minister managing talks with the lenders.

Albuquerque, whose appointment was hailed by Brussels as a sign of continuity, remained finance minister, although now outranked by Portas.

Most of Portas’ party top brass had been caught unawares by his resignation and some openly criticized the move, leading to rumors of his replacement as party leader.

“The key problem is the hypocrisy of our politics – there is no liberal right, while the so-called right is happy to defend the welfare state to get votes,” Maltez said, adding that all the main leaders showed they have little control over their parties.

FOOD FOR SATIRE

With the crisis seemingly solved and Portugal’s risk premiums falling back after a big jump, the president dropped his bombshell, rejecting the coalition’s solution and calling for the broad political deal.

To lure the Socialists, who lead in opinion polls, he promised them an early election in 2014 if such a deal was sealed.

The events provided plenty of food for satire, which spared none of the political figures, while commentators called the situation a bad soap opera or a theatre of the absurd.

“The country deserved another political class, more adult, less given to spats and ready to put Portugal’s interests above their own,” business daily Diario Economico said in a recent editorial.

With the Socialists effectively demanding the bailout agreement be ripped up, no agreement was possible after six days of talks with many analysts blaming leader Antonio Jose Seguro for buckling to pressure from within his party.

The president belatedly approved the promotion of Portas and the continuation of the existing coalition.

Nicholas Spiro, managing director at Spiro Sovereign Strategy in London said the president’s intervention had only exacerbated divisions between the government and the opposition.

“The politics of economic reform in Portugal have become even more treacherous,” he said, warning that political support for the reforms demanded by the lenders has eroded sharply.

(Corrects 23rd paragraph to make clear Seguro is Socialist leader, not president)

(Editing by Mike Peacock)

Governo: novos ministros anunciados

Confirmam-se as nomeações de António Pires de Lima e de Jorge Moreira da Silva na Economia e no Ambiente. Passos Coelho surpreendeu ao apresentar a Cavaco Silva o nome de Rui Machete como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

Este é o comunicado da Presidência de República:

“Nos termos da alínea h) do artigo 133º da Constituição, o Presidente da República aceitou a proposta que lhe foi apresentada pelo Primeiro-Ministro de exoneração, a seu pedido, do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Dr. Paulo Sacadura Cabral Portas, do Ministro da Economia e do Emprego, Prof. Doutor Álvaro Santos Pereira, da Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, Doutora Maria da Assunção de Oliveira Cristas Machado da Graça, e do Ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Dr. Luís Pedro Russo da Mota Soares.
Nos termos da mesma norma constitucional, o Presidente da República aceitou a proposta que lhe foi apresentada pelo Primeiro-Ministro de nomeação do Vice-Primeiro-Ministro, Dr. Paulo Sacadura Cabral Portas, do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Dr. Rui Manuel Parente Chancerelle de Machete, do Ministro da Economia, Mestre António de Magalhães Pires de Lima, do Ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Eng. Jorge Manuel Lopes Moreira da Silva, da Ministra da Agricultura e do Mar, Doutora Maria da Assunção de Oliveira Cristas Machado da Graça, e do Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Dr. Luís Pedro Russo da Mota Soares.
O Presidente da República conferirá posse aos novos membros do Governo na quarta-feira, 24 de julho, pelas 17:00 horas, no Palácio de Belém”.

Foi este o discurso de Aníbal Cavaco Silva

“Boa noite,

Na semana passada, todos fomos confrontados, de forma inesperada, com uma grave crise política. Os efeitos fizeram-se sentir de imediato no aumento das taxas de juro e na deterioração da imagem externa de Portugal.

Desse modo, os Portugueses puderam ter uma noção do que significa associar uma crise política à crise económica e social que o País atravessa.

Num quadro desta gravidade, impõe-se que todos atuem de forma serena e ponderada, avaliando com bom senso e sentido de responsabilidade quais as soluções que, pela sua credibilidade e pela sua consistência, melhor servem o interesse nacional.

Esta crise política é diferente de todas as outras que Portugal conheceu no passado. Ocorre num momento em que estamos vinculados a um exigente Programa de Assistência Financeira estabelecido com a União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, instituições que nos têm vindo a emprestar os recursos necessários ao financiamento do Estado.

Assumimos o compromisso de pôr em prática, até junho de 2014, um conjunto de medidas visando a redução do desequilíbrio das contas públicas e a adoção das reformas que garantam a melhoria da competitividade da produção nacional.

O Programa de Assistência Financeira permanece em vigor, sendo a sua execução rigorosa uma condição indispensável para a nossa credibilidade no plano externo e para a obtenção dos financiamentos de que o País precisa.

