A nova vida de Marco Borges como treinador de guarda-costas

Podia ter sido mais um resumo da imprensa internacional do dia a chegar ao email. Daqueles por que passamos os olhos quase automaticamente, sem reparar verdadeiramente na importância das notícias. Mas um dos últimos destaques chamou-me a atenção: dizia que um antigo membro das forças especiais portuguesas estava em Pequim a treinar guarda-costas que deverão proteger os interesses da China e dos seus empresários em zonas de conflito. O link remetia para uma fotogaleria da revista Time. As primeiras imagens não tinham nada de especial. Mostravam os recrutas em pleno treino. Até que, na oitava fotografia, aparecia Marco Borges, o tal ex-militar, vestido de camuflado preto, óculos de sol e metralhadora a tiracolo a gritar ordens aos alunos. A imagem tinha sido tirada a 16 de Janeiro durante um exercício numa base militar nos arredores de Pequim, usada pela Genghis Security Academy, com temperaturas negativas.

©Ed Jones/AFP/Getty Images

©Ed Jones/AFP/Getty Images

O nome era-me familiar. A cara também. Mas as dúvidas eram muitas. Aquele era o Marco Borges, do Big Brother? Bastou uma pesquisa rápida para encontrar outras imagens tiradas pela AFP/Getty Imagens para o confirmar. No site da empresa chinesa, encontrei a fotografia do português, identificado como instrutor principal, bem como inúmeros vídeos dos treinos duríssimos que mostram a forma respeitosa como Marco Borges é tratado na China. Era uma grande história. Que tinha mais para esclarecer para além do interesse imediato provocado por ver uma cara conhecida por outros “feitos” a dar ordens a chineses assustados.

Pouco sabia da vida de Marco Borges após a aventura televisiva. Ocasionalmente ele aparecia na TVI a comentar um dos programas sucedâneos e a última vez que tinha ouvido falar nele tinha sido quando da participação num programa de Bruno Nogueira na RTP chamado O último a sair. Agora ele aparecia como um instrutor militar em Pequim. Como tinha ido lá parar? Qual tinha sido o seu percurso? Eram apenas algumas das questões a que importava responder.

Era dia de fecho da revista. O número de telemóvel que tínhamos dele estava desactualizado. Enviei-lhe uma mensagem pelo Facebook – sem me lembrar que a grande firewall chinesa provavelmente o impediria de ter acesso ao site – e nada. Agarrei no telefone e liguei para a única pessoa que tinha a certeza saber o que se passava: Marta Cardoso, a sua ex-mulher. Ela atendeu-me quando ia no carro (com auricular). Disse-me que sabia exactamente o que ele estava a fazer mas que não lhe cabia a ela contar-me. E sugeriu: “Porque não fala com ele. Está neste momento a voltar de Pequim e aterra às 15h30. Eu dou-lhe o número e você liga-lhe.” Assim foi.

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Às 16h da passada terça-feira, Marco Borges atendeu-me o telefone. Tinha acabado de chegar a casa e estava a matar as saudades da família. Disse-lhe que queria perceber como é que ele tinha ido parar a Pequim e, apesar do cansaço, aceitou falar comigo durante mais de uma hora. À medida que a conversa avançou, revelou-se mais descontraído. Contou-me como um despedimento colectivo o fez regressar a um sonho antigo: a vida militar. Falou-me das reticências iniciais da família. Da dureza dos vários cursos pagos a peso de ouro na International Security Academy, em Israel, a mais conceituada escola de segurança pessoal do mundo. Explicou-me como acabou por se tornar o único português convidado para ficar a colaborar com a instituição como formador. E como começou a trabalhar na área da segurança pessoal um pouco por todo o mundo.

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A nova carreira levou-o à Palestina, Síria, Líbia, Grécia, Egipto e agora à China. Na conversa, Marco Borges foi de uma simpatia incrível. Teve apenas duas preocupações. A primeira foi não revelar demasiado sobre os trabalhos que já fez nem sobre uma equipa portuguesa que formou. A segunda foi perguntar: “Isto é uma coisa séria, não é? É que já tive oportunidade de falar para revistas do social e nunca quis” Garanti-lhe que sim. Afinal, há mais de três anos que Marco Borges mantinha uma actividade desconhecida para a maioria dos portugueses. Por sua vontade. Queria afastar-se do passado televisivo, apesar de ter a noção de que, em Portugal, será sempre lembrado pela polémica participação no programa da TVI. Talvez por isso me tenha dito que, não só pelas dificuldades do mercado, dificilmente trabalhará em Portugal na área da segurança. E também por isso, mais facilmente será reconhecido pelas actuais aptidões no estrangeiro – como aconteceu. Depois da primeira conversa ainda voltámos a falar mais algumas vezes no mesmo dia. Ele ainda teve a disponibilidade para me enviar dois emails com fotografias que tinha trazido de Pequim. Agradeci-lhe e voltei ao trabalho. Este foi o texto que escrevi e que, com algumas alterações, foi publicado na edição de hoje (456) da Sábado.

©Ed Jones/AFP/Getty Images

©Ed Jones/AFP/Getty Images

O durão que faz os chineses chorar

Em Portugal, é conhecido como o “Marco do Big Brother”, que deu um pontapé numa concorrente no programa da TVI. Mas fora do país, Marco Borges tornou-se um especialista em segurança pessoal, contra-terrorismo e intervenção em zonas de alto risco – e é agora o principal formador de uma empresa chinesa que pretende tornar-se a maior fornecedora de guarda-costas do país. “Acabei agora a segunda formação e regresso a Pequim a 22 de Fevereiro. Vou ficar pelo menos um ano a trabalhar com eles”, diz Marco Borges à SÁBADO.

