Ana Bívar: as novas revelações de um homicídio

Em Junho do ano passado assinei na Sábado um artigo sobre o homicídio de Ana Bívar Páscoa, a mulher do eurodeputado do PSD, António Prôa. Não voltei a pensar no assunto até há poucas semanas, altura em que soube que o processo estava disponível para consulta no Tribunal Judicial de Évora. Depois de lá passar um dia, voltei a Lisboa com a convicção de que trazia comigo uma boa história: o processo estava cheio de novidades.

Uma delas era terrível. António Prôa estava ao telefone com a mulher quando tudo aconteceu. O deputado foi considerado uma testemunha fundamental pela Polícia Judiciária e os inspectores insistiram em ouvi-lo mesmo depois de já terem terminado a investigação. Ele respondeu por escrito. E confirmou tudo. Mais: tornou-se o único a poder identificar, indirectamente, o autor do crime. Será uma testemunha chave no julgamento que começa para a semana.

Desde então que tenho tentado falar com o deputado do PSD. Ele nunca respondeu às chamadas nem às mensagens escritas. Ontem, pediu a um assessor do partido para, a título particular, me ligar. Não queria falar no assunto, obviamente doloroso. Por um lado suspirei de alívio. Teria sido uma conversa muito difícil.

A mulher de Guilherme Páscoa também nunca tinha falado com nenhum jornalista. Ontem esteve vários minutos comigo ao telefone. Não respondeu às questões que lhe coloquei sobre as descobertas da PJ. Mas lamentou-se, muito, com o teor de algumas notícias que foram sendo publicadas na imprensa. Relatou-me erros, mentiras e abusos. Alguns terão sido cometidos devido à pressão do tempo. Outros por desconhecimento.

Hoje, publico um novo texto sobre o assunto na edição online da Sábado. Foi todo escrito com base no processo judicial que, no dia 12 de Março, começa a ser julgado. Tem todos os dados apurados pela Judiciária e as versões dos intervenientes. Espero que não sofra do mesmo mal daqueles publicados há quase um ano.

Funeral de Ana Bivar, CemitŽrio dos Olivais, Lisboa

Ana Bívar estava ao telefone com o marido quando foi assassinada

O deputado António Prôa disse à PJ que a mulher identificou o irmão, Guilherme Páscoa, antes de desligar o telemóvel. Maria Ramalho da Silva, a esposa do suspeito, foi constituída arguida e a PJ quis acusá-la de homicídio. No interrogatório judicial, Guilherme Páscoa disse que Ana Prôa desviou 600 mil euros da herança da avó. Os dados estão disponíveis no processo consultado pela SÁBADO no Tribunal Judicial de Évora. O julgamento começa a 12 de Março

Nuno Tiago Pinto

Ana Bívar Parreira Páscoa preparava-se para regressar a Lisboa. O dia em Évora tinha-lhe corrido bem. Apesar da tensão, a reunião no escritório da advogada Cristina Torres entre a mãe, Maria Guilhermina, e o irmão, Guilherme Páscoa, tinha sido favorável às suas pretensões e às das irmãs Marta e Alexandra: em breve o mais novo dos Parreira Páscoa deixaria de gerir a herança da família como lhe convinha, graças a uma procuração passada por Maria Guilhermina em 1999. O primeiro passo estava dado: a mãe tinha decidido deixar a advogada Ana Etelvino, amiga de Guilherme, que tem escritório em Alcácer do Sal, e passar a ser representada por Cristina Torres. Apesar da oposição do filho, Maria Guilhermina manteve a sua posição com o argumento de que a nova advogada estava mais perto dela, que vivia em Évora. Ele não gostou.

Por volta das 21h, Ana e a irmã saíram de casa desta última, na Rua Doutor César Baptista, em Évora e dirigiram-se ao carro da primeira. A caminho, Ana decidiu ligar ao marido, o deputado do PSD António Prôa, para lhe dar conta das novidades e avisar que ia a caminho de casa. Disse também que o irmão estava furioso com o resultado do encontro dessa tarde.

A certa altura, um carro com os faróis no máximo surgiu-lhes pela frente e atropelou-as. Ana não desligou o telemóvel. Pelo contrário. De acordo com o depoimento de António Prôa, prestado por escrito à Polícia Judiciária (PJ) e disponível no processo consultado pela SÁBADO no Tribunal Judicial de Évora, identificou o irmão como o condutor da viatura e disse várias vezes ao deputado que Guilherme Páscoa a queria matar. Antes de desligar, ainda pediu ao marido que avisasse a sua irmã Alexandra do que se estava a passar. O deputado do PSD – que não quis falar sobre o assunto com a SÁBADO – voltou a ligar-lhe. A chamada foi atendida. Mas do outro lado da linha ninguém respondeu.

