Uma história oral

Há 13 anos, os timorenses desafiaram as probabilidades e votaram em massa num referendo que os conduziu à independência. Os dias que se seguiram foram de destruição no pequeno território – mas também de luta e esperança. Para assinalar a data, fica aqui a versão integral de um texto que publiquei na Sábado a 17 de Maio deste, no 10º aniversário da independência. Uma história oral da independência.

“As negociações entre Portugal e a Indonésia, sob os auspícios da ONU, decorriam há anos. O ministro dos Negócios Estangeiros indonésio, Ali Alatas, tinha chegado a dizer que “Timor era uma pedra no sapato indonésio”. O chefe da diplomacia portuguesa, Jaime Gama, respondeu-lhe que a ferida podia infectar e “até gangrenar”. Mas, mesmo após a queda do regime de Suharto e a subida ao poder de Habibie, ninguém esperava a proposta indonésia que culminou nos acordos de 5 de Maio de 1999 que permitiram agendar um referendo onde os timorenses eram chamados a decidir se aceitavam ou não a integração na Indonésia. A palavra independência nunca foi referida – mas estava subentendida.

José Ramos Horta. Representante da Resistência timorense no exterior. Sabíamos que aquele acordo era o máximo que podíamos arrancar da Indonésia. Era uma janela de oportunidade que tínhamos de aproveitar. Mas a violência não era só previsível. Ela já estava a eclodir.

Taur Matan Ruak. Todo o ano de 1999 foi um ano de morte, destruição e intimidação. O massacre de Liquiçá foi a 5 de Abril.

A Missão de Assistência das Nações Unidas para Timor Leste (UNAMET) foi criada a 11 de Junho de 1999 para organizar a consulta popular. Dois dias depois partiu para o território uma equipa de observadores portugueses (MOPTL). As equipas foram espalhadas pelo território com o objectivo de, numa primeira fase, acompanhar o referendo e depois o acto eleitoral. A segurança era da responsabilidade da polícia indonésia.

David Wimhurst. Porta-voz da UNAMET. As autoridades indonésias não controlavam a situação. O verdadeiro poder era do exército que ocupou e lucrou economicamente com Timor. Apesar dos protestos da ONU os militares nunca controlaram as milicias.

José Vegar. Jornalista do Expresso, actualmente a trabalhar como free-lancer. Havia operações contínuas de intimidação. As milicias desfilavam, cercavam estruturas independentistas e afastavam os seus elementos, faziam checkpoints, queimavam casas e matavam.

José Pereira Gomes. Diplomata. Chefe da MOPTL. Houve situações complicadas antes do voto, com tiroteio à volta dos locais onde estavam os observadores. Um timorense foi morto à catanada a 500m da nossa casa em Díli. 

José Góis. Fuzileiro. Membro da MOPTL. Em Viqueque as milicias eram apoiadas pelo governador do distrito. Assim que anoitecia começavam a apedrejar a nossa casa e aos tiros. Nós metiamo-nos no jipe e íamos para a porta da esquadra da polícia até amanhecer.

Pedro Sousa Pereira. Jornalista da SIC, actualmente na Agência Lusa. No dia 4 de Julho de1999 estávamos a acompanhar uma coluna da ONU que tinha ido apoiar deslocados quando, no regresso, fomos atacados em Liquiçá. A milícia Besi Merah Putih acusava a ONU de estar a abastecer as Falintil, o que era mentira. Houve catanadas, coronhadas e disparos contra um helicóptero da ONU. Depois fomos todos presos. Consegui esconder a cassete com as imagens dentro das calças até sermos levados para Díli. Foi a primeira vez que um ataque à ONU foi filmado.

Com a intensificação da violência, os timorenses começaram a abandonar as suas casas e a refugiar-se nas montanhas em redor das localidades até ao dia da votação: 30 de Agosto de 1999

Catarina Albuquerque. Observadora da MOPTL. Na véspera da votação, a 30 de Agosto, estávamos cheios de medo que tivesse sido tudo em vão. Mas na sede da ONU disseram-nos que o helicóptero tinha estado a sobrevoar Timor e havia movimento de populações. As pessoas estavam a deslocar-se para os centros de voto um dia antes com medo de as estradas estarem bloqueadas. Saímos dali com as lágrimas nos olhos

António Sampaio. Jornalista da Agência Lusa. Entrevistei um senhor que meteu os cartões de voto da família numa bolsa de plástico e enterrou-a num pilar de cimento junto à casa – que foi incendiada. No dia da votação ele foi lá de manhã cedo, partiu o cimento, tirou o saco e foi votar

Patrícia Galvão Teles. Observadora da MOPTL. Houve um erro de avaliação por parte dos indonésios. Eles aceitaram a consulta na expectativa de que a votação lhes seria favorável. Os timorenses foram inteligentes em jogar o jogo duplo. Mesmo os que trabalhavam na administração indonésia iam votar pela indendência.

