O cinismo das relações entre Estados

No primeiro dia da visita oficial a Angola, Paulo Portas foi recebido por José Eduardo dos Santos a quem classificou como “um dos grandes líderes africanos”.

No segundo dia da visita do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, o Jornal de Angola, órgão oficial do regime, devolveu o elogio num editorial muito diferente de outros de tempos recentes:

“Ao ouvir as suas declarações ontem, no Palácio da Cidade Alta, não pudemos deixar de pensar no abismo que separa a sua intervenção de outras protagonizadas por políticos com grandes responsabilidades e que descem ao patamar do insulto contra os governantes angolanos, envenenando as relações com ódios e ressentimentos de todo injustificados.”

O título do editorial é significativo: “Crescemos Juntos”. E diz o seguinte:

“Os amigos conhecem-se nos momentos difíceis. Os angolanos sabem estender a mão da amizade a todos os que precisam, sem olhar a conveniências ou retornos. Portugal é um país amigo e mais do que isso: o Executivo definiu-o como um parceiro estratégico. Porque partilhamos um património fabuloso, que é a Língua Portuguesa, ferramenta de trabalho dos poetas Agostinho Neto, António Jacinto, Camões, José Craveirinha ou Alda Espírito Santo, a que proclamou em versos grandiosos que é nosso o solo sagrado da pátria.
Estamos a desenvolver uma cooperação sólida. Os povos de Angola e Portugal estão ligados por laços históricos e culturais. Mas há amizade de fresca data, a que surgiu com o Movimento dos Capitães, que se juntou a nós em 25 de Abril de 1974. Essa amizade é agora tão forte que faz esquecer séculos de colonialismo e seus horrores. O 25 de Abril libertou os portugueses mas também ajudou à libertação definitiva dos angolanos. Os episódios marcantes da História comum têm que ser valorizados na justa medida em que estreitamos os laços de amizade e de cordialidade.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Portas, está entre nós. E como acontece com todos os governantes portugueses, é recebido com consideração, respeito e amizade. Por ele mas também pelo Povo Português que aqui representa. Ao ouvir as suas declarações ontem, no Palácio da Cidade Alta, não pudemos deixar de pensar no abismo que separa a sua intervenção de outras protagonizadas por políticos com grandes responsabilidades e que descem ao patamar do insulto contra os governantes angolanos, envenenando as relações com ódios e ressentimentos de todo injustificados.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português teve uma atitude que, também pela sua simplicidade, mostra a grandeza do povo que representa. Paulo Portas disse aos portugueses que cá vivem e aos que lutam em Portugal contra os efeitos da crise económica e financeira que, no último ano, as exportações portuguesas para Angola aumentaram mais de 30 por cento e isso contribuiu para ultrapassar a crise em que se encontra mergulhada a Zona Euro e que fustiga particularmente Portugal, querido país irmão, porque a sua economia aberta o deixa particularmente vulnerável.
Temos a certeza de que somos acompanhados pelos angolanos neste voto: que daqui a um tempo, com a cimeira bilateral agora anunciada, Paulo Portas regresse a Angola e anuncie que Portugal saiu da crise e continua a caminhar de mãos dadas com Angola para o crescimento económico e o progresso. Só um povo que sofreu décadas de guerra compreende o sofrimento dos outros. E o desemprego é um flagelo que faz sofrer portugueses e angolanos.
De um lado e do outro, em Angola e Portugal, há esforços gigantescos para criar riqueza e postos de trabalho. Se formos capazes de criar sinergias, vamos seguramente crescer juntos. Portugal tem muito para oferecer a Angola nesta fase da reconstrução nacional. E a colaboração de quadros especializados portugueses e conhecedores de Angola não é o menos importante, pelo contrário. Portugal pode transferir para Angola tecnologia, conhecimento, investigação, mão-de-obra especializada e ajudar a promover o comércio, a agricultura e o turismo, sectores fundamentais na criação de emprego e no
combate à pobreza.
Angola tem matérias-primas que fazem falta à economia portuguesa. O crescimento económico que Angola regista liberta também fundos apreciáveis para investimentos num país que, além de falar a mesma língua e partilhar connosco um mundo de gostos e afectos, é uma potência mundial na área do turismo e desenvolveu serviços ao nível do melhor que existe no mundo. A amizade que nos une tem se servir para crescermos juntos e não apenas para declarações de boas intenções que depois não têm correspondência na vida real, tais são as forças de bloqueio prontas a prejudicar uma relação que se quer exemplar dentro do relacionamento entre África e Europa.
A visita de Paulo Portas mostra que o futuro continua a ser o melhor activo dos dois países. A amizade vai sempre a tempo e os governos de Luanda e Lisboa estão a fazer tudo para que as relações entre os dois países sejam fortalecidas e atinjam o patamar que foi definido pelo Presidente José Eduardo dos Santos: Portugal é um parceiro estratégico.
O que está em jogo é tão grandioso que os pequenos acidentes de percurso, as atitudes disparadas com acrimónia por sectores da política portuguesa, as faltas de respeito e as deslealdades que prosperam em Lisboa contra Angola e nos magoam, não vão conseguir destruir a nova relação que nasceu com o 25 de Abril de 1974, se reforçou com a cooperação institucional e lavou a mancha do colonialismo, abrindo de par em par as portas à amizade e cerrando as páginas dolorosas da dominação colonial. Os nossos irmãos portugueses dizem que a maior conquista do 25 de Abril foi a liberdade. Para nós foi a liquidação do colonialismo e também a liberdade. Isso criou o caldo democrático que alimentou a nossa amizade. Temos tudo para crescer juntos.”

PP

 

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