A mudança de vida aconteceu quase por acaso. “Era director comercial de uma empresa que teve problemas e fez um despedimento colectivo. Andava um bocado desanimado até que encontrei um ex-comandante dos Fuzileiros que me sugeriu que fosse fazer um curso na área da segurança a Israel”, conta. O curso era na International Security Academy, uma instituição criada em 1987 e que se assumiu como a melhor do mundo na área da segurança privada e onde a formação clássica, de quatro semanas, custa €6500. Estávamos em 2009. Marco Borges reuniu as economias, pediu apoio à família e percorreu todas as etapas. Começou com os cursos de segurança pessoal, fez formação em protecção em zonas de alto risco, líder de equipa/sea marshall, condução, especializou-se em planeamento e gestão de equipas de segurança. “Depois fiz a formação para instrutor e fui convidado a ficar a trabalhar com eles. Foi assim que fui parar à China”, explica.

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Logo após os primeiros cursos, Marco Borges começou a trabalhar na área da segurança fora de Portugal. “Cá não vou fazer nada. O mercado é reduzido e não há necessidade. Só se falarmos de empresários que vão para Angola, por exemplo”, diz. Já trabalhou na Jordânia, Palestina, Líbano, Grécia e Egipto. “Foi sempre na área da segurança pessoal ou marítima. Ou então para fazer a avaliação de ameaças para empresas que queiram deslocar quadros superiores para esses países. Querem saber quais as zonas mais seguras para morar, o que podem necessitar em termos logísticos, etc”, conta.

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Não diz exactamente o que fez, para quem, ou quanto ganhou. Mas revela que já formou uma unidade de cinco portugueses que estão prontos para intervir na área da segurança marítima e protecção pessoal: “Em 2011 estive numa conferência em Hamburgo e fui contactado pelo Seraph Protection Group, uma empresa com sede no Panamá, para criar uma unidade de resgates por causa dos sequestros em alto mar que acontecem no Golfo de Áden ou no Corno de África”. Durante 94 dias, um grupo de 17 candidatos, que incluía membros dos comandos, operações especiais e fuzileiros, estiveram a receber formação em várias zonas do país. “Treinámos em Bucelas e Serra da Estrela, por exemplo. Alguns desistiram, outros foram convidados a abandonar o grupo. A parte de treino de tiro teve de ser em Israel. Estivemos lá 22 dias. E no final, ficaram cinco”, conta Marco Borges. O nome do grupo? Alcateia.

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No início de 2012, regressou a Israel para dar nova formação. Ficou encarregue de um grupo onde estavam nigerianos, quenianos e chineses. “No final disseram-me que qualquer dia tinha que ir à China. Respondi que nunca lá tinha ido que estava disponível”, lembra. O convite não demorou muito. Em Julho chegou a Pequim com mais oito instrutores – franceses, americanos e israelitas – e foram levados para uma ilha no sul do país para treinar um grupo de 110 homens. “Pediram-nos para dar o módulo básico, de segurança pessoal, e dividiram-nos por nove grupos. Aos poucos eles começaram a eliminar os instrutores de acordo com os critérios deles e a convidá-los a abandonar o treino. Ao fim de 48h fiquei só eu”, diz. Oito dias depois preparava-se para apanhar o avião de regresso quando um membro da empresa – a Genghis Security Academy – lhe perguntou se podia continuar o curso. Ficou mais duas semanas.

Em Dezembro regressou ao país para novo treino de 21 dias. “Desta vez a formação já decorreu num complexo militar do exército chinês nos arredores de Pequim. Já foi com ex-militares, indivíduos das operações especiais e que já teve treino de tiro básico”, explica. Ficou alojado num hotel localizado a três quilómetros da base. Antes da formação, iam buscá-lo. No final, levavam-no. Os treinos são duros. “Se eles se portarem bem começa às 5h da manhã e termina à 1h da madrugada seguinte. Se não correr bem durante o dia não precisam de dormir”, diz.

Vídeos da formação mostram os recrutas a rastejar sobre pedras, com os braços a sangrar, a treinar luta corpo a corpo e a fazer exercícios com troncos de árvores. Num dos vídeos vê-se Marco Borges a dar um estalo num recruta. “Isso…a primeira vez que dei uma chapada num gajo parou tudo. Não estavam habituados. Ainda por cima era estrangeiro. Agora estranham é se não desato ao estalo e ao pontapé no primeiro dia”, ri-se. “Quando me venho embora adoram-me. Até choram. Duvido que algum goste de mim durante a formação.”

©Ed Jones/AFP/Getty Images

©Ed Jones/AFP/Getty Images

Chegou a Lisboa na passada terça-feira. E já tem data de partida: 22 de Fevereiro. Vai ficar 60 dias. Marco Borges não diz se compensa financeiramente. “A minha mulher diz que não. Mas não pagam mal, em arroz dá umas sacas valentes”, brinca. O certo é que o investimento foi grande. “É a diferença entre estudar na Lusófona e na Católica. Posso dizer que ainda hoje estou a pagar à família”.

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