As melhores histórias de Marcelo Rebelo de Sousa

Ao longo dos últimos anos, vi o Vitor Matos passar as horas de almoço agarrado ao computador portátil. Sei que nas férias e aos fins-de-semana ele se refugiava no Alentejo para escrever a biografia de Marcelo Rebelo de Sousa – quando não estava a fazer entrevistas ou enfiado na hemeroteca e na Torre do Tombo. Agora, finalmente, o livro está aí para ser lido. E mais do que uma biografia exaustiva que revela muito sobre um dos homens mais mediáticos do país (o que já de si é um feito), é também um retrato do Portugal contemporâneo. Hoje, ao fim da tarde, a obra (editada pela Esfera dos Livros) é apresentada na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa por Leonor Beleza e Vicente Jorge Silva. O Vitor está de parabéns. Para aguçar o apetite, ficam aqui algumas das histórias publicadas na última edição da Sábado.

O dia em que descobriu que Snu e Sá Carneiro eram amantes

(…) Marcelo tem apenas 27 anos, mas Snu Abecassis empenha-se na publicação de um primeiro volume das suas memórias políticas. Embora fosse demasiado novo para publicar qualquer tipo de autobiografia, tinha conhecido o salazarismo por dentro e vivera o marcelismo, lançara o Expresso, estivera na fundação do PPD e vivera a constituinte. Tinha histórias para contar. Quando amadurecer terá dificuldade em compreender essa «originalidade» de querer escrever memórias antes dos 30 anos.

Se Francisco Pinto Balsemão não leva a sério aquele projeto precoce, o jornalista Vicente Jorge Silva apercebe-se da bizarria do livro e comenta com perplexidade:

– Mas você está a fazer uma autobiografia com menos de 30 anos?

O autor, convencido da sua razão, responde com uma pergunta:

– Mas você acha que eu não tenho uma história para contar?

Marcelo escreve o livro e entrega-o a Snu. O volume chega a ser anunciado nos panfletos da Feira do Livro e aparece no catálogo da D. Quixote. Em março, na entrevista que dera a Pinto Balsemão no jornal da Costa do Sol, a publicação do livro faz título: «Marcelo Rebelo de Sousa (27 anos): Sairá dentro de dois meses o primeiro volume das minhas Memórias Políticas.» (…)

Para rever as provas do livro, o autor começa a reunir-se com a editora nos escritórios da D. Quixote, na Rua Luciano Cordeiro, em Lisboa. Snu senta-se e põe sobre a mesa o original datilografado de Marcelo, com apontamentos a lápis nas margens. A maioria das sugestões, no entanto, era para cortar partes da prosa porque era demasiado cedo para falar do que se passara em 1974 e 1975. Ou então era melhor esperar uns tempos…

Marcelo começa a achá-la demasiado bem informada sobre o PPD e desconfia que afinal está interessada em não publicar o texto. Tudo se torna claro quando observa melhor as notas à margem do texto, escritas com aquela letra esguia, bem desenhada, inconfundível: «Reconheci a letra de Francisco Sá Carneiro a lápis.»

– Snu, já percebi. Ele não quer que o livro saia…

Nesse momento, descobriu que o líder do PPD tinha um caso com a editora. (…)

A «Gente» continua a ser alimentada pelo colunista a banhos, que dita as prosas ao telefone. Poucas coisas dão mais prazer a Marcelo do que realçar os pontos fracos dos outros, em privado, em público ou no jornal. Desta vez, conta a história de um sábado em que o Expresso esgotou no Algarve, em que toda a gente tentava comprar uma edição no quiosque, mas a jornalista Maria João Seixas – que gagueja – não conseguiu comprar o seu «exemplar porque se atrasou a pe-pe-pedir que-que-que lho man-man-mandassem.» (…)

Marcelo escreve que Balsemão é «lélé da cuca»

Em apenas cinco anos, o Expresso torna-se o jornal mais poderoso do país, embora mantenha um estigma de proximidade ao PSD cuja perceção é difícil mudar. Durante uma pausa no Pabe, Marcelo discute com Margarida Salema o problema da isenção do semanário. O jornalista argumenta que tem liberdade para fazer o que quiser, da análise política às puras notícias ou às bisbilhotices da «Gente», a sua liberdade é total.

– Não és capaz!… Não és capaz de dar uma porrada ao Balsemão… – desafia-o Margarida Salema.

