O paparazzo que nunca tirou uma fotografia

Subornou um guarda para ter uma câmara na prisão e vender as imagens, gravou a audiência de divórcio de uma modelo e lucrou com isso e montou uma agência que o fotografava a ele próprio quando namorava com uma estrela argentina. Ao ser preso em Portugal, Fabrizio Corona livrou-se de cumprir pena por outros processos pelos quais venha a ser condenado em Itália – e também ganhou dinheiro.

fabriz

Nuno Tiago Pinto*

“Saí de casa às 10h30 e encontrei três polícias à minha espera. (…) Quando olhei para eles percebi que ia ser condenado e pensei: ‘Não me posso deixar levar’. Não tinha planeado nenhum tipo de fuga: fui ao ginásio, agarrei num carro e fui a uma reunião de negócios. Assim que ouvi a sentença, sem derramar uma lágrima, tomei uma decisão para a qual me tinha preparado mentalmente uma semana antes, porque eu não fujo nem nunca fugi. (…) Fiz quatro dias de viagem a 60 km por hora, num Fiat 500, sem parar e cheguei a Lisboa ontem à tarde ao fim de quatro dias de viagem. (…) Esta manhã entreguei-me à polícia para pagar a minha pena aqui e, acima de tudo, para procurar justiça porque o que me fizeram é indecente. Em Itália, até podia correr risco de vida se acabasse na cadeia”.

Foi assim que Fabrizio Corona, o fotógrafo italiano conhecido por “rei dos paparazzi” justificou ao site Social Channel a sua saída de Itália e posterior entrega à polícia portuguesa após ser condenado a cinco anos de prisão pela tentativa de extorsão de 25 mil euros ao antigo futebolista da Juventus, David Trezeget, em troca de três fotografias comprometedoras com uma mulher.

FABRIZIO CORONA racconta la sua fuga al telefono from SocialChannelTv on Vimeo.

No entanto, quando foi presente à juíza do Tribunal da Relação, Ana Paula Grandvaux, Fabrizio Corona não se opôs à sua entrega às autoridades italianas. Para além disso, não abdicou da regra da especialidade. Ou seja, se for condenado num dos outros processos que enfrenta em Itália, as autoridades não o poderão manter na cadeia para além da pena pelo qual foi enviado para Itália. Terá de ser libertado e só ao fim de 45 dias preso novamente. “Ele está muito bem aconselhado”, diz à SÁBADO fonte judicial. Contactado pela SÁBADO, o advogado que o representou em Portugal, João da Costa Andrade, não quis fazer qualquer comentário sobre o assunto por “não ter autorização” do cliente.

Fabrizio Maria Corona, 38 anos, é uma personalidade bem conhecida dos italianos. Filho do jornalista Vittorio Corona, que na década de 1980 e 1990 criou as revistas masculinas  King e Moda, era um típico rapaz da alta burguesia milanesa. “Dizem que era um menino educado e tímido”, diz à SÁBADO o repórter italiano Alessandro Penna. Depois de um estágio numa agência de fotografia começou a trabalhar como jornalista no canal do Inter de Milão. Podia ter ficado por aí. Mas no final dos anos 90 conheceu Lele Mora, um poderoso agente televisivo.

Através de Lele Mora, Fabrizio Corona passou a ter acesso a informações sobre vícios, relações e hábitos dos famosos italianos alimentados pela cultura televisiva do grupo de Sílvio Berlusconi. “Ele organizou uma agência fotográfica que sabia tudo sobre essas personagens graças a uma enorme rede de informadores e, suspeita-se, às informações do próprio Lele Mora”, diz Alessandro Penna. “Ganhou milhões de euros. É chamado de paparazzo, mas nunca tirou uma fotografia”, garante.

nina-moric_lap

Entretanto, Fabrizio Corona tornou-se ele próprio uma celebridade. Em 2002 casou-se com a modelo croata Nina Moric. Fotografias dos dois começaram a surgir nas revistas e nos sites de celebridades. Tiveram um filho, Carlos, mas a relação não durou. Separaram-se em 2007 – e Corona também lucrou com isso. “Ele chegou a filmar às escondidas a audiência de separação com a Nina Moric e a vendê-la”, conta Alessandro Penna, que é reportar da revista Oggi.

No mesmo ano, foi preso pela primeira vez no chamado processo Vallettopoli, por extorsão, na maioria dos casos a jogadores como Adriano e Francesco Totti. O tribunal de Milão acusou-o de fazer ameaças ao estilo da máfia. Fabrizio Corona garantia que apenas dava a oportunidade aos seus alvos de comprarem as imagens ao mesmo preço das revistas. E houve vários jogadores que o testemunharam a seu favor, dizendo que lhes vendeu as fotografias por amizade para não saírem nos jornais.

Uma das imagens mostraria o então capitão da selecção italiana a entrar em casa da apresentadora Flávia Vento. O futebolista terá pago 50 mil euros para impedir a publicação da imagem porque a mulher estava grávida. Mas o caso que teve mais impacto terá ocorrido em 2005: Corona terá ameaçado vender uma entrevista com Patrizia, um transexual que estaria com Lapo Elkann, um dos netos da Fiat, quando este teve uma overdose e que na altura estava a recuperar no hospital. Terá pedido 200 mil euros. O representante do neto de Gianni Agnelli recusou.

