Cada jornalista despedido é mais um prego no caixão da democracia

Texto do Daniel Oliveira, no Expresso.

Ontem a Lusa esteve em greve. Os despedimentos põem em causa um serviço público que apenas esta agência noticiosa pode garantir. O País sabe qualquer coisa sobre regiões onde, para além da imprensa local, ninguém tem correspondentes. Depois desta razia a ideia de que “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” estará mais próxima da verdade. Uma parte de Portugal será invisível. Mais: a Lusa é responsável por cerca de 70% das notícias que se publicam em Portugal. O corte em 31% do seu orçamento é uma machadada do Estado na já tão frágil comunicação social portuguesa. E as primeiras vítimas do silenciamento serão seguramente as já isoladas populações do interior.

Na sexta-feira, o “Público” esteve em greve. Em causa está um despedimento colectivo de 43 pessoas e 36 jornalistas que torna virtualmente impossível que ali se continue a fazer um jornal de referência, com uma edição em papel e online. Anteriores despedimentos tiveram já efeitos visíveis na qualidade média do jornal. Com mais este, não é sequer sério pensar que quem fica pode garantir o mínimo de qualidade e de rigor que a profissão exige. Será um enorme passo para a tabloidização definitiva da imprensa portuguesa.

Continua, sem se saber ao certo do que se trata, a falar-se da compra da Controlinveste por um grupo angolano, muito provavelmente próximo do regime de Luanda. “Diário de Notícias”, “Jornal de Notícias” e TSF nas mãos de uma ditadura. Como já aconteceu noutros casos, não sabe ao certo quem são estes compradores, o que não deixa de ser preocupante quando falamos da compra de órgãos de comunicação social, que em princípio devem garantir a transparência, não apenas na vida política mas também na vida empresarial.

RTP vive um clima de incerteza, sempre na iminência de ver um dos seus canais em mãos angolanas. O clima de pressão sente-se. A semana passada, o canal ARTE, que realizava uma reportagem sobre a situação da televisão pública portuguesa, foi impedido pela administração da empresa de entrar nas instalações. Um excelente cartão de visita para quem deve defender a liberdade de informar. Mas é natural que alguém que nunca trabalhou neste ramo e se tem dedicado mais aos finos e às imperiais não perceba a especificidade deste “negócio”. E a importância da sua transparência e credibilidade.

Isto são apenas as situações mais visíveis. Na generalidade das redações de jornais, televisões e rádios trabalha-se sem meios, no fio da navalha, à beira do abismo. E todos fazem contas a quanto tempo durará o título que fazem chegar às bancas e a rádio que nós podemos ouvir. A crise profunda da comunicação social, que é internacional e resulta, antes de tudo, do acesso gratuito, via Internet, a informação produzida com custos, agravou-se muito desde 2008. E em Portugal, onde a situação já era mais precária, agravou-se ainda mais desde que a austeridade assentou arraiais. Se as coisas continuarem como estão não sobreviverá quase nenhuma informação que mereça ser lida. Seremos cegos, surdos e mudos.

Nada do que aqui escrevo é específico das empresas de comunicação social. Milhares de empresas vivem situações dramáticas. Os jornalistas não merecem de mim mais solidariedade do que um empregado de balcão, um carpiteiro ou um enfermeiro. Mas as consequências da crise nos media vão muito para além das sociais e económicas. É a democracia que está em perigo. E sem ela não há futuro para nós.

Um País em crise e desagregação, com um poder político sem autoridade moral e uma população descrente nas instituições, a ser vendido ao desbarato em negócios pouco transparentes, é terreno fértil para o populismo e para a corrupção. E uma população mal informada é a vítima ideal para os oportunistas da crise. Os que ganham dinheiro com ela e os que esperam com ela ganhar votos.

Imaginem este país informado quase exclusivamente pelo “Correio da Manhã” e sucedâneos. Imaginem um canal de televisão, uma rádio e vários jornais (DN, JN, I, Sol) nas mãos dos homens de negócios próximos da ditadura angolana. Imaginem jornais feitos por meia dúzia de estagiários, impreparados e indefesos perante todas as pressões. Imaginem jornais sem meios para investigar e jornalistas com medo de investigar. Diretores com medo de administradores e administradores com medo de anunciantes e políticos. Imaginem que tudo o que sobra são as notícias encomendadas e as investigações entregues ao domicílio. Não precisam de imaginar. Estamos praticamente lá.

O País discute a corrupção, os abusos, a prepotência. Mas é com a situação dramática em que está a comunicação social que tudo isto pode florescer. Na obscuridade. Não se indignarão os portugueses. Porque não saberão de nada.

A luta que os jornalistas da Lusa, do “Público” e de outros órgãos de comunicação social estão a travar não é apenas uma luta pelo seu emprego. É uma luta pela democracia. Não é apenas uma luta deles. É nossa. Se a perderem, bem podemos arrumar as botas. É que o Facebook não faz investigações, os blogues não pagam reportagens e os comentários nos sites não têm código deontológico. Até haver uma alternativa, não há jornalismo sem jornalistas. E sem jornalismo não há democracia.

Ninguém pode obrigar homens de negócios a manter jornais, televisões e rádios que são deficitárias. Mas podemos impedir que seja o Estado um dos motores da destruição de um pilar fundamental da democracia. E podemos todos, e não apenas os jornalistas, a começar um debate urgente: como vamos, como comunidade, garantir uma imprensa livre? É que mais do que um negócio, ela é condição para a nossa democracia. Se os homens de negócios não a querem, temos nós todos que encontrar uma solução. Ou aceitar viver na ignorância. Roubados no poder de decidir o nosso futuro, só falta mesmo roubarem-nos o poder de saber o que fazem os que decidem o nosso futuro. Seremos então uma ditadura perfeita: todos os direitos democráticos formais garantidos, nenhum instrumento para os usar.

 

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