O milagre da multiplicação do primeiro “visto gold”

Ao longo dos anos vários amigos com quem trabalhei acabaram por assumir algum tipo de funções governamentais. Aos poucos, eles passaram a partilhar da opinião que muitas outras pessoas com quem me cruzei por motivos profissionais têm da classe jornalística. Para eles, os jornalistas – entre os quais me incluo – são, na maioria, uns tipos impreparados, preguiçosos, que raramente dominam as matérias que tratam e são, objectivamente, fáceis de enganar. Ao mesmo tempo, têm-se em demasiada boa conta. Infelizmente, e custa-me muito escrever isto, cada vez mais sou forçado a concordar com eles.

Recordo-me especialmente de uma história que há algum tempo me foi contada por um funcionário diplomático. Foi mais ou menos assim:

“Nuno, numa das primeiras vezes em que fui enviado numa comitiva governamental fiquei espantado com as coisas que se diziam aos jornalistas – e em que eles acreditavam. Estávamos no governo do António Guterres e fomos à Assembleia Geral da ONU. Devido a uma série de acontecimentos, quase toda a agenda que tínhamos planeada foi cancelada. Jantares, reuniões bilaterais, foi tudo ao ar. Tínhamos os jornalistas ali a perguntar como tinham corrido os encontros e eu sem nada para dizer. Os assessores de imprensa nem estavam preocupados. Foram ter com os jornalistas e começaram a contar-lhes como a viagem tinha sido um sucesso, descreveram conversas do primeiro-ministro que nunca ocorreram, refeições que não se realizaram, em suma, que  tudo tinha corrido de acordo com o planeado. Eu estava ali, siderado com o que estava a ouvir. Nem imaginava que aquelas coisas se faziam. E no outro dia foi isso que saiu nos jornais.”

Lembrei-me desta história a propósito de uma noticia publicada esta terça-feira no site do Expresso e também no Publico. De acordo com essas notícias, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, aproveitou a viagem à Índia para entregar ao empresário Nemasarimatan Muthu, o primeiro “visto gold” atribuído por Portugal. Ambos os jornalistas presenciaram a entrega. Paulo Portas falou sobre ela. O empresário também.

O que os jornalistas não sabiam é que esse mesmo visto já tinha sido entregue a 28 de Janeiro, numa cerimonia privada que decorreu no Palácio das Necessidades em Lisboa. A ocasião foi registada numa fotografia colocada no site do governo e noticiada na Sábado a 7 de Fevereiro. Paulo Portas sabia disso. O empresário, que veio a Lisboa de propósito, também. Mas isso não os impediu de encenar uma entrega que já tinha sido feita. Dessa forma enganaram os jornalistas que acompanharam a visita – e ganharam mais algum espaço na imprensa. Fácil, não é? Artur Baptista da Silva não é o único a manipular a imprensa. Há muitos outros por aí. E profissionais. 

MNE.Vistos Gold.458

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