O regresso de Martins da Cruz ao Palácio das Necessidades

Depois de tomar posse, em Abril de 2002, como ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz garantiu na sala do Protocolo do Palácio das Necessidades que, quando deixasse o cargo, abandonava a diplomacia. Motivo: entendia que que quem exercia funções políticas no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) não deveria regressar à carreira diplomática. Um ano e meio depois, apanhado no meio de um alegado favorecimento da sua filha no ingresso ao ensino superior, pediu a demissão. E cumpriu. Oficialmente não mais regressou ao Palácio das Necessidades – excepto para reuniões e refeições informais. Até ontem: convidado pela presidente do Instituto Diplomático, Manuela Franco, voltou ao MNE como orador numa conferência sobre a influência de Jaime Gama na Política Externa Portuguesa.

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A mesma sala do Protocolo encheu-se para o ouvir falar do antecessor – aquele que mais tempo ocupou a pasta dos Negócios Estrangeiros em exclusividade. (Segundo Martins da Cruz foram 3231 dias, sem contar com os cinco meses em que acumulou as funções com a de ministro da Defesa. O que dele mais se aproximou foi Franco Nogueira, com 3077 dias). Mas ouviu-o também lançar críticas e recados: à classe política e também aos próprios diplomatas.

A primeira farpa surgiu a propósito da passagem de Jaime Gama pelo MNE, entre 1983 e 1985, como ministro dos Negócios Estrangeiros no governo do Bloco Central:

“A política internacional era uma zona misteriosa, para diplomatas e um ou outro investigador. Por vezes era mesmo uma arma de arremesso na política interna. Não estava como hoje quase ao nível do futebol, principalmente para comentadores “omnibus” que param em todas as estações e também na política externa”.

Risos na sala, onde os “gamistas” estavam representados por José Lello, Pina Moura e Miranda Calha. Em Janeiro de 1983 a guerra fria passava por Angola, Moçambique e África Austral. Timor continuava ocupado. Mas a prioridade portuguesa era a Europa. As negociações de adesão estavam num impasse. Alguns países entendiam que Portugal devia esperar pela Espanha. Para Martins da Cruz, foi então que Jaime Gama conseguiu uma das suas primeiras vitórias políticas: convenceu os restantes Estados europeus a assinar uma declaração, em Outubro de 1984, em que reconheciam que a adesão aconteceria em Janeiro de 1986. Depois, foi o primeiro a apresentar uma visão sobre o papel de Portugal na então CEE. O antigo embaixador deu o exemplo de um discurso feito por Jaime Gama na Assembleia da República, em Abril de 2005:

“É uma das primeiras visões, em política externa pura, das consequências e do significado para Portugal da adesão à Europa  São analisadas as implicações dessa adesão nos diferentes estratos da administração mas sobretudo na vida dos portugueses. (…) Mas o pano de fundo são uma mensagem e uma lição de história para os europeus: ‘Portugal, que abriu os horizontes do espírito europeu no século dezasseis (…) vai voltar a abrir horizontes ao espírito europeu do século vinte’. E sublinha: ‘Da Europa  Portugal não tem só a receber. À Europa, Portugal tem muito para dar.’”

Nesses anos, Jaime Gama procurou manter a fluidez da relação com os países lusófonos, com Espanha, e com os Estados Unidos – é desta época o último acordo das Lajes em que Portugal recebeu contrapartidas que foram canalizadas para a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Quando deixou o governo era admirado por aliados, adversários, diplomatas e interlocutores estrangeiros:

“Pela primeira vez um ministro dos Estrangeiros praticava quando entendia o silêncio, com mais peso e mais efeito do que a palavra”.

O regresso de Jaime Gama ao MNE, em 1995 serviu para Martins da Cruz lançar nova farpa, certamente ouvida com atenção pelo chefe de gabinete de Pedro Passos Coelho, Francisco Ribeiro de Menezes, que estava sentado na primeira fila:

“O terceiro governo Cavaco terminara como acabam geralmente os governos em Portugal: sem glória. Com tabus  com pântanos, com idas apressadas para a Europa ou com os credores a bater à porta e a exigir cauções e memorandos”.

A tarefa de Jaime Gama não  parecia fácil: sucedia a Durão Barroso, a vedeta do último governo de Cavaco Silva. No interior do ministério a tarefa era facilitada. Nova alfinetada, desta vez, aos antigos colegas:

“Os diplomatas são seguramente a primeira elite da Administração Pública portuguesa a adaptar-se às mudanças de cor política ainda antes delas ocorrerem”

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A relação com a União Europeia corria normalmente. A presidência portuguesa, no primeiro semestre de 2000 não teve segredos para o então ministro dos Negócios Estrangeiros.

“Achava com, com voz tranquila, que as presidências estavam condenadas a correr bem. ‘É deixá-los falar’, comentava.”

Na NATO negociou a manutenção das estruturas de comando, o novo conceito estratégico da aliança e enfrentou a guerra dos Balcãs. Com a criação da CPLP, viajou por África, “ao contrário da fama que tinha de não gostar de países quentes”. Deu um novo impulso ao Instituto Camões. Tinha a amizade de Madeleine Albright. Deixou em Macau o maior consulado de Portugal no mundo. Conseguiu a eleição de Portugal como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU em 1997-1998. Negociou a revisão da concordata com o Vaticano. Enfrentou a crise na Guiné-Bissau. Mas foi com a gestão do dossier de Timor que teve a sua maior vitória.

“Timor foi simultâneamente a última grande iniciativa digna desse nome de Portugal na esfera internacional e a única causa recente de política externa que a opinião pública apoiou, porque foi transversal à sociedade portuguesa”.

Sentado na última fila da sala, Jaime Nogueira Pinto ouviu Martins da Cruz citá-lo na descrição que fez de Gama no seu livro Jogos Africanos:

“Para introduzir as conversas que tiveram sobre Angola, Jaime Nogueira Pinto descreve Gama num retrato como Henry Kissinger gostava de fazer nas suas memórias: “Gama é um dos raros políticos portugueses com cultura histórica e política, que lê para além dos jornais e dos livros de ocasião – e que digere e pensa o que lê. É um realista e um patriota que sai das banalidades jurídico económicas e das trivialidades dos seus confrades e que, sendo político e gostando do poder, sempre mostrou indiferença pelas coisas que o poder dá.”

A sala aplaudiu.

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