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A herança da família

A relação entre Guilherme e as três irmãs há muito que não era a melhor. Elas consideravam que o mais novo dos Parreira Páscoa – um dos ramos da família Lynce, os grandes proprietários da zona de Alcácer do Sal – não estava a gerir da melhor forma a herança da família. Achavam que ele usava a procuração que a mãe, Maria Guilhermina Lynce de Bívar Branco Parreira Páscoa, lhe tinha passado a 2 de Julho de 1999 em benefício pessoal. E decidiram anular o documento que também permitia a Guilherme administrar a parte familiar da Herdade da Lezíria. 

Até 25 de Abril de 1974, a Herdade da Lezíria foi uma única propriedade, com cerca de 800 hectares. Após a revolução, Maria Lourdes Cabral Vilhena de Sousa Lynce dividiu-a, através de doação, pelos três filhos: Maria Guilhermina, Maria Amélia e António Lynce de Bívar Branco. Cada um pôde também comprar uma casa. Maria Guilhermina, que se casou com um professor natural de Évora, António Parreira Páscoa, escolheu uma casa na cidade. Este será um dos poucos imóveis que restam a Maria Guilhermina. A moradia na herdade onde chegou a viver com o marido e os filhos, o terreno em redor, 100 hectares de sequeiro e 30 hectares de arrozal já foram vendidos.

Maria Guilhermina terá ainda a receber a sua parte da herança da mãe (Maria de Lourdes Lynce, falecida em Dezembro de 2008), que ainda se encontra em processo de partilhas. O património inclui a Herdade de Alfebre do Mar/Vale Ferreira, em Alcácer do Sal, um prédio na Avenida dos Estados Unidos da América, andares na Avenida de Roma, em Lisboa, uma moradia com 4000 m2 no Algarve e algumas centenas de milhares de euros em contas bancárias.

Como filha mais velha, Maria Guilhermina começou por ser a cabeça-de-casal da herança. No entanto, há cerca de dois anos foi removida dessa posição por alegada má gestão. A irmã mais nova, Maria Amélia, assumiu a sua posição. A acção de inabilitação foi interposta pelas suas filhas Ana e Alexandra que, juntamente com Marta, foram contempladas com um terço da quota disponível da herança de Maria de Lourdes Lynce. Guilherme foi excluído. Os outros dois terços ficaram para a filha Maria Amélia e para a neta Mafalda Bívar. O restante (a parte legitimária) será dividido em três.

Criador de Cavalos viciado em jogo, Guilherme de Bívar Páscoa, atropela as duas irmãs matando à facada uma delas Ana Bívar. O motivo terá sido devido a uma decisão judicial de cancelar os seus direitos de gerir bens herdados pelo pai uma vez que Guilherme

A reunião.

Nos primeiros meses de 2012, Maria Guilhermina terá percebido que o seu património não estava a ser bem gerido pelo filho. Segundo disse à Polícia Judiciária, decidiu anular a procuração que lhe tinha passado e deixar de ser representada pela mesma advogada de Guilherme, Ana Etelvino. Para esse lugar contratou a advogada Cristina Ramos.

As duas marcaram uma reunião para o dia 30 de Maio de 2012. A advogada declarou à PJ que o encontro serviria para se inteirar dos processos existentes. Marta e Ana terão querido estar presentes porque teriam documentos importantes para lhe entregar. Para formalizar a nova posição, a advogada Cristina Ramos já tinha contactado a sua antecessora, Ana Etelvino, para a informar de que passaria a representar Maria Guilhermina e pedir dados sobre os 10 processos em que teve intervenção.

Este contacto terá sido fundamental no desenrolar dos acontecimentos. Depois de ser abordada por Cristina Ramos, Ana Etelvino contactou Guilherme Páscoa a informá-lo de que tinha deixado de ser advogada da sua mãe. Ele ficou surpreendido. Não sabia de nada. Pior: a jurista avisou-o de que os seus honorários nunca seriam inferiores a 80 mil euros.

Guilherme entrou no Volvo S80 e dirigiu-se para Évora. Pelo caminho, ligou à mãe. À Polícia Judiciária, Maria Guilhermina disse que, nesse contacto, o filho estava muito enervado e mostrou-se zangado por ela ter tomado a decisão sem lhe dizer nada. Avisou-a também de que ia ter com ela para falarem pessoalmente.