O escândalo atingiu até a filha de Sílvio Berlusconi. Bárbara, de 22 anos, disse que pagou 20 mil euros por uma série de fotografias que a mostravam a sair de um clube de Milão, aparentemente alcoolizada, e numa situação comprometedora com um homem que não era o seu namorado. No caso do David Trezeguet, o jogador aparecia numa fotografia a sair de uma discoteca com uma mulher. “Ela era uma amiga que conheço há muito tempo e era normal ela entrar no carro comigo”, disse o jogador. “Levei-a a casa e depois fui para o hotel. As fotos não eram nada. Mas talvez conseguissem construir uma história à volta disso”.

Fabrizio Corona esteve preso na cadeia de Potenza, no sul de Itália e depois em San Vittore, em Milão. “Aí ele corrompeu um agente com quatro mil euros para ter uma máquina fotográfica. Depois vendeu as suas fotografias na prisão por 20 mil euros”, conta Alessandro Penna. Era uma estrela cada vez maior. Quando conseguiu voltar a casa em prisão domiciliária, tinha tinha grupos de fãs à espera. “Da varanda atirava boxers com a etiqueta ‘Corona’s’ e lá em baixo eles apanhavam-nos”, lembra o jornalista da Oggi.

FABRIZIO CORONA E BELEN RODRIGUEZ A FORMENTERA

Depois de lançar um livro sobre a sua prisão, entrou no documentário Videocracy, Grande parte do filme acompanha-o enquanto persegue celebridades. Abriu uma nova agência fotográfica, a Fenice Press, mas o principal alvo dos seus fotógrafos passou a ser ele próprio. “Namorava com a argentina Belen Rodriguez, que era de longe a mulher mais desejada de Itália”, diz Alessandro Penna. Imagens dos dois na praia, à noite em discussões e com o filho de Fabrízio Corona eram vendidas pela sua própria agência. Os dois separaram-se em 2012.

Na passada sexta-feira, 18 de Janeiro, assim que o juiz de Milão leu o acórdão que condenou Fabrizio Corona a cinco anos de cadeia, a polícia italiana começou imediatamente a procurá-lo. O pedido de cooperação internacional chegou a Lisboa na terça-feira seguinte. E não foi muito difícil à Polícia Judiciária encontrá-lo. “Localizámo-lo na zona de Cascais mas não o detivemos logo porque as autoridades italianas ainda não tinham cumprido todos os formalismos”, diz à SÁBADO fonte da Polícia Judiciária.

lorenzo insta

Nesse mesmo dia o fotógrafo contactou o piloto luso-brasileiro Lorenzo Carvalho, que viveu em Milão entre 2003 e Agosto de 2012, data em que se mudou para Portugal. Numa entrevista publicada no site da revista italiana Novela 2000, Lorenzo Carvalho, que corre pela Ferrari em GT3, contou que Fabrizio Corona queria cumprir a pena em Portugal e que se entregou pelo filho Carlos, a mãe Gabriela e os irmãos. Mas disse mais:

– “À noite as polícias portuguesa e a italiana vieram a minha casa

– “Talvez tivessem pensado que ele estivesse em sua casa.

– Sim, apontaram-me a pistola e tudo.

– Como? Explique-se melhor

– Confundiram-me com o Fabrizio. Eu tenho um Fiat 500 como aquele que ele tinha no momento da fuga e ao verem-me sem camisola, cheio de tatuagens, imobilizaram-me pensando que o tinham apanhado

– Que coincidência, também tem um Fiat 500

– Disse imediatamente quem era e convidei a polícia a entrar em minha casa para mostrar que não era o Fabrizio. Então eles quiseram verificar outras propriedades da minha família mas não havia nada.

Contactado pela SÁBADO, o representante de Lorenzo Carvalho confirmou a veracidade destas declarações mas garantiu que o piloto julgava estar a falar com um amigo de Fabrizio Corona e que quando percebeu que estava a ser entrevistado desligou o telefone. A família de Lorenzo Carvalho já terá mesmo processado a Novela 2000. À SÁBADO, fonte da PJ garante que era impossível confundir os dois: “Fisicamente são muito diferentes. Às vezes temos que tomar medidas que as pessoas não compreendem bem.”

No dia seguinte, quarta-feira, Fabrizio Corona ligou a Lorenzo Carvalho – que conhece de algumas festas em Milão – e pediu-lhe ajuda para se entregar às autoridades portuguesas. “Não quis vê-lo a ser preso, então enviei o meu agente”, disse o piloto, de 21 anos. Levado ao tribunal da relação, o fotógrafo italiano tinha à espera – para além de três polícias italianos e do oficial de ligação da Interpol na Península Ibérica – uma legião de jornalistas.

Italian paparazzo heard in court

Apesar disso, não deixou de lucrar: foi ao seu site sobre celebridades, Social Channel, que deu o exclusivo da declaração na prisão, fotografias da última noite antes da fuga e o último trabalho antes de ser detido. A sua saída da sala de audiências foi filmada através de telemóvel e colocada na Internet  Durante o percurso pelos corredores da Relação, Fabrizio Corona disse que passou a noite numa cela gélida e que dormiu no chão. A entrada no avião da TAP, parte da viagem e a chegada a Itália também foram filmadas – e emitidas em directo. Depois de aterrar, o fotógrafo foi levado para a prisão de Busto Arsizio, onde vai cumprir a pena a que foi condenado, acrescida de 2 anos e sete meses por ter fugido – mas poderá escapar aos restantes processos judiciais.

* Com António José Vilela

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