Em face da perda de credibilidade e de confiança gerada pelos acontecimentos da semana passada, diversas vozes, de vários quadrantes, têm considerado que a atual crise política só poderá ser ultrapassada através da dissolução da Assembleia da República e da convocação de eleições antecipadas para finais de setembro.

Ouvi os partidos políticos com representação parlamentar e os parceiros sociais, que manifestaram opiniões muito divergentes sobre esta matéria.

No momento em que Portugal atravessa uma das fases mais críticas da história do seu regime democrático, é meu dever, em primeiro lugar, esclarecer os Portugueses sobre as consequências da realização de eleições antecipadas na conjuntura que vivemos.

Falta menos de um ano para o fim do Programa de Ajustamento a que nos comprometemos com as instituições internacionais e que temos vindo a executar desde junho de 2011, com pesados sacrifícios para os Portugueses.

Iniciar agora um processo eleitoral pode significar um retrocesso naquilo que já foi conseguido e tornar necessário um novo programa de assistência financeira. Os sacrifícios dos Portugueses, em parte, teriam sido em vão.

Durante mais de dois meses teríamos um governo de gestão limitado na sua capacidade de tomar medidas e de defender o interesse nacional. Nas últimas eleições para a Assembleia da República, entre o anúncio da dissolução do Parlamento e a posse do Governo mediaram 82 dias.

Por outro lado, os Portugueses devem ter presente que a realização de eleições antecipadas, mesmo se estas ocorressem no mês de setembro, implicaria que o Orçamento do Estado para 2014 só entrasse em vigor, na melhor das hipóteses, em finais de março do próximo ano.

O Orçamento do Estado de 2014 e o momento da sua entrada em vigor são determinantes para que Portugal possa regressar aos mercados e obter os meios financeiros indispensáveis ao financiamento da economia e do Estado e para encerrar com êxito o atual Programa de Ajustamento.

A falta de Orçamento do Estado agravaria, de forma muito significativa, o risco de Portugal ter de recorrer a um novo programa de assistência financeira. Este novo programa seria provavelmente mais exigente e teria condições mais gravosas do que aquele que atualmente está em vigor, com reflexos diretos – e dramáticos – no dia-a-dia das famílias. Além disso, não há sequer a garantia de que os parlamentos nacionais dos diversos Estados europeus aprovassem esse segundo resgate financeiro.

Existe uma outra razão, que a generalidade dos Portugueses desconhece, e que desaconselha a realização de eleições a breve trecho. Em 2014 irão vencer-se empréstimos a médio e a longo prazo, que contraímos no passado, no valor de 14 mil milhões de euros. Ora, um dos nossos credores, o Fundo Monetário Internacional, impõe, nestas situações, uma regra: com um ano de antecedência relativamente à data de vencimento dos empréstimos, o Estado devedor tem de possuir os meios financeiros necessários para efetuar o reembolso. Em palavras simples: Portugal tem de assegurar, nos próximos meses, a totalidade dos meios financeiros para proceder ao pagamento dos empréstimos que se irão vencer em 2014.

Por outro lado, a realização imediata de eleições legislativas antecipadas poderia comprometer a conclusão positiva da 8ª e da 9ª avaliações da execução do Programa, previstas para este mês de julho e para final de setembro, o que pode conduzir à suspensão da transferência para Portugal das parcelas dos empréstimos que nos foram concedidos.

Um cenário de eleições legislativas, no atual contexto, seria extremamente negativo para o interesse nacional. A terem lugar proximamente, as eleições iriam processar-se num clima de grande instabilidade financeira e seria muito elevado o grau de incerteza e a falta de confiança dos agentes económicos e dos mercados no nosso País.

Os sinais de recuperação económica surgidos recentemente iriam regredir e o investimento, que tão decisivo é para a retoma do crescimento e para a criação de emprego, continuaria adiado.

Com o acentuar da incerteza própria de um ato eleitoral nesta conjuntura, seria difícil reconquistar a confiança dos mercados a tempo de concluir com êxito o Programa de Ajustamento, em junho de 2014.

O risco de termos de pedir um novo resgate financeiro é considerável. No caso de um segundo resgate, a posição de Portugal ficaria muito desvalorizada tanto na União Europeia como junto de outros países com os quais mantemos um intenso relacionamento económico.

Além destas razões de ordem económica e financeira, existem também motivos de natureza política que desaconselham a realização imediata de eleições antecipadas.

