Eles decidiram viver e morrer em nome de Alá

Foram meses de trabalho. Muitas noites sem dormir. Inúmeras horas passadas em frente ao computador. A pesquisar, investigar e também a conversar: com especialistas, camaradas jornalistas e, mais importante, com os próprios. Portugueses que pelos mais diversos motivos decidiram deixar para trás a vida que levavam e viajar para a Síria, onde se juntaram ao Estado Islâmico. Uns estão mais activos na frente de combate. Outros participam na máquina de propaganda da organização. Poucos subiram na hierarquia. Alguns já morreram. O objectivo era contar a sua história, bem como a do próprio Estado Islâmico. Explicar as suas origens, organização, estrutura de liderança e funcionamento. Enquadrar a informação e contá-la de uma forma acessível e cativante para que todos compreendam o que está em causa – com algumas novidades importantes. O resultado está aí. Feito, impresso e com a chegada às livrarias marcada para a próxima sexta-feira, 24 de Abril. Espero que gostem.

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Os culpados

Acontece de tempos a tempos. Um barco improvisado naufraga no mediterrâneo, dezenas ou centenas de pessoas morrem. Outras são salvas. Relatam o drama por que passaram. Os motivos que as levaram a arriscar a vida numa perigosa viagem. São depois levadas para centros de alojamento de onde, mais tarde ou mais cedo, acabam por sair. Umas porque conseguem asilo num país europeu. Outros porque fogem e engrossam a lista de imigrantes ilegais na União Europeia.

Enquanto isso, os responsáveis políticos europeus anunciam medidas: novos campos, mais apoios aos resgates no Mediterrâneo, por vezes mais dinheiro, mostram-se chocados, pesarosos, quase sempre apresentam um culpado. Normalmalmente, os transportadores. Mafiosos que se aproveitam do desespero alheio para ganhar dinheiro com quem está disposto a arriscar a vida para atravessar um mar. Foi o que aconteceu nos últimos dias. Mais uma vez.

Mas poucos se dispuseram a dizer o óbvio. Há aqui duas vontades conflituantes. De um lado, pessoas, seres humanos cuja realidade, cuja vida, é tão miserável que estão dispostas a arriscar tudo, incluindo a própria sobrevivência, numa travessia potencialmente mortal. Começam por percorrer milhares de quilómetros a pé, através de vários países africanos, com a ajuda de redes clandestinas, para chegar ao norte de África. Aí, se já não tiverem dinheiro, trabalham no que for possível para acumular a quantia pedida pelos transportadores. Juntam-se a milhares de outros, de diferentes nacionalidades que se acumulam na costa africana. Quem os pode censurar? Fogem à guerra, à fome, à pobreza, às limpezas étnicas e religiosas, à ditadura, à miséria. Se alguém lhes diz que os consegue levar para o outro lado do mar, para a terra de esperança, nem pensam duas vezes. Saltam para bordo. Muitas vezes para a morte.

Do outro lado desse mar está um continente que não está disposto a recebê-los. Pelo menos a todos. Isso seria o colapso do sistema social vigente. Mas ninguém está disposto a dizê-lo. Ninguém excepto os os partidos anti-imigração. E ninguém quer estar ao lado deles. Ninguém quer ser o responsável pela criação de uma fortaleza cujo destino final seria a queda. Ninguém. Mas todos pensam o mesmo. E todos têm responsabilidades históricas. Não só por causa da colonização e descolonização, mas também pelo apoio velado a guerras, revoluções e recentemente, em intervenções militares como na Líbia.

A solução não está em encontrar culpados. A solução está em implementar políticas efectivas que contrariem guerra, a fome, a pobreza, as limpezas étnicas e religiosas, a ditadura e a miséria. Medidas que permitam a essas pessoas ter vidas melhores nos seus países. Políticas que vão mais além da mera cooperação para o desenvolvimento que, apesar de importante, é um mero paliativo para problemas complexos. Cabe-nos a nós, cidadãos, exigir essa mudança. Cabe-nos a nós não aceitar nem tolerar os meros atirar de culpas. Porque aqueles que tentam atravessar o Mediterrâneo são inocentes. Os culpados somos nós.

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O sexto elemento

Chama-se Sadjo Turé, nasceu na Guiné-Bissau e cresceu na zona de Massamá. Por volta de 2006 emigrou para o Reino Unido. Em Londres encontrou amigos de infância: Celso e Edgar Rodrigues da Costa, Fábio Poças e Sandro Monteiro e conheceu Nero Saraiva. Em 2013 foi detido em Gatwick antes de embarcar para Damasco, capital da Síria, por suspeitas de actividades terroristas. Foi libertado uma semana depois. Mas no início de 2014, conseguiu realizar a viagem e juntou-se aos amigos como um dos combatentes portugueses nas fileiras do Estado Islâmico. Esta semana na Sábado.

Segurança

Coisas da Sábado

Amanhã nas bancas: a operação do SIS que apanhou espiões russos em Portugal; Rui Pedro Soares conta tudo sobre o negócio da liga espanhola com Carlos Santos Silva; as histórias de bastidores das coligações governamentais; os ajustes directos de Sampaio da nóvoa na Universidade de Lisboa; quais são as ideias de Hillary Clinton; o sexto jihadista português da célula de Londres; entrevista de vida a Álvaro Costa; as vitórias de João de Sousa e Frederico Marques no ténis; Sia, a cara menos conhecida da pop mundial; e muito mais.

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Novidades em breve

O blogue tem estado mais calmo, mas não está esquecido. Pelo contrário. Há um bom motivo para esta pausa, que deverá terminar em breve. Ou seja, há boas notícias a chegar.

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A vida virada do avesso

A vida virada do avesso.

Micro revista de imprensa

Há crónicas e crónicas. Hoje, se tiverem que ler alguma coisa, leiam o João Taborda da Gama, no Diário de Notícias.

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Nota: a micro revista de imprensa destaca um artigo publicado nos jornais e revistas portugueses. Pode ser uma notícia, uma reportagem, uma entrevista ou uma crónica. Pode ter várias páginas ou ocupar uma coluna. O critério é sempre o mesmo: importância, interesse e qualidade