Jornais, sítios que mostram o país que não cabe na TV

E é isto. Pelo Henrique Raposo, que não é jornalista, ontem, no site do Expresso. Sem nada a acrescentar.

“Esta é uma coluna escrita por um leitor compulsivo de jornais e revistas, isto é, esta é uma carta de amor e, como todas as cartas de amor, começa com uma queixinha: já li centos de opiniões sobre a crise dos diários em Portugal, mas nenhuma tocou na ausência dramática de estórias. Sim, estóriasaquelas narrativas com gente concreta, peças que partem do particular para o geral, peças que a partir de um bairro, vila, cidade, família ou indíviduo traçam um retrato literário de Portugal muito mais poderoso do que grandes análises feitas a partir de cima . Por outras palavras, não se tem falado da morte do espírito de reportagem. E qual é o efeito prático deste desprezo pela reportagem? Os diários que se dizem sérios não têm nada de surpreendente. Confundem seriedade com previsibilidade. Antes de abrir o jornal, um sujeito já sabe o que lá está: as intrigas palacianas do dia anterior, conseguidas com o rabinho sentado na redacção através de telefonemas para as fontes situadas nos partidos, Ministério Público, etc. Pior: às 9h, estas intrigas já não levam ninguém a comprar jornais, porque já apareceram nas TVs e rádios.

Dou um exemplo relacionado com educação. Qual é peça típica do diário de referência? O jornalista liga para o ministério, liga para a Fenprof e, pronto, peça feita com declarações em on ou off; desta forma, o jornalista não passa de um altifalante das declarações dos chefões do sistema. Especificando ainda mais o exemplo: qual é a melhor abordagem à questão do ranking das escolas? Um apanhado global da coisa – que qualquer pessoa com olhos pode fazer – ou uma reportagem com escolas concretas? A segunda opção é a mais interessante, mas um estranho culto da seriedade afastou os diários de referência do espírito narrativo. E convém perceber que esta é a causa da fraca pulsação destes jornais mui sérios. Parecem meros instrumentos de análise discursiva dos políticos e demais agentes do sistema. Andam num diz-que-se-diz eterno e oco, e acabam por reduzir Portugal ao espaço entre o parlamento e as redacções. São ecos das TVs.

É por isso que compro o Jornal de Notícias duas ou três vezes por semana. É um jornal com estórias. Podiam ser melhores? Podiam. A escrita podia ser melhor? Podia. Mas elas, as estórias, estão lá, e mostram o lado solar e o lado lunar do país real. A série sobre os pequenos clubes (“Dia do Clube”) mostra a simpatia nortenha através do buraco da fechadura do futebol. estória do homem que ninguém queria enterrar diz mais sobre a solidão urbana do que centenas de análises de sociólogos e afins . O Jornal de Notícias está longe de ser perfeito, não é o meu jornal, mas eu sei que aquelas páginas têm sempre qualquer coisa de surpreendente. Nos diários de referência, ao invés, ninguém parece muito interessado em deixar-se surpreender pela realidade. E esta espécie de snobeira está na base do suicídio dos diários de referência. O espírito da estória é a única coisa que pode distinguir um jornal da internet gratuita. Análises imediatas e imediatistas a relatórios oficiais? Aparecem logo nos blogues. Análises a discursos políticos? Aparecem logo na TV e rádio. Mas os jornais são os únicos com a capacidade e o tempo para mostrar o país que não cabe na TV, o país que vai além dos relatórios e das declarações do costume. Dêem-nos estórias, pá.”

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