As eleições, se tivessem lugar já no próximo mês de setembro, processar-se-iam num clima de grande tensão e de crispação entre as diversas forças partidárias, como os Portugueses têm vindo a observar. Isso tornaria muito difícil a formação, após o ato eleitoral, de um governo com consistência e solidez.

No momento atual, as eleições legislativas antecipadas comportam o sério risco de não clarificarem a situação política e, pelo contrário, podem contribuir para a tornar ainda mais confusa, mais precária e mais instável.

Era da maior importância que os partidos políticos adotassem, desde já, uma atitude de maior abertura ao compromisso e ao trabalho em conjunto para a resolução dos complexos problemas que Portugal terá de enfrentar no futuro.

Portugueses,

Tendo exposto ao País o que penso da atual situação e as razões pelas quais considero ser indesejável a realização imediata de eleições legislativas, quero apresentar agora o meu entendimento sobre a solução que melhor serve o interesse nacional.

No contexto das restrições de financiamento que enfrentamos, a recente crise política mostrou, à vista de todos, que o País necessita urgentemente de um acordo de médio prazo entre os partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento com a União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, PSD, PS e CDS.

É esse o caminho que deveremos percorrer em conjunto. Darei o meu firme apoio a esse acordo, que, na atual conjuntura de emergência, representa verdadeiramente um compromisso de salvação nacional. Repito: trata-se de um compromisso de salvação nacional.

O Presidente da República não pode impô-lo aos partidos, até porque um acordo desta natureza e deste alcance só terá consistência e solidez se contar com a adesão voluntária, firme e responsável das forças políticas envolvidas.

Terão de ser os partidos a chegar a um entendimento e a concluir que esta é a solução que melhor serve o interesse dos Portugueses, agora e no futuro.

Com a máxima clareza e com toda a transparência, afirmo que esse compromisso deve assentar em três pilares fundamentais.

Primeiro, o acordo terá de estabelecer o calendário mais adequado para a realização de eleições antecipadas. A abertura do processo conducente à realização de eleições deve coincidir com o final do Programa de Assistência Financeira, em junho do próximo ano.

Em segundo lugar, o compromisso de salvação nacional deve envolver os três partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento, garantindo o apoio à tomada das medidas necessárias para que Portugal possa regressar aos mercados logo no início de 2014 e para que se complete com sucesso o Programa de Ajustamento a que nos comprometemos perante os nossos credores.

A posição negocial de Portugal sairia reforçada, evitando novos e mais duros sacrifícios aos Portugueses.

Em terceiro lugar, deverá tratar-se de um acordo de médio prazo, que assegure, desde já, que o Governo que resulte das próximas eleições poderá contar com um compromisso entre os três partidos que assegure a governabilidade do País, a sustentabilidade da dívida pública, o controlo das contas externas, a melhoria da competitividade da nossa economia e a criação de emprego.

É essencial afastarmos do horizonte o risco de regresso a uma situação como aquela que atualmente vivemos.

Estou consciente das dificuldades políticas de alcançar este acordo, reconheço a dimensão do esforço que os dirigentes partidários terão de fazer, mas não tenho dúvidas de que ele constitui a solução que melhor serve o interesse nacional e que garante, a qualquer governo, as condições necessárias para enfrentar os problemas do País.

Desde que exista, à partida, vontade e espírito de cooperação entre os partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento, e desde que estes coloquem o interesse nacional acima dos seus próprios interesses, creio que não será difícil definir o conteúdo em concreto desse entendimento. Mais ainda, um acordo desta natureza não se reveste de grande complexidade técnica e poderá ser alcançado com alguma celeridade, podendo recorrer-se a uma personalidade de reconhecido prestígio que promova e facilite o diálogo.

Darei todo o apoio a esse compromisso patriótico, na convicção de que ele irá contribuir, de modo decisivo, para a confiança externa e interna e será um fator de esperança para todos os Portugueses.

Irei contactar de imediato os responsáveis dos partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento para analisarmos a solução que proponho.

Portugueses,

Chegou a hora da responsabilidade dos agentes políticos. As decisões que forem tomadas nos próximos dias irão condicionar o futuro dos Portugueses durante vários anos.

O que está em causa é demasiado grave e demasiado importante. A existência de um compromisso de médio prazo é a solução que melhor serve quer o interesse nacional quer o interesse de todos os partidos, que poderão preparar-se para o próximo ciclo político tendo dado mostras aos Portugueses do seu sentido de responsabilidade.

Sem a existência desse acordo, encontrar-se-ão naturalmente outras soluções no quadro do nosso sistema jurídico-constitucional.