Maria de Fátima Ferreira. Médica. Observadora da MOPTL. No dia da votação, quando cheguei à parte norte de Dili, ainda muito cedo, já havia um mar de gente. As pessoas levavam os poucos haveres: trouxas, animais, cabras… como se tivessem abandonado a casa e recolhido o que era imprescindível. Votavam e desapareciam outra vez.

Ana Paula Fernandes. Observadora da MOPTL. Em Suai a votação estava concluída à hora de almoço. Acompanhámos as urnas até ao helicóptero que as levou para Díli, fechámos a nossa casa e fomos também para lá. Pelo caminho encontrámos vários postos de milicias que ameaçaram o condutor timorense. 

Entre 30 de Agosto e 4 de Setembro a situação permaneceu calma em Timor. Alguns elementos da MOPT e da UNAMET começaram a abandonar o território, de acordo com o planeado. Às 9h da manhã, em Díli, Ian Martin, líder da UNAMET, anunciava os resultados no Hotel Makhota: 78,5% da população tinha recusado a integração– Timor conseguia a independência.

Taur Matan Ruak. Antes da divulgação, a ONU informou a liderança da resistência e o governo da Indonésia. Sabíamos que a independência ganharia. Evitámos festas para não humilhar os apoiantes da integração. Mas nos acantonamentos houve pessoas que rejubilaram.

Ian Martin. Chefe da missão da UNAMET. Representante especial do secretário-geral da ONU. Era claro que aquele era o resultado que a maioria queria. Houve algum júbilo por parte de alguns que estavam no hotel mas, ao mesmo tempo, havia medo. Eram sentimentos mistos porque a violência das milícias era previsível. Aliás, já estava a acontecer.

Irene Slegt. Jornalista freelancer. De repente, a cidade ficou muito calma. As pessoas que ainda não tinham chegado às igrejas e conventos andavam em silêncio a caminho dos esconderijos.

Pedro Sousa Pereira. Os timorenses sabiam que ia haver uma reacção que a ONU não previu. Cinco minutos depois só havia carros das milicias nas ruas.

Minka Nijhuis. Jornalista freelancer. A cidade estava cheia de milicias em motas a disparar para o ar. Controlavam o aeroporto, o porto, e a praia para impedir a fuga dos independentistas.

José Vegar. Estava à porta do hotel com um australiano quando uns tipos se aproximaram com ar ameaçador. De repente, um dispara. Nós fomos para dentro e ele continuou ali à volta. A protecção era assegurada por três polícias que não faziam nada. O barbudo avançou e partiu o vidro da entrada. Só mais tarde é que apareceu o cordão do exército indonésio à volta do hotel – que foi várias vezes violado.

Leandro Isaac. Representante CNRT. Foi um inferno. O hotel foi cercado e alvejado pelas milicias. So saí do hotel às 17h libertado por um comandante da polícia. Nessa mesma noite fui para as montanhas. Havia cerca de 75 mil pessoas refugiadas. 

José Vegar. Liguei para a missão portuguesa. Estavam surpreendidos e não acreditavam que iam ser atacados. 

Maria de Fátima Ferreira. Quando os disparos começaram fomos para casa e ficámos à espera de instruções. O chefe da missão contactou a polícia e tentou obter alguma protecção. Apareceram dois ou três polícias de mota que fizeram a escolta até à casa mãe. No caminho o meu jipe foi alvejado nas rodas.

Júlio Pereira Gomes. Estávamos divididos em quatro casas e reunimos toda a gente ali. Foi in-extremis. Colocamos cartões nas janelas para não se ver para dentro. No primeiro andar os polícias do GOE tinham umas garrafas com gasolina para nos defendermos no caso de sermos invadidos. Seria o último recurso.

