O aviso do “animal feroz”

“A política para si acabou?

Oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou.”

José Sócrates, ao Diário de Notícias

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Concurso diplomático: as 90 perguntas do “trivial pursuit”

Sabe o que aconteceu após a batalha de Solferino? Ou qual foi a teologia criada por Gustavo Gutierrez, Bernardo Boff e Juan Luis Segundo? Sabe quem escreveu “As mãos de Abraão Zacut? Ou quem foi António Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”? Então provavelmente passariam na prova de cultura geral do concurso de ingresso na carreira diplomática.

Este ano, a prova oscilou entre perguntas muito fáceis e outras mais complicadas. A taxa de aprovação reflectiu isso mesmo: dos que compareceram, 188 passaram, e 639 reprovaram. Fica sempre uma pergunta: como se prepara um exame deste género?

Para quem quiser testar os seus conhecimentos, a Prova de cultura geral está aqui.

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Concurso diplomático: 639 candidatos chumbaram na prova de cultura geral

Começou a corrida: 188 candidatos sobreviveram à primeira prova do concurso de ingresso na carreira diplomática, a de cultura geral, que há dois anos tanta polémica causou. A prova realizou-se no passado sábado, na faculdade de direito e foi considerada “mais normal” pelos candidatos presentes.Tal como as anteriores, foi de escolha múltipla, e continha 90 perguntas.

Dos 1693 inscritos, 639 chumbaram por não terem conseguido um mínimo de 14 valores – não acertaram num mínimo em 63 respostas – e 866 reprovaram por falta de comparência. Os resultados foram publicados esta segunda-feira na página do MNE e os candidatos aprovados não terão tempo para descansar: no próximo sábado, dia 27, realiza-se a prova de português e de inglês.

Detalhe: na prova de lingua portuguesa os candidatos terão de optar entre responder na nova ou na antiga ortografia – apesar de o enunciado estar “em conformidade com o Acordo Ortográfico”. Escolha múltipla, portanto.

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O jornalismo bem vivo

Se há dias em que deitamos as mãos à cabeça com algumas coisas que são feitas na comunicação social portuguesa, há outros em que encontramos trabalhos que emocionam. É o caso da grande reportagem Quem é o filho que António deixou na guerrada Catarina Gomes, para o Público e a SIC. Porque não há nada melhor do que uma boa história.

Maxi: o emplastro, o golaço e a decisão

Caro Maxi,

Como estás concentrado na Copa América, não sei se tens lido os jornais e visto televisão. Desde ontem que a imprensa diz que te preparas para trocar a Luz pelo Dragão. Não sei se é verdade. Há cerca de semana e meia as mesmas notícias indicavam que tinhas renovado por três anos. Portanto, até à confirmação oficial, acredito que ainda não tomaste aquela que seria a pior decisão da tua vida.

O que não me impede de ter umas coisas para te dizer. Quando chegaste a Lisboa, no Verão de 2007, vinhas rotulado de extremo. Raçudo. Lembro-me de olhar para ti e pensar “este gajo não tem pinta de jogador, é parecido com o emplastro”. Os primeiros tempos pareciam confirmar essa ideia. Sim, eras raçudo. Mas de extremo tinhas pouco. A técnica não era a melhor. O drible não saia. Velocidade? Assim-assim. A cabeça? Sempre apontada para o chão. Confesso, era um sofrimento ver-te no lugar que já tinha sido de Vitor Paneira, Karel Poborsky e muitos outros.

Até que marcaste aquele golo contra o Milão. Golo, não, golaço. Fora da área, passaste a bola para o pé esquerdo, sim o esquerdo, e remataste ao ângulo. Estava atrás dessa baliza e, a partir daí, cada vez que olhava para ti lembrava-me desse golo. Cada vez que fazias uma asneira, lembrava-me do Dida, sentado no chão, impotente para travar aquele remate demolidor. Definitivamente, não eras um extremo. Mas tinhas qualquer coisa.

