A Fraude: soube a pouco, muito pouco

Após a emissão da primeira parte da Grande Reportagem da SIC, A Fraude, escrevi aqui um post sobre esse episódio. Em resumo, dizia que me tinha sabido a pouco, mas que esperava que os capítulos seguintes dessem um novo impulso àquele que foi um dos trabalhos jornalísticos de televisão mais promovidos dos últimos tempos. Infelizmente, não deram.

Após a transmissão do segundo capítulo – A Anatomia de um Golpe – dei por mim com a mesma sensação de que a reportagem tinha continuado a tratar o assunto pela rama. Ficou-me na retina uma explicação dada por Honório Novo, deputado do PCP e um dos mais destacados membros da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN, que, com um papel e uma caneta, esquematizou em traços gerais como funcionava o banco de Oliveira e Costa. E pouco mais. Na altura, não voltei ao assunto. Disse para mim próprio: “amanhã é que é”. Mais uma vez, não foi.

O título do 3º capítulo até prometia: No rasto do dinheiro. Esperava que a reportagem do Pedro Coelho nos levasse mais além do que aquilo que já sabíamos. Que apontasse beneficiários. Contas. Empresas. Qualquer coisa de concreto. Mas não. A SIC foi até à Holanda falar com um “farejador de dinheiro”, que nada tem a ver com o caso BPN e que apenas apontava um suposto caminho alternativo a seguir pelas autoridades.

Nesta altura, já não esperava grande coisa de A Caixa Negra, a última parte da reportagem. Vi-a quase que por obrigação – e para ter a garantia de que não tinha ficado com a ideia errada. Não fiquei. A Fraude revelou-se um bom trabalho jornalístico, muito bem editado, que traça a evolução temporal do banco liderado por Oliveira Costa. Mas pouco mais.

Sei que o assunto é muito complexo e que traduzi-lo numa linguagem perceptível em televisão não será fácil. No entanto, fiquei com a impressão de foi tratado pela rama, muito aquém da capacidade do Pedro Coelho. Sofre de um mal de base: de todas as pessoas contactadas, apenas cinco tiveram alguma ligação ao caso BPN. Neste ponto é preciso ser justo: conseguir que alguém fale em “on”, para uma televisão, num caso destes, não é tarefa fácil. Melhor: é quase impossível.

Para além disso, A Fraude toca ao de leve no caso do Presidente da República – que lucrou milhares de euros com um acordo de recompra de acções da SLN e que ao contrário de todos os outros não teve direito a um carimbo de “recusado” – e nem menciona a polémica da Casa da Coelha. Por outro lado não refere a investigação do Ministério Público (como é possível fazer um trabalho destes sem consultar o processo?) nem o que se passou no julgamento de Oliveira e Costa até agora. Passa ao lado da responsabilidade do Banco de Portugal e não deixa claro qual o circuito do dinheiro nem em que negócios ruinosos foi investido. O melhor: as explicações de Honório Novo e de João Semedo, que dominam o dossier como ninguém. No fim, soube a pouco. Muito pouco.

2 thoughts on “A Fraude: soube a pouco, muito pouco

  1. De facto senti-me bastante defraudada com esta reportagem em quatro actos.
    Confesso que para assistir a esta reportagem por inteiro tive de manter o comentário do NTP e mente: “Vi-a quase que por obrigação – e para ter a garantia de que não tinha ficado com a ideia errada.”
    Não é, de forma nenhuma, um assunto fácil de manusear e explicar. Mas os assuntos mais complexos nunca o são. Fiquei sempre com a sensação de que pairava medo no ar. Medo de se tocar numa ferida mais profunda. É uma reportagem sobre a rama.
    Penso que em casos deste género existem duas opções (corrija-me se estiver errada): 1) Estilo “dar tempo ao tempo”. Um trabalho exaustivo deste nível requer distância temporal. O tempo traz segurança aos intervenientes, ainda que obviamente não possa servir de alavanca à justiça imediata que a opinião pública tanto reclama. 2) Estilo “Roberto Saviano”. Dizer o que todos sabem, mas ninguém tem coragem para assumir. Romancear, se preciso fôr. É claro que esta alternativa coloca o jornalista na berlinda da difamação e até, no caso de Saviano, com a cabeça à prémio. Mas a cada escolha, a consequência.
    Talvez as opções sejam ilusórias, infantis ou até inconsequentes, mas há coisas que têm de ser ditas custe o que custar. E o tanto que este caso está a custar ao país…

    • Há mais opções, claro.
      No entanto, “dizer o que todos sabem, mas ninguém tem coragem para assumir”, não é algo que se possa fazer de ânimo leve. Um jornalista tem responsabilidades. Deve dizê-lo mas só se o puder provar. Todas as afirmações devem estar sustentadas de alguma forma, seja em declarações de intervenientes, testemunhos, documentos ou algo mais, para que uma reportagem deste género não caia no rumor e no diz-que-disse.
      O caso do Roberto Saviano é diferente: havia um testemunho directo da parte dele.

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