José Góis. Um milicia passou pelos polícias e veio pedir-me a chave de um jipe. Dei-lha e depois vieram mais. Ficámos só com alguns. Decidimos rapidamente ir para a UNAMET. Deixámos as malas e os computadores e levámos só a documentação.

Maria de Fátima Ferreira. Por sorte o jardim estava em obras e havia um camião basculante. Metemos os timorenses que estavam connosco lá dentro e fomos para o compound. Eles não puderam entrar na UNAMET. Alguns fugiram para as montanhas.  

António Sampaio. A noite no hotel Makhota foi muito complicada. Do telhado, víamos Dili a arder. Quando, já de madrugada, os jornalistas estangeiros estavam a entrar para os camiões o coronel indonésio disse-me que ou os portugueses íam na coluna ou não podiam garantir a nossa segurança. Subi as escadas e disse a todos para empacotarem as coisas. Ficámos no aeroporto das 10h às 19h – quando tivémos avião.

Ana Gomes. Diplomata. Encarregada da secção de interesses de Portugal em Jacarta. Já não havia voos comerciais e tive que arranjar um avião para ir buscar os portugueses. Uma funcionária encontrou um ex- militar indonésio que tinha um avião com 100 lugares mas ele só ia se lhe pagássemos 60 mil dólares em dinheiro. E eu não o tinha. Telefonei ao meu colega holandês que nem pestanejou. Disse-me: “Ana, you got the money”.

José Vegar. Quando os outros jornalistas partiram disse ao motorista para ir buscar o jipe. Ia eu o Luciano Alvarez e o Hernani Carvalho. Estávamos a arrancar e vimos uma comitiva do ACNUR que ia para a UNAMET. Pedi-lhes para ir com eles. Foi um milagre. A cidade estava cheia de checkpoints.

Robert Carrol. Jornalista freelancer. Os últimos jornalistas estavam no Hotel Turismo. Não havia água, electricidade nem telefones fixos. Um australiano conseguiu contactar o consul e ele garantiu-nos a passagem para a UNAMET.

O edifício da UNAMET estava lotado. Para além dos funcionários internacionais, dos membros da missão portuguesa e dos jornalistas que aí procuraram refúgio, milhares de timorenses aglomeravam-se contra os muros do complexo na tentativa de escapar às milícias.

Minka Nijhuis. A UNAMET parecia um campo de refugiados com timorenses a acampar em todo o lado, incluíndo em veículos da ONU.

José Vegar. Não havia água, comida nem tabaco. E nesse domingo as milicias atacaram. A  UNAMET foi obrigada a abrir os portões aos refugiados. O espaço ficou lotado.

David Wimhurst. As mulheres atiraram as crianças por cima da vedação de arame farpado e o pessoal da ONU apanhou-os.

Francisco Alegre Duarte. Diplomata. Observador da MOPTL. Foi o caos. A ideia era provocar uma situação insustentável do ponto de vista logístico. Para eles era fundamental que não ficassem observadores internacionais. Havia pessoas feridas, fracturas expostas… mas aquilo lá se organizou. Comíamos meia ração de combate por dia e dormíamos no chão.

Ana Paula Fernandes. Cada um fez uma chamada para a família pelo telefone satélite. A minha mãe dizia: “na televisão dizem que está tudo a arder”. Eu respondia que era exagero. Mas estava a ver as milicias a dispararem sobre as pessoas que estavam a subir a montanha.

Júlio Pereira Gomes. O depósito de alimentação era fora do compound. Alguns funcionários foram buscar arroz e outros alimentos mas os militares impediram-nos.

José Vegar. Todas as comunicações assentavam nos telemóveis que na Indonésia funcionavam por cartões pré-pagos com sequências de 30 e tal dígitos. Tive de ligar para a Ana Gomes para ela me comprar cartões. Numa noite de tiroteio estive uma hora e tal a apontar sequencias de números ditados por uma senhora de Jacarta. Depois tive de as inserir no telemóvel para o operador aprovar. No dia seguinte mandaram a rede abaixo. Quando se acabaram os telemóveis só havia três satélites: um da UNAMET e dois da missão portuguesa. O Júlio Pereira Gomes disse que não os podia ceder porque eram propriedade do Estado. Explicámos que era fundamental comunicar. Eles mantiveram opinião. Então nós confiscámos um satélite que passou a ser de todos os correspondentes.