No entanto, se esse compromisso não for alcançado, os Portugueses irão tirar as suas ilações quanto aos agentes políticos que os governam ou que aspiram a ser governo.

Recordo que o atual Governo se encontra na plenitude das suas funções e que, nos termos da Constituição, como disse, existirão sempre soluções para a atual crise política. Contudo, os Portugueses devem estar conscientes de que nenhuma dessas soluções dará as mesmas garantias de estabilidade que permitam olhar o futuro com confiança igual à da proposta que acabo de apresentar.

Depois de tantos sacrifícios que foram obrigados a fazer, depois de terem mostrado um admirável sentido de responsabilidade, os Portugueses têm o direito de exigir que os agentes políticos saibam estar à altura desta hora de emergência nacional.

Acredito que as forças políticas colocarão o interesse nacional acima dos seus interesses partidários, até porque todos estão conscientes da gravidade extrema da situação em que nos encontramos.

Quero, por isso, terminar manifestando a minha confiança no espírito patriótico das forças políticas e, acima de tudo, a minha esperança num futuro melhor para todos os Portugueses.

Boa noite.

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Paulo Portas: “Não me rendo ao dr. Cavaco e estou-me nas tintas para as benesses que ele me pode dar”

A memória é uma coisa tramada. No início da década de 1990 a RTP tinha um programa chamado B.I. Numa das emissões, o entrevistado foi o então director de O Independente, Paulo Portas. Para além do tom de voz, há uma série de frases memoráveis que assumem todo um outro significado quando analisadas à luz dos mais recentes acontecimentos. Sobre política, jornalismo, políticos e muito Cavaco Silva. Destaco algumas:

“Os partidos são uma maçada”

“Os quadros dos partidos normalmente são muito medíocres. Não têm mais nada que fazer na vida e fazem aquilo para subir na vida.”

“Para o CDS daqui a pouco já não se vai de certeza.”

“Não tenho nenhumas ambições políticas.

Gosto muito de política mas nunca farei política.”

“O dr. Cavaco Silva é, em primeiro lugar, o puro produto do fenómeno carismático em Portugal e em segundo lugar da total inexistência de correntes de opinião política em Portugal. O dr. Cavaco Silva é tudo e o contrário de tudo.”

“Os políticos tem um código hipócrita.”

“A direita política é um cemitério. Há-de se descobrir um dia um líder que não seja parecido com todos os chefes de direita que houve em Portugal e que não seja igual ao dr. Cavaco.”

“Não me rendo ao dr. Cavaco. Não penso como ele, não sou como ele, nem quero ser como ele, nem pensar como ele. E estou-me nas tintas para as benesses que ele me pode dar. Não me rendo.”

O melhor é ver:

Confiança: anos para ganhar, segundos para perder

Ontem, o Fernando Esteves escreveu um texto sobre a avalanche noticiosa dos últimos dias que eu gostava de ter escrito. Como não posso voltar atrás e antecipar-me, tiro-lhe o chapéu e partilho. É isto.

 Portas sai do Governo; Paulo reentra no Governo; Portas volta a sair, para Paulo voltar a entrar uns minutos depois. Paulo sai da liderança do CDS; Portas é recandidato a líder. Paulo Macedo é o novo ministro das Finanças; Paulo Macedo não mudará afinal de pasta. O Governo cai; afinal não cai e volta a cair para se levantar de novo. A novela mexicana podia continuar. O que se passou nos jornais e nas televisões nos últimos dias devia fazer-nos – a nós, jornalistas – parar para pensar. A única hipótese de o jornalismo tal qual o conhecemos não morrer em poucos anos é a aposta sem tréguas no reforço do laço de confiança entre quem escreve e quem lê. Episódios destes são uma lamentável confirmação das teses daqueles que constantemente nos acusam de sermos moços de recados de fontes interessadas em promover interesses instalados, sejam eles políticos, económicos ou outros.

Sim, é verdade que a exclusividade e a antecipação são valores-notícia muito poderosos. É importante sermos os primeiros. É fundamental tentarmos ser os únicos. Mas ainda mais fulcral do que isso é preservar a essência da profissão:honrar o compromisso de responsabilidade que temos com quem nos lê. Não sou uma virgem púdica; muito longe disso. Toda a minha carreira foi feita a perseguir exclusivos e a tentar ser o primeiro. Já errei algumas vezes. Tentei aprender com as falhas. Numa altura em que as pessoas não têm motivos para confiar nos políticos, não estará na hora de lhes darmos razões para confiarem em nós?”

confiança

Conselhos para uma coligação com Paulo Portas

Em Setembro do ano passado o Vítor Matos deixou, no Elevador da Bica, um guião para se sobreviver a uma coligação com Paulo Portas. Hoje, mais do que nunca, vale a pena recordá-lo. Haja alguém que o mostre a António José Seguro.

