Político-comentador: uma espécie lusitana

Faltam poucas horas para a entrevista de José Sócrates à RTP. Em si, a entrevista é um grande furo jornalístico. Pela primeira vez, o ex-primeiro-ministro, que nos últimos dois anos tem sido acusado de ser o responsável pela situação a que chegou o país, dispõe-se a falar e a defender os seus governos. Presume-se que irá dizer que o PEC IV era suficiente, que o país não necessitava de ir mais além do que a troika, que foi a austeridade excessiva que levou à escalada do desemprego, que Passos Coelho mentiu ao país quando provocou a queda do seu governo e durante a campanha eleitoral, que Cavaco Silva conspirou contra o seu governo e por aí fora. Ainda assim, é uma entrevista que todos os órgãos de comunicação gostavam de conseguir. Ponto.

O problema é que José Sócrates devia ficar por aí. A atribuição de uma tribuna semanal a um ex-primeiro ministro, que a poderá usar como tempo de antena pessoal e partidário, é uma bizarria portuguesa. Tal como o são a criação de programas semelhantes para Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes, Jorge Coelho, Francisco Louçã, Nuno Morais Sarmento e por aí fora. Tal como é o espaço concedido regularmente a deputados e representantes partidários nos jornais portugueses. Não se trata de impedir alguém de dar a sua opinião. Não. Em países civilizados, os políticos são regularmente entrevistados ou convidados a escrever colunas de opinião ocasionais. Nada mais. Serem-lhes atribuídos espaços regulares que são autenticos tempos de antena partidários ou pessoais, conforme os casos, é um desperdício de tempo e de espaço: raramente as suas opiniões surpreendem ou esclarecem. Pelo contrário. Estão claramente inquinadas à partida.

Esta é uma característica portuguesa que os correspondentes e os embaixadores estrangeiros têm grande dificuldade em compreender. Tal como a necessidade artificial de dar espaço à pluralidade de opiniões partidárias que nos levam a, sempre que, por exemplo, o Presidente da República fala, ouvir a reacção de todos os partidos com assento parlamentar que, em fila, aguardam pelo directo nos Passos Perdidos da Assembléia da República. Não faz sentido. E não interessa para nada. Mais uma vez, é tempo de antena. Gratuíto.

Agora, a entrevista de José Sócrates à RTP é um grande furo – que vai dar aos milhares de políticos-comentadores que por aí andam tema para milhares de comentários-políticos durante a próxima semana.

socas

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