Irene Slegt. Alguns padres e freiras vinham ao complexo para nos dizer o que estava a acontecer. Consegui sair e fui ao Hotel Turismo. Vi edifícios a arder e camiões com soldados de t-shirt nos escombros. Eles estavam a pilhar e a incendiar.

Robert Carrol. As milicias retiravam os residentes de casa, roubavam todos os bens e mobília, espalhavam gasolina e incendiavam o edifício. Depois seguiam para o seguinte.

Júlio Pereira Gomes. A UNAMET estava a fazer sair o pessoal que tinha para o voto. Nós aproveitámos as duas primeiras saídas e ficámos com um grupo de nove sob protecção deles. Quando optaram por  evacuar totalmente, decidimos sair. Era dia 10 de Setembro.

Francisco Alegre Duarte. Saímos de lá com Dili a arder. Havia colunas de fumo enormes. A cidade estava destruída. Não havia garantias que a ONU ficasse e a vontade do povo fosse respeitada.

Irene Slegt. Quando os portugueses saíram ficámos com as camas e os  mantimentios deles. Passámos a estar relativamente confortáveis. Mas a certa altura a ONU quis expulsar-nos. Não queria que continuássemos a dar notícias de dentro do edifício. Agarrámos nas coisas mas quando chegámos à porta estavam dois homens em motas com granadas. Voltámos para trás. Continuámos lá, mas decidimos não dizer onde estávamos. 

Robert Carrol. No dia 10 dois membros das Falintil ajudaram-me a escapar e levaram-me ao acampamento deles a quatro horas de Díli. Nunca tive tanto medo na vida. Eles eram guias e vigias. Mais tarde percebi que suspeitavam que podia ser um espião. Fui interrogado durante horas quando cheguei à base deles.

Taur Matan Ruak. A Resistência conhecia os planos indonésios para Timor-Leste. Essa informação foi transmitida à comunidade internacional. Estava no acantonamento de Waimori. Foi difícil manter as tropas acantonadas quando o país sofria o horror da perseguição e destruição. Contudo, a resposta à violência poria em causa a nossa credibilidade e da Resistência que trabalhava para que a comunidade internacional tomasse uma atitude.

Ian Martin. É fácil dizer que houve avisos que foram ignorados. Mas não é assim. Tinha havido imensos alertas que não se verificaram – de violência no recenceamento, na votação, etc. Não retaliar foi um acto extraordinário de liderança por parte do Xanana Gusmão e do Taur Matan Ruak. Havia um forte desejo de defender o povo. Mas eles compreenderam que era isso que os indonésios queriam: apresentar a luta como sendo entre timorenses, o que era falso. A violência era organizada sobre a direcção do TNI.  

David Wimhurst. Tínhamos informações de que os indonésios levariam tudo o que conseguissem se tivessem de saír. Mas ninguém previu a deportação de 250 mil civis nem a dimensão dos estragos.

As Falintil mantiveram-se nas montanhas. Após a saída dos portugueses, a UNAMET foi atacada pelas milicias. A 11 de Setembro uma delegação do conselho de segurança visitou Díli e no dia seguinte a Indonésia aceitou a entrada de forças internacionais (a INTERFET) para restaurar a paz e segurança – o que só aconteceu a 20 de Setembro.

António Sampaio. Em Jacarta soube que um batalhão australinano ia ter jornalistas embedded. Eles aceitaram três estrangeiros. Fui no segundo avião da força internacional que aterrou em Díli a 20 Setembro. Eles garantiam água, electricidade e uma ração de combate. Mas se nos afastássemos não se responsabilizavam pela nossa segurança. Claro que a primeira coisa que fiz foi sair do aeroporto e ligar para Portugal a descrever a cidade.

David Wimhurst. Díli estava destruída. Só havia edifícios queimados. Instalámo-nos nos antigos escritórios a dormir no chão.

Pedro Sousa Pereira. Ficámos a viver no aeroporto. Depois acampámos nas traseiras do hotel Makhota. Mesmo com os militares australianos era complicado. Um colega do Financial Times entrou no bairro de Baicora numa mota com um guia e foi cercado e assassinado. Cortaram-lhe as orelhas, língua, tudo.