Acho que nessa época, o lateral direito titular era o Nélson. E quando ele foi vendido para Espanha, alguém teve a brilhante ideia de te colocar a jogar na defesa. Não eras brilhante a atacar. Mas tinhas tudo para ser bom a defender. Não desistias. Eras raçudo. E se fosse preciso desistir da bola para apanhar o jogador, estavas disposto a fazê-lo. Foi o melhor que te podia ter acontecido. Nessa altura não te apercebeste, mas estavas num momento determinante da tua carreira: ou continuavas um médio medíocre que acabaria num qualquer clube menor; ou te tornavas num lateral direito de eleição. Escolheste a segunda opção. Ou melhor, alguém escolheu por ti. No Benfica. O Benfica.

É por isso que és hoje, aos 31 anos, o lateral direito titular da selecção do Uruguai. É por isso que és, hoje, oito anos depois, um dos capitães do Benfica. Um dos jogadores mais queridos da massa associativa apesar de não seres um génio com a bola nos pés. És a prova de que o querer e a capacidade de trabalho conta tanto ou mais do que o talento para se ser um profissional bem sucedido. Ok, admito, nestes últimos anos, não houve muitos laterais talentosos a disputar contigo um lugar. Mas sabes porquê? Porque todos os treinadores sabiam que podiam estar descansados contigo. Tal como os adeptos. Sabiam que ias correr até ao último minuto, até que as pernas não aguentassem mais e que ias dar tudo pelo emblema que te pesava no peito. Mesmo que não fosse suficiente – como por vezes não foi.

Passaste a carregar aquilo que se chama de “mística” do clube. Não é só um dos mais velhos, como és um dos mais antigos. Em Portugal ganhaste tudo o que havia para ganhar. Pelo que tenho lido, o Benfica quer que continues e tu queres continuar. Já não é a primeira vez que isto acontece – e tal como há três ou quatro anos parece haver um empresário que está mais interessado nele próprio do que em ti. Lembras-te do teu amigo Christian Rodriguez? Pois.

É isso que te quero dizer. Tens 31 anos e duas opções. Continuares no clube que te deu tudo – e que te quer continuar a dar – ou optares por uma mudança. Percebo o que te vai na cabeça. Estás a aproximar-te do fim da carreira e tens uma agremiação a acenar-te com um salário milionário. Pelo que vem nas notícias, quer mesmo fazer de ti o jogador mais bem pago do País. Por isso, se achas que três milhões de euros por três anos não é suficiente para garantires o teu sustento para o resto da vida e que só o conseguirás fazer com oito milhões em quatro anos, aceita. Vai. Junta-te ao emplastro. Será como uma facada. Tornará este defeso ainda mais parecido com o Verão quente de 1993 – e as vitórias da época que aí vem ainda mais saborosas.

Nunca te esqueças. Uma agremiação será sempre uma agremiação e o Benfica será sempre o Benfica: o maior clube do mundo. Agora decide de que lado queres estar. No lado mau da força ou a lutar pelo #rumoao35

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Coisas da Sábado

Amanhã nas bancas: Madeira e Açores low cost; a segunda parte do interrogatório a José sócrates; entrevista a Raquel Varela; 21 coisas que não sabe sobre Jeb Bush; o pensamento económico de David Neeleman; o carpinteiro que assaltava bancos; a história do “Chico das Cassetes”, o dono da editora Espacial; o português mais famoso do YouTube; as ideias e paixões de Rui Vitória; as mulheres de José Saramago; e muito mais.

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O Rui e o Vitória

Caro Rui,

Espero que esta carta te encontre bem. Desculpa, não espero. Sei que te encontras bem. Acabaste de dar o maior passo da tua carreira. Imagino que estejas eufórico, entusiasmado, ansioso por começar a trabalhar. Espero que estejas demasiado ocupado com relatórios de jogadores, estatísticas e com o planeamento da próxima temporada que não te resta tempo para leres esta carta. Ainda assim, decidi escrevê-la. Porquê? Por isto.

Nesta altura os teus amigos devem estar todos a dar-te os parabéns e a dizer-te como as coisas vão correr bem. A maioria vai dizer-te que vais ganhar tudo no Benfica. Que vais ficar na história. Melhor, que vais fazer história. Eu não estou aqui para te dizer isto. Pelo contrário. Escrevo-te esta carta para que dizer que, provavelmente, as coisas não vão correr tão bem assim.

Os problemas vão começar logo no teu primeiro dia. Sei que sabes disso, mas nunca é demais lembrar. Chegas ao Benfica numa posição difícil: suceder ao treinador mais bem sucedido das últimas décadas. Muitos vão olhar para ti de lado. Alguns vão dizer que não tens currículo. Que és um nome fraco. Que ainda não provaste nada. Outros vão dizer que foste uma má escolha. Que a correcta seria ir buscar um nome consagrado ao estrangeiro ou contratar o Marco Silva. Aprende a lidar com isso.

Quando entrares pela primeira vez nos balneários, os jogadores mais antigos vão olhar para ti de uma de duas formas: como a segunda escolha que sucedeu ao treinador campeão; ou como o treinador que os vai voltar a fazer campeões. Não percas a oportunidade de os conquistar logo no primeiro dia. Ganha-lhes o respeito, conquista-lhes a lealdade. Não te esqueças: tu dependes mais deles do que eles de ti.

Quando entrares pela primeira vez no Estádio da Luz e o speaker anunciar o teu nome, vais ter uma das maiores ovações da tua carreira. Mas não te iludas. Esses aplausos iniciais não são para ti. São contra o teu antecessor. O ídolo que agora é adversário. Quando as palmas pararem, todos os olhos vão estar postos no banco. Todas as tuas opções vão ser escrutinadas. Até a tua postura vai ser analisada: gritas? Gesticulas? Corres? Mascas pastilha? Tira-la da boca e voltas a pô-la lá dentro? Usa essa atenção em benefício da equipa. Dá o peito às balas e protege os jogadores – eles farão o mesmo por ti.

Ao contrário dos últimos anos, os jogos da pré-temporada serão importantes. Eles vão marcar o ambiente com que vamos chegar ao início do campeonato. Não os descures, nem desvalorizes. Porque deles depende o que os jornais – e logo depois os sócios – vão dizer de ti. Deles depende a atmosfera com que vamos iniciar a competição: confiantes e dominadores ou nervosos e amedrontados. Uma onda transformada em tsunami ou um rio que está a perder o caudal.

Após os primeiros jogos, a tua cara vai aparecer em todos os jornais e televisões. Serás herói ou vilão. Serás o novo Mourinho ou o novo “Lotopegui”. Serão dedicadas dezenas de páginas às tuas opções. Serão dedicadas horas de antena às tuas decisões. E como já percebeste, terás sempre um fantasma a pairar sobre a tua cabeça. Ele chama-se Jorge.

Será com ele que vão ser feitas todas as comparações. As do passado e as do presente. Por jogadores, adeptos, dirigentes e comentadores. Vão comparar os resultados, as estatísticas, os golos marcados e os sofridos, a forma física, o estado anímico e um sem número de outras coisas relacionadas com a teoria da bola que serve para entreter as conversas de café. Não queiras ser ele. Sê tu próprio. Trata os jogadores com respeito e eles respeitar-te-ão. Trata os funcionários do clube com simpatia e eles farão tudo por ti. Partilha os méritos das vitórias e assume os erros das derrotas. Põe os interesses do clube à frente dos teus. Não te julgues mais inteligente do que todos os outros. Estabelece empatia com os adeptos porque vão ser eles a levar-te ao colo no estádio. Tem a humildade de reconheceres os teus erros, porque vais cometê-los – mas não insistas neles por teimosia.

No meio disso tudo, se puderes, espreita as imagens das festas dos últimos anos no Marquês e imagina-te lá daqui a um ano. Nessa altura já ninguém te irá tratar por Rui: serás o Vitória. Então sim, as palmas já serão para ti. Mas mesmo nessa altura, nunca te esqueças de uma coisa: no fim da linha, és apenas um treinador. Mais um dos que vão ter direito a algumas linhas na História do Benfica. Repito: a História do Benfica.

Como disse no início, preparas-te para dar o maior passo da tua carreira. Mas não é apenas isso. Provavelmente, este será o maior passo que alguma vez darás. Porque não há um clube maior do que este. Será difícil. Muito mais do que possas pensar ou eu te possa dizer. Mas isso também significa que pode saber melhor. Espero que fiques muitos e bons anos. Será um bom sinal. Para ti – e, sobretudo, para nós. #rumoao35

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