Já em Évora, Guilherme perguntou à mãe onde era o escritório da advogada para ir lá ter. Foi Cristina Ramos quem lhe abriu a porta. Eram 14h30. Na reunião, Guilherme terá acusado a mãe de estar a ser influenciada pelas três irmãs. Ela negou e garantiu-lhe que mudava de advogada porque Ana Etelvino tinha escritório em Alcácer do Sal e precisava de alguém que estivesse em Évora. Não falaram da anulação da procuração. Em declarações à PJ, Maria Guilhermina disse que a conversa teve momentos de exaltação. A advogada foi mais concreta: disse aos investigadores que Guilherme insultou a mãe, que lhe disse que ela merecia ser atirada pela janela e que se despediu a dizer que tinha vergonha de ser filho dela. O encontro durou até cerca das 16h30.

Criador de Cavalos viciado em jogo, Guilherme de Bívar Páscoa, atropela as duas irmãs matando à facada uma delas Ana Bívar. O motivo terá sido devido a uma decisão judicial de cancelar os seus direitos de gerir bens herdados pelo pai uma vez que Guilherme

As mensagens da mulher

Quando deixou o escritório de advogados, Guilherme Páscoa não sabia que grande parte da conversa tinha sido ouvida pelas duas irmãs. “A certa altura fingi que saía da sala de reuniões para atender o telemóvel e abri a porta à Ana e à Marta”, explica à SÁBADO Cristina Torres. As duas entraram no escritório e ficaram numa sala ao lado daquela onde decorreu a reunião. Como essa sala é interior, o telemóvel de Guilherme ficou sem rede e ele não soube da presença das irmãs. De acordo com a informação disponível no processo, às 14h28 recebeu uma mensagem escrita a alertá-lo para a presença das duas irmãs. O remetente: a mulher, Maria Ramalho da Silva.

Uma hora mais tarde, já depois de Guilherme ter saído do escritório, Maria Ramalho da Silva enviou-lhe outro SMS com a localização do carro de Marta. Para os investigadores, foi nessa altura que percebeu que as duas irmãs estavam no gabinete da advogada e voltou lá. Maria Guilhermina estava à janela a fumar. “A partir da rua, ele gritou que sabia que Ana e Marta estavam lá dentro e que todas se iriam arrepender do que estavam a fazer”, conta Cristina Torres. E desapareceu.

De acordo com o relatório final da Polícia Judiciária, Maria Ramalho da Silva deslocou-se a Évora num carro diferente do do marido, depois de ele a informar de que a mãe ia mudar de advogada. Os inspectores concluíram que ela ficou a aguardar pelo fim da reunião e que depois foi com o marido para os arredores da casa de Marta Páscoa. Os dados recolhidos nas operadoras telefónicas, que colocam Maria Ramalho da Silva no local, juntamente com testemunhas que indicam ter visto uma mulher no carro de Guilherme Bívar, foram suficientes para a PJ constituir Maria Ramalho da Silva arguida e apontá-la como um dos autores do homicídio de Ana Bívar. No entanto, o Ministério Público não considerou que houvesse indícios suficientes para a acusar e arquivou as suspeitas.

Contactada pela SÁBADO, Maria Ramalho da Silva não quis falar sobre um assunto que “foi arquivado”

Homicídio de mulher de deputado em Évora

O crime

Após a reunião, Maria Guilhermina, Ana, Marta e a advogada Cristina Torres saíram separadas do escritório e encontraram-se no café Bica-Bicas, fora das muralhas de Évora, onde estiveram cerca de hora e meia. Já Guilherme Páscoa, de acordo com a Polícia Judiciária, esteve algumas horas a rondar a zona da residência de Marta Páscoa. Nesse período, foi visto por várias pessoas: João Orvalho, Pedro Valadares e José Sapata. Este último referiu mesmo que ele estava acompanhado por uma mulher.

Quando Ana e Marta saíram de casa desta última, pouco depois das 21h, já Guilherme estava ao volante do Volvo. Ana Bívar Prôa estava a ligar ao marido quando um carro com as luzes no máximo as atropelou. O Peugeot 307 da mais velha das irmãs, que ali estava estacionado, também foi atingido. Depois, Guilherme Páscoa saiu do carro e esfaqueou Ana na cabeça e no pescoço. Em seguida virou-se para Marta, que estava caída no chão. Tinha-a atingido várias vezes no pescoço, esterno e mãos quando o vizinho João Baixinho Oliveira se aproximou e impediu que as agressões continuassem. Guilherme Páscoa levantou-se, entrou no carro e arrancou.

Contactada pela SÁBADO, Marta Bívar Páscoa não quis prestar qualquer esclarecimento por ainda não estar psicologicamente preparada. À PJ, disse que, após o atropelamento, perdeu os sentidos por breves momentos e que não se lembra de como sofreu os golpes. Quando acordou, viu a irmã a sangrar ao seu lado. Tentou estancar o corte no pescoço com a mão até à chegada dos bombeiros. Sem sucesso. Ana Bívar Prôa morreu já no hospital de Évora.