Marcelo é capaz de qualquer patifaria inconsequente: costuma escrever frases desgarradas no meio dos textos da «Gente» que só os visados conseguem perceber. Sobre ele dissemina-se na linha Lisboa-Cascais mais uma frase reveladora: «Por uma boa piada não se importa de perder um amigo.» É tão capaz disso que volta para o jornal, pega nas provas da «Gente» e dá a «porrada» a Balsemão, enorme prova de liberdade senão de libertinagem. Inconsciente, irresponsável, pueril e divertido, Marcelo Rebelo de Sousa escreve na margem da prova de página, e a frase aparece descontextualizada dentro do texto. É suposto os gráficos enxertarem na prosa aquela coisa louca e sem sentido, rabiscada à mão sabe-se lá porquê, não era a primeira vez que o fazia, mas era a mais grave.

No dia 5 de agosto de 1978, o texto é publicado assim no jornal: Divergências: O Diário de Lisboa da quarta-feira passada titulava perentório, que Eanes, no seu discurso, não quisera ser o Sidónio Pais de Mateus. O Balsemão é lelé da cuca. (…)

Mas Balsemão não gosta de ser ridicularizado no seu próprio jornal. Está no Algarve de férias, quando lê a estranhíssima prosa sem ponta de humor. Pega no telefone e liga a Jorge Galamba Marques, diretor comercial, também com a incumbência de fechar as páginas do jornal na gráfica. Pergunta-lhe se tinha lido a «Gente». Mas Galamba Marques não se recordava daquele artigo. Então, pega no jornal com mais atenção e dá com aquilo. «Faça uma coisa, ó Jorge», diz-lhe Balsemão, «se isto não tem nada a ver com o Diário de Lisboa, vá lá acima procurar os originais e veja se é obra do Marcelo, mas acho isto muito estranho…»

Jorge Galamba Marques estava em casa, mas vai ao jornal, sobe ao arquivo procura as provas e encontra-as. «Foi fácil», conta Galamba Marques. «Tirei os originais da “Gente” e lá estava, tudo escrito à máquina pela secretária Assunção Charters. Vi uma chaveta lá no alto da página, escrita à mão, para inserir ali a frase “o Balsemão é lelé da cuca”.» E a letra de Marcelo era inconfundível. A seguir telefona a Balsemão: «Bom, tenho isto aqui à frente, estou a ler, e é a letra do Marcelo…» (…)

– Escreveu isto?

– Escrevi… É uma secção humorística…

– Mas eu acho demais! – acusaria rispidamente Balsemão. Acho que isto é uma coisa intolerável! O que é que você fazia na minha posição?

– Depende… Se tivesse sentido de humor aceitava. Mas não tendo sentido de humor, se acha que é intolerável, demita-me. Se é inaceitável só há um corolário lógico. Olhe, tenho muita pena porque terminamos uma relação de anos… Vou para a rua! Acho estranha e excessiva a reação, mas se me diz que está mortalmente ofendido…

«O Marcelo estava aflito por ter feito aquilo», resume Galamba Marques. «Pediu desculpa ao Balsemão, disse que lhe deu “um vaipe”. O texto foi assim para a gráfica e eu não dei conta, naquele dia não li, se tivesse lido aquela frase não saía…» Balsemão manda-o então sair do gabinete mas não o despede do jornal. Não é homem de virar a mesa e Marcelo é demasiado valioso para o Expresso. (…)

De diretor do Expresso à separação de Cristina

Enquanto a vida profissional continua a subir, a vida pessoal e familiar inclina-se num plano descendente, irreversível. O afastamento entre Marcelo e Cristina é irrecuperável. Veem-se pouco mais do que uma hora por dia. Ela está farta da solidão e das refeições sozinha, esperando um marido que chega tarde ou de madrugada anos a fio. Mais que discussões há silêncios. Ela não o estimula intelectualmente, não consegue acompanhar a velocidade infernal daquela máquina devoradora de informação. Não há química nem projeto comum, e a mulher desconfia que Marcelo não esteja isento de pecadilhos fora do matrimónio nos últimos anos. Tem fama de ter namoradas, há muitos comentários mas ele não confirma que tivesse. Havia mulheres interessadas nele, com quem nada teria e outras sobre quem descrevia aventuras detalhadas. Os amigos não acreditavam.

