Sim, aconteceu. Agora é hora de nos levantarmos

Não. Isto não está a acontecer. Estávamos destinados à glória. Chegámos a Amesterdão para assumir o papel