Maria de Fátima Ferreira. Em meados de Setembro a AMI chegou a Timor – mas não nos deixaram sair do aeroporto. Havia coisas a arder. Dias depois fomos dar consultas para as montanhas, em Cairui, onde estavam as Falintil. O Matan Ruak é pequenino e magricela mas falava e as pessoas tinham imenso respeito. O acantonamento estava limpo e arrumado.

Ângela Carrascalão. As pessoas estavam a começar a voltar a Díli. Notava-se que eram da montanha porque andavam no meio da rua. O olhar deles era vago. Não tinham nada que fazer e havia pouca comida. Comia-se muita fruta que havia nas árvores. Nunca mais me esqueci de um detalhe: não havia pássaros.

A 25 de Outubro a Indonésia transferiu o poder sobre Timor para a ONU. Sérgio Vieira de Melo foi nomeado para dirigir a Administração de Transição das Nações Unidas em Timor Leste (UNTAET). Cargo que iria ocupar até 20 de Maio de 2002.

António Sampaio. O primeiro ano foi muito complicado. Não havia estruturas nem comida. As milicias estavam nas fronteiras. Havia refugiados em Timor Ocidental e população de um lado para o outro.

José Ramos Horta. O país estava arrasado, sem infra-estruturas, economia, administração pública. Foi preciso fazer mediações, solucionar conflitos mesmo dentro das Falintil. Tive que resolver disputas entre jovens que procuravam emprego e a ONU.

Taur Matan Ruak. Nós tínhamos aprendido a ser guerrilheiros, activistas da libertação, fosse pela via armada, fosse pela acção clandestina, ou fosse pela acção diplomática no exterior. Agora, enfrentávamos uma batalha imensa: construir um Estado

A 20 de Maio de 2002, dezenas de líderes mundiais deslocaram-se a Timor-Leste para a cerimónia da independência. Entre eles estavam os portugueses Jorge Sampaio e Durão Barroso, o presidente dos EUA, Bill Clinton, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e os líderes australiano e indonésio. Durante meses, achou-se que seria impossível organizar a cerimónia.

Mario Martins. Assessor diplomático Sérgio Vieira de Mello. Não havia hotéis, carros para transportar as comitivas ou refeições para tanta gente. Tivemos que usar os meios da ONU para garantir a segurança a tantos dignitários.

José Ramos Horta: Em Março ainda não tinha um cêntimo para a celebração. Não havia um hotel. O Hotel Timor só ficou pronto à meia-noite de 18 de Maio. Lembro-me de conseguir que as Forças Armadas Tailandesas pagassem um barco cruzeiro, que atracou no dia 19 de manhã.

Pedro Sousa Pereira: Na véspera da independência a Magawati Sukarnoputri diz que vai a Timor. O Xanana Gusmão foi ao cemitério militar indonésio, ao lado de Santa Cruz, que estava abandonado, e pediu às pessoas para o limpar. Havia lá porcos e tudo.

Mário Martins: A Megawati Sukarnoputri foi a última a chegar. Já era de noite. Foi preciso improvisar uma iluminação na pista do aeroporto para ela poder aterrar. À espera dela estavam o Xanana Gusmão, o Sérgio Vieira de Mello, eu e mais duas pessoas. Quando o pequeno avião da presidência indonésia aterrou e à porta surgiu um vulto de mulher com um longo vestido preto respirámos de alívio. O Xanana e o Sérgio estavam tão nervosos que quando ela desceu as escadas em vez de andarem para a receber ficaram parados a aplaudir. Só depois a foram cumprimentar. Depois eu fui com o Sérgio para Tassitolo e o Xanana foi com a Megawati ao cemitério indonésio.

Ian Martin: Recordo-me perfeitamente que o Xanana Gusmão não usou gravata nem casaco na tomada de posse como presidente.

Ana Gome: Antes da cerimónia em Tacitolo, houve uma cerimónia privada no palácio de governo. Um timorense que tinha servido no exército português entregou ao Jorge Sampaio uma bandeira de Portugal que tinha guardado em sacos de plástico todos aqueles anos. Deixou-nos todos a chorar.

António Sampaio: Estávamos à espera que houvesse uma catarse quando subisse a bandeira. Mas a malta viu aquilo em silêncio. Foi o culminar de um processo que ainda não acabou.” 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s