Cristina só vai ao cinema ou ao teatro acompanhada, porque nunca sabe se vai ficar pendurada por Marcelo não aparecer à última hora. A tudo isto soma-se a falta de dinheiro. Ela valoriza uma certa vida social e o marido não liga a contas, gasta tudo o que ganha, compra livros às dezenas, por impulso, mas há contas a pagar na mercearia. De vez em quando, os amigos emprestam-lhe, depois ele paga.  (…)

Cristina não gosta de o ver horas trancado no escritório a preparar o currículo para o doutoramento com a assistente de Direito e vizinha do lado Margarida Salema, irmã de Helena Roseta, com quem desconfia que o marido tem um romance clandestino. A criada da casa espicaça-a: «A menina é tapadinha, tapadinha!» Anos mais tarde Cristina pensará que uma eventual paixão por Guida Salema seria mais platónica do que outra coisa qualquer. Marcelo admite apenas «uma relação de muita amizade alargada à sua família e afins. Eis o que aconteceu.»

Pelo menos neste aspeto do casamento há uma certa simetria. A Marcelo também não agrada a aproximação da mulher a um amigo que aparece no grupo de Cascais, um engenheiro chamado Jorge Lagrifa, cujo primeiro casamento é um desastre ainda pior. A solidão de ambos e as respetivas relações falhadas acabam por os juntar. O preço que Marcelo paga por nunca ter alimentado o matrimónio é a traição da mulher. É Cristina que põe fim à relação e sai de casa.

Preocupado com os filhos, abatido com o fim do casamento, com o orgulho ferido por ter sido trocado, derrotado porque falhou num aspeto essencial da vida, Marcelo desabafa com o vizinho José Germano:

– A Cristina deixou-me…

Passados poucos meses, Cristina Motta Veiga estaria a viver com Jorge Lagrifa na mesma casa. Casariam três anos depois. (…)

Os anos passam. Entre fins de 2004 e início de 2005, em plena crise política do Governo de Santana Lopes, Marcelo terá um gesto de generosidade extrema – a generosidade é a sua maior qualidade a seguir à inteligência, apontam-lhe os amigos. Quando Jorge Lagrifa cai doente com cancro, todas as semanas Rebelo de Sousa o visita no IPO. Entra no quarto onde estão outros doentes, sempre ansiosos pela visita otimista do «professor», que conversa com Lagrifa como se ainda houvesse um futuro para lá daquele quarto. Marcelo desenvolve um dom notável para falar com pessoas à beira da morte, que olham para os seus olhos azuis e não veem a gravidade da sua saúde refletida, como quando encaram a maioria dos amigos e familiares aflitos. Isso fá-los sentir melhor. Rebelo de Sousa e Jorge Lagrifa chegam a combinar um passeio de barco. Nunca o farão.

O dia em que recebeu o embaixador do Irão em cuecas

Quase com 50 anos, continua com uma síndroma de Peter Pan irreprimível. Conta-se uma história, com algumas variações, que revela aquilo de que é capaz. Tem uma lata suprema e um instinto de desenrascanço difícil de ultrapassar.

Um dia, estava à espera da visita do embaixador do Irão na sede da Rua de São Caetano, quando, por acidente, molha as calças com o diplomata quase a entrar. Perante aquela emergência, despe-as. Não há tempo para vestir umas secas. Ainda tenta convencer José Luís Arnaut a despir as suas para ele usar, mas a proposta não é aceite. Enquanto José Luís Arnaut empata o embaixador, Marcelo espera-o de cuecas e peúgas, com o seu fato muito bem ajeitado, sentado com as pernas escondidas atrás da mesa. Arnaut tenta ultrapassar a situação, evitando um embaraço ainda maior, e instrui o iraniano sobre o protocolo seguido na sede do partido: o líder está sentado e não se levanta, é assim uma espécie de costume da casa.

Rebelo de Sousa recebe o diplomata que não parece estranhar aquela especificidade, sem desconfiar que está a ser recebido por um líder partidário seminu. (…)

O fim da AD: uma questão de matar ou morrer

Depois do comício, Paulo Portas está com a adrenalina em alta, como os animais acossados que batalham para viver. Ele só existe como líder há escassos dois meses, não vai entregar tudo a uma raposa manhosa sem uma luta feroz. Paulo torna-se tanto mais perigoso quanto mais Marcelo o subestima, ao esperar que ele se retire de cena sozinho por achar que não tem condições para continuar. Hospedado no Hotel Grão Vasco, em Viseu, Paulo Portas chama um jornalista que conhece há anos e desabafa: diz que a AD vai estoirar e não passa daquela semana. O que acontecera no comício era o descrédito total da coligação e queixa-se de Rebelo de Sousa andar a meter coisas nos jornais contra ele: a última edição do Semanário trazia em manchete «Portas sem fuga», e um artigo a sugerir que o líder do PP tinha beneficiado de «receitas ilegítimas da Amostra», aludindo a «documentos que provam gestão danosa e enriquecimento sem causa». Para Portas, a impressão digital da notícia é de Marcelo ou de alguém próximo. Está em marcha um processo irreversível. Se Rebelo de Sousa não mata vai morrer. Portas planeia a morte política de Marcelo para lhe sobreviver.