1º – Nunca deixar Paulo Portas entrar em estado de necessidade; ele deve ser acarinhado, incluído e mimado; devem fazer-se algumas das suas vontades e tudo estará bem; deixe-o fazer umas asneiras insignificantes, depois chame-o à razão com calma e complacência; nunca deixe que ele ache que você o vai tramar;

2º – Se o Paulo entrar em estado de necessidade e pensar que você o vai tramar, nunca deixar que ele passe ao patamar seguinte; oiça-o, convide-o para almoçar e jantar, responsabilize-o com decisões, dê-lhe coisas difíceis para ele resolver, mas não o deixe voar, mantenha-o a um braço de distância;

3º – Este é o patamar seguinte, e você está coligado com Portas está em apuros. Ele passou a achar que está a lutar pela sobrevivência e já é difícil pará-lo;

4º – Se já percebeu que Paulo Portas está a lutar pela sobrevivência, é melhor sacar de uma arma política qualquer, muito depressa e a abatê-lo já, é matar ou morrer; não lhe dê tempo.

5º – Tarde de mais, game over. Se não percebeu que estava a lidar com Paulo Portas, você é um cadáver político. Ele parece que também caiu, mas está apenas ferido; vai levantar-se e continuar numa ribalta qualquer, enquanto você continuará por aí derrotado a remoer naquilo em que errou.

A propósito do fecho da televisão pública grega

“You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.

The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be brought to you by the
Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
The revolution will not give your mouth sex appeal.
The revolution will not get rid of the nubs.
The revolution will not make you look five pounds
thinner, because the revolution will not be televised, Brother.

There will be no pictures of you and Willie May
pushing that shopping cart down the block on the dead run,
or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
NBC will not be able predict the winner at 8:32
or report from 29 districts.
The revolution will not be televised.

There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of Whitney Young being
run out of Harlem on a rail with a brand new process.
There will be no slow motion or still life of Roy
Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the proper occasion.

Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
Junction will no longer be so damned relevant, and
women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day.
The revolution will not be televised.

There will be no highlights on the eleven o’clock
news and no pictures of hairy armed women
liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
The theme song will not be written by Jim Webb,
Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be right back after a message
bbout a white tornado, white lightning, or white people.
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
The revolution will not go better with Coke.
The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
The revolution will put you in the driver’s seat.

The revolution will not be televised, will not be televised,
will not be televised, will not be televised.
The revolution will be no re-run brothers;
The revolution will be live.”

Stockton, a cidade que faliu

Stockton, na Califórnia, foi a maior cidade norte-americana a declarar falência. Aconteceu em Junho de 2012, motivada pela queda do sub-prime e pelo colapso do mercado imobiliário (entre 2006 e 2007 o valor das casas caiu 44%). O documentário “Who Took Down Stockton?” conta a história das decisões que levaram a este desfecho – e dos seus responsáveis. Surpresa: o rasto chega a Wall Street. 

Não foi um corte de cabelo. Foi mais tirar-lhes o escalpe

O ministro das Finanças garantiu que os depósitos dos portugueses estão seguros. No Chipre também estavam. Até ao dia em que, em troca de um resgate de 10 mil milhões de euros, a troika exigiu que as autoridades confiscassem parte dos depósitos bancários dos cipriotas. Na ilha, a medida é conhecida como o “corte de cabelo”. E, tal como muitos em Portugal, a população acredita que está a ser usada como uma espécie de cobaia. Se funcionar no Chipre, a medida resultará noutro local. Esta reportagem do canal australiano ABC mostra os efeitos da crise num país que até há pouco tempo tinha pleno emprego.

Imagens de quatro países em crise

O The New York Times decidiu fazer um trabalho sobre a crise da dívida na Europa. Não se centrou em números, gráficos ou indicadores macro-económicos. Focou-se nas pessoas. Enviou fotógrafos a Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda e Letónia e o resultado foi um trabalho multimédia com imagens a preto e branco que ilustram a situação das famílias e a contestação social nos vários países. O texto principal dá-nos o enquadramento geral da crise europeia e a especificidade de cada país.

O trabalho chama-se Europe’s Debt Crisis: No Relief on the Horizon. O título é pessimista, mas um óptimo exemplo do jornalismo multimédia que já fez escola no NYT.

@Mauricio Lima for The New York Times

@Mauricio Lima for The New York Times