Apesar de não o ter visto, não teve dúvidas em responsabilizar o irmão pelo crime. Na mesma ocasião, recordou as agressões físicas de que tinha sido vítima e as ameaças que ele já lhe tinha feito por causa das partilhas.

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A prisão

Após o crime, Guilherme Páscoa conduziu o carro em direcção a Alenquer, onde vivia com a mulher e a filha. Maria Ramalho da Silva também regressou a casa. Fizeram caminhos diferentes. Segundo disse à juíza de instrução criminal do Tribunal de Évora, ter-se-á ido despedir da filha a casa de uma amiga onde ela estava a dormir e pensou em suicidar-se. Já em casa, foi a mulher que o convenceu a entregar-se.

No dia seguinte, foi a própria Maria Ramalho da Silva quem o levou ao posto da GNR da Aldeia Galega da Merceana, em Alenquer, onde aguardou pelos inspectores da Polícia Judiciária. Quando lá chegaram, de acordo com a informação disponível no processo, Guilherme Páscoa confessou a autoria do crime em Évora que já estava em todos os noticiários. Pediu para falar com o advogado, mas disse aos inspectores que, depois disso, talvez lhes entregasse os telemóveis e a roupa que levava vestida na altura e lhes dissesse onde tinha escondido o carro. Foi o que aconteceu.

As calças Levi’s 501 azuis estavam numa cadeira da Quinta de Santa Maria, o blusão castanho nas costas de uma cadeira e o pólo vermelho sobre uma mesa de arrumos. Os dois telemóveis que levou para Évora estavam na mesma casa. Já o automóvel Volvo estava guardado num armazém da Quinta dos Negros, na Aldeia Galega da Merceana.

No interrogatório judicial, recordou as desavenças familiares provocadas pela partilha da herança e garantiu que ao longo dos anos a irmã Ana tentou sempre controlar a família. Explicou que as irmãs nunca concordaram com a procuração passada pela mãe em seu nome e adiantou que, após a morte da avó e na fase em que Maria Guilhermina era a cabeça-de-casal, fez uma descoberta preocupante: antes de a avó morrer, foram levantados mais de 600 mil euros das suas contas bancárias. Esse dinheiro, disse, terá sido transferido para contas de Ana Bívar Prôa. Como prova, apresentou um cheque do Banco Espírito Santo, no valor de 125 mil euros, assinado por Maria de Lourdes Cabral Lynce, com data de 4 de Novembro de 2008.

Em Évora, depois da reunião no escritório da advogada, disse que andou pela cidade para tentar perceber o que estava a acontecer. Foi a casa da mãe, mas como ela não estava deslocou-se à residência da irmã. Ao chegar, viu Ana e Marta já perto do carro da primeira. Segundo contou à juíza de instrução criminal, as duas olharam para ele com um olhar cínico, apontaram o dedo e riram-se. Depois não se recorda de grande coisa. Apenas de o carro bater duas vezes em algo, de pessoas a gritar e de estar a conduzir em direcção a casa.

O advogado de defesa, Manuel Luís Ferreira, ainda alegou como atenuante os factos de Guilherme Páscoa estar a ter acompanhamento psiquiátrico, andar a tomar medicação, ter-se ido entregar voluntariamente e estar a prestar declarações para pedir a prisão domiciliária. O Tribunal não aceitou: o suspeito ficou em prisão preventiva no hospital-prisão de Caxias.

Contactado pela SÁBADO, Manuel Luís Ferreira considerou não ser a altura de prestar declarações sobre o assunto. Disse apenas que o seu cliente “continua  internado e medicado.” Acusado de um crime de homicídio qualificado e de outro de homicídio tentado, Guilherme Páscoa começa a ser julgado no Tribunal de Évora no dia 12 deste mês. António Prôa, além de ser uma testemunha fundamental, é também assistente no processo: pede para si e para os seus filhos uma indemnização cível superior a 550 mil euros.

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3 thoughts on “Ana Bívar: as novas revelações de um homicídio

  1. Pingback: Guilherme Páscoa condenado a 24 anos por matar a irmã | O Informador

  2. Esse assassino cobarde porco sujo mesmo dentro da prisão. Usa de prepotência arrogância autoritarismo calúnia difamação etc, para com os outros reclusos. Tem a mania que é muito importante E está mal visto perante grande parte da comunidade reclusa. Pois circula no meio prisional que o mesmo tem subornado guardas, reclusos. E direção ,para obter os seus interesses.

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