No dia seguinte, o líder popular vai a Cascais para mais uma conversa em casa do líder social-democrata. Marcelo tinha-lhe dito depois do comício que precisavam de falar. Podia ser que recuasse na intenção de acabar tudo. Segundo Rebelo de Sousa, Paulo Portas queixa-se do PSD:

– Que há reações já se percebeu desde Tavira. O meu papel tem sido superar isso: já superei em Tavira, no congresso, agora supero nas listas. Eh pá, você tem de aguentar!… – diz-lhe Marcelo.

Portas admite que é difícil.

– Difícil é, mas tem de aguentar como eu aguento. Quem apanha a pancada toda não é você, não é você que vai às reuniões do partido nem ao Conselho Nacional, nem ao congresso… (…)

A agenda é apertadíssima: a seguir à reunião com Giscard, Marcelo parte para Milão, onde tem um almoço em casa de Silvio Berlusconi, líder da oposição de direita italiana, para discutir as eleições europeias. Continua à espera do telefonema de Portas. O milionário italiano tinha enviado um helicóptero para transportar Marcelo do aeroporto, para o levar a sua casa. «Aterrámos e nada do telefonema do Portas.» Com tantos voos pelo meio, não era fácil apanhá-lo.

O almoço na mansão de Berlusconi é numa sala com as paredes pintadas pela mulher. Comem uma massa tricolor, magnificamente apresentada, com as cores da bandeira de Itália: uma parte encarnada com molho de tomate; outra branca, com natas; e outra verde, de pesto. É a ementa de Berlusconi para todas as suas visitas. A meio da refeição, Carlos Horta e Costa recebe uma chamada e dá sinal a Marcelo, era Portas ao telefone. «Ele está a acabar o almoço e liga assim que seja possível…» No fim da refeição, Silvio, sempre muito expansivo, faz questão de mostrar os últimos spots publicitários do seu partido. Marcelo gosta.

– Olha, vou ter eleições lá em Portugal, não te importas de me emprestar a tua equipa?…

– Não, porque não podes pagar, é demasiado caro para ti.

– Mas eu não quero pagar um centavo, quero que tu mos dês…

– O único problema é que sou eu que faço tudo, o script, o casting e a realização… não podes pagar, ah, ah, ah!

Berlusconi mostrava os filmes com orgulho porque era o seu brinquedo e esperava por aplauso e aprovação. Os dois homens despediram-se e o helicóptero transportou Marcelo, Mário David e Horta e Costa de volta ao aeroporto de Milão. Só fala com Paulo Portas enquanto espera o avião para Roma. No dia seguinte tem um almoço com Romano Prodi, recém-designado presidente da Comissão Europeia.

– Estou, Paulo? Fala Marcelo Rebelo de Sousa… diga…

– Sabe que hoje vou ao programa da Margarida Marante?…

– Não, não sabia, ai vai? Então como é que vai ser?

– Vou aproveitar para explicar a posição do CDS relativamente às europeias e à AD, tem de ser uma coisa muito clara…

– Pois… E a reunião do partido, como foi?

– Correu bem… tal como eu esperava… Mas depois eu ligo no fim da Margarida Marante…

– Olhe, eu agora vou para Roma, ligo assim que chegar ao hotel… está bem?

Marcelo pressente o perigo: «Afinal o homem não explicou o que se passou na reunião do partido…» Para complicar, naquele dia havia mais uma frente de preocupação. Estava muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. A NATO preparava-se para intervir na Sérvia e António Guterres chamava os partidos a São Bento para falar da intervenção na antiga Jugoslávia. Marcelo manda Leonor Beleza ao encontro do primeiro-ministro e combina o que ela há de dizer. Aterra em Roma, segue para o hotel e encontra uma jornalista da RTP à sua espera para lhe fazer perguntas sobre a NATO. Sobe para o quarto, prepara-se para jantar. Nem passa uma hora. Mário David diz-lhe que a jornalista ainda está à espera para fazer mais umas perguntas que lhe pediram agora mesmo de Lisboa.

