A escolha errada de um presidente africano

Era uma vez um país africano que tem o mesmo presidente desde 1979. A partir dos anos 1990, esse país enriqueceu à custa da exploração do petróleo. Só que o dinheiro do petróleo não chegou à população: ficou com a família do presidente. Ele e os filhos fizeram vários negócios na Europa. Compraram carros, casas, constituíram empresas. Durante anos, o governo do país europeu tolerou este enriquecimento, ilícito de acordo com os seus próprios padrões. Até que um grupo de cidadãos e organizações não governamentais decidiu agir e apresentar queixa contra o presidente africano. Acusaram-no de se apropriar de dinheiro do estado para adquirir bens no tal país europeu. A justiça seguiu o seu caminho. Em Julho, um juiz emitiu um mandado de detenção contra o filho do presidente. E agora apreendeu-lhe milhões de euros em bens e propriedades.

Não, não estou a falar de Angola – mas podia. Não, não estou a falar de Portugal – se calhar não podia. Estou a falar da Guiné Equatorial e da França, país onde, durante anos, Teodoro Obiang Nguema e o filho, Teodoro Nguema Obiang, gastaram milhões de euros em propriedades, carros, vinhos raros e obras de arte. E onde agora estão os dois a ser procurados e, se forem detidos, serão julgados por crimes cometidos no seu próprio país. A história foi contada há poucos dias no The New York Times que descreveu a mansão comprada pelo filho do presidente, em Paris, por 180 milhões de dólares:

The building has 101 rooms, including a Turkish bath, a hair salon, two gym clubs, a nightclub and a movie theater. (…) In September, the French police seized 11 luxury cars belonging to Mr. Obiang’s son, including two Bugatti Veyrons, among the most powerful and expensive cars in the world; a Maybach; an Aston Martin; a Ferrari Enzo; a Ferrari 599 GTO; a Rolls-Royce Phantom; and a Maserati MC12.

 

Para além da apreensão, a justiça francesa emitiu um mandado de detenção contra Teodoro Nguema Obiang e acusou-o de abuso de dinheiros públicos e de bens do Estado, quebra de confiança e lavagem de dinheiro. Para o proteger com a imunidade diplomática, o presidente, Teodoro Obiang Nguema, nomeou-o vice presidente da Guiné Equatorial. No ano passado já o tinha nomeado delegado permanente junto da Unesco.

Fez a escolha errada. Tivesse Teodoro Obiang Nguema optado por Portugal para fazer os seus investimentos, ninguém se preocuparia em saber onde foi buscar o dinheiro para comprar lotes de vinhos ou colecções de arte nacionalizadas num qualquer banco obscuro. Além disso, provavelmente, há muito que já seria membro de pleno direito da CPLP e não apenas um observador incómodo que insiste em pedir a adesão mesmo que para isso tenha de decidir, por decreto, que o português é uma das línguas oficiais da Guiné Equatorial.

 

 

1 thought on “A escolha errada de um presidente africano

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