Paulo Portas, o Expresso e O Independente

A edição dos 40 anos do Expresso tinha muitas coisas boas: entrevistas, artigos de bastidores, retrospectivas, algumas notícias e artigos de opinião de alguns dos principais protagonistas da história do jornal. Mas o texto de que gostei mesmo vinha na página 15, encaixado entre uma publicidade com o actor Hugh Laurie (o famoso Dr. House) e era assinado por um autor improvável: Paulo Portas.

Foi surpreendente – e por isso, muito interessante – os actuais directores terem convidado o cérebro do único projecto que mordeu os calcanhares ao Expresso durante quatro décadas para assinalar o aniversário do semanário. O actual ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros aceitou e não desiludiu, pois se há coisa que faz bem, é escrever. Para além de dizer o óbvio – que O Independente não teria existido sem o Expresso -, recorda assim como o semanário de Pinto Balsemão era visto na “sua” redacção.

“Na redacção de “O Independente, onde a humildade não era propriamente o género dominante, O Expresso era olhado com um misto de emulação e suficiência. Algo nos movia para que uma história saísse à sexta-feira e não esperasse pelo dia seguinte. As nossas vendas eram semanalmente comparadas. Competimos, anos a fio, em colunas e colunistas. Fazíamos gala em recomendar filmes a que a crítica do Expresso atribuía uma bola preta. Éramos libertários na estética e conservadores na substância – duas alquimias improváveis mas que causavam urticária no código apertado da Duque de Palmela. Podíamos gostar tanto de uma fotografia que não lhe acrescentávamos mais nada (para horror dos comerciais). Usávamos o humor até à exaustão e tínhamos  com excessiva frequência, uma presunção de superioridade. (…) Como o Expresso era o regime e nós corríamos pela pista de fora chegámos a estar muito perto de vender tanto quanto o Expresso, mas em boa verdade nunca conseguimos vender mais um exemplar do que o Expresso. Depois, as nossas vidas dispersaram-se e o Expresso continuou. Essa é, aliás, a sua maior qualidade institucional: é inoxidável, como se tivesse imunidade ao tempo. (…)

Em França, dizia-se que, por uma razão ou outra, neste ou naquele momento, todos os franceses já tinham votado em De Gaulle. À escala de um jornal, acontece o mesmo com o Expresso. Mais longe ou mais perto, em alguma fase da vida, já todos fomos, somos ou seremos leitores do Expresso.”

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É um grande elogio. Mas o que me surpreendeu mesmo neste texto de Paulo Portas, foi ele ter tido tempo para o escrever, dadas as suas actuais funções de Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. É que quando era ministro de Estado e da Defesa Nacional, no governo de Durão Barroso, o fundador de O Independente foi convidado para escrever um texto para o 15º aniversário do “seu” jornal. Miguel Esteves Cardoso, enviou um. Isaías Gomes Teixeira e Constança Cunha e Sá, também. Mas até ao fecho da edição, o director mais emblemático que o Indy alguma vez teve não foi capaz de enviar umas linhas.

À boa maneira da tradição de O Independente, a redacção não o deixou passar em claro. A coluna planeada com a fotografia de Paulo Portas foi publicada na mesma em formato de anúncio, com a seguinte explicação:

“Paulo Portas, nosso fundador e actual ministro de Estado e da Defesa Nacional não teve, sequer, tempo para escrever um miserável textozito para esta coluna de aniversário.

Aqui fica o anúncio, totalmente grátis:

Portas 002

Já não houve tempo. O Independente encerrou a 1 de Setembro de 2006. Tinha 18 anos.

 

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1 pensamento em “Paulo Portas, o Expresso e O Independente

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