O sinal de alarme é dado por um take da Lusa, a anunciar a entrevista de Portas para essa noite. Parte da notícia tinha sido dada no Jornal da Noite, uma vez que a entrevista tinha sido gravada, não seria emitida em direto. Apreensivo, Marcelo cancela o jantar que ia ter com os dirigentes do PPE e fica à espera de saber o que se passa. Liga para a Rita:

– Oiça por favor essa entrevista…

Paulo Portas tinha ido para os estúdios da televisão em grande desespero, num estado de nervos incrível, a pensar que a sua carreira política estava em risco de acabar às mãos de Marcelo. Enquanto são emitidas as imagens de Portas a responder a Margarida Marante no programa Esta Semana, da SIC, na noite de 25 de março de 1999, alguém narra a Rebelo de Sousa o que Portas diz. Provavelmente é Rita Amaral Cabral, ao telefone, que reproduz a entrevista: Portas está a dizer que propõe uma cimeira de clarificação para ver se o PSD ainda tinha vontade e confiança para fazer a coligação… Agora ataca sem piedade, diz que no domingo depois do comício de Viseu, Marcelo Rebelo de Sousa lhe disse que a maioria da comissão permanente do PSD considera que ele não era uma pessoa de bem nem uma pessoa honrada… E que Leonor Beleza até tinha insistido para não fazer campanha ao lado dele… E também diz que a comissão diretiva do PP colocou a rutura em cima da mesa… e agora revela que a maioria da direção do PSD era a favor do fim da coligação… Ele pede e exige ao PSD a lealdade que ele próprio deu… Diz que o PSD quer evacuá-lo… Se o PSD duvida e hesita, então cada um segue o seu caminho… O PSD que diga se confia ou não no líder do PP… Era a segunda vez na vida que Paulo Portas tramava Rebelo de Sousa na televisão. Desta vez o caso seria mais definitivo e grave que o da vichyssoise.

Ao saber disto, Marcelo congela. «O PSD deve estar por esta altura aos urros, completamente ululante…», pensa. Não lhe tendo explicado à tarde ao telefone o que era a «clarificação», o líder do PSD sente-se traído. «Era contar aquilo que ele interpretava como sendo a conversa que tínhamos tido. Tornava impossível a confiança recíproca entre as duas direções, entre os dois partidos e os dois líderes.

Estava encurralado. A estocada de Portas tinha sido mortal. «Mas vamos imaginar que eu lhe disse, sem nomear pessoas, que havia gente que tinha dúvidas sobre como ia acabar o caso da Moderna e se aquilo não ia atingir a honra dele. É uma conversa privada, que tenho com base de uma reserva, no pressuposto de que o estou a ajudar, a puxar por ele e ele sabe disso. Sem me dizer que vai dizer isso, afirma-o publicamente.» Se Portas lhe tivesse comunicado o que ia revelar da conversa, Marcelo tentava travá-lo. «É para matar a coligação porque a partir daquele momento eu fico sem espaço para intervir na direção política do partido.» Se o espaço de Marcelo no PSD já era reduzido para defender Portas, agora era impossível.

A intriga tinha atingido níveis insustentáveis. Se no PP se dizia que Marcelo conspirava para derrubar Portas, no PSD circulava a teoria – havia-as para todos os gostos – de que havia um pacto entre Jorge Coelho e Paulo Portas para o preservar e não o atacar, no pressuposto de a coligação acabar. Anos depois, numa sessão do julgamento do caso em Monsanto, o vice-reitor da Moderna, António de Sousa Lara, contará uma conversa com Nuno Gonçalves, ex-chefe de gabinete de Portas: este ter-lhe-á dito, em plena convulsão noticiosa sobre o caso, que «o Governo socialista tinha elementos muito comprometedores sobre o líder do CDS-PP».

A decisão de Marcelo é automática e solitária. «A única solução é ir-me embora…» Tinha defendido Paulo Portas até às últimas consequências. Convencera o partido de que se podia confiar nele. Dramatizara. Pedira maiorias reforçadas que o partido lhe deu contrariado e no limite. Levara a sua melhor amiga a perdoar em público a uma das pessoas que mais a tinha prejudicado na vida. Marcelo está derrotado, mas lúcido. Vê que não tem cara para ficar à frente do partido sem AD, não pode encarar José Manuel Durão Barroso num congresso e dizer, olhe, Zé Manel, enganei-me, você tinha razão, mas eu quero continuar à frente do partido porque acho que devo continuar à frente do partido, apesar de ter falhado em tudo o que prometi. Perdera a face.

Perdera o partido. Perdera a oportunidade da sua vida. Tinha-se aliado a um jovem que ajudara a crescer no jornalismo e na política, mas o Paulinho tinha crescido e desenvolvera mais jogo de cintura. Afinal, Portas tinha sido mais rápido a intrigar do que a própria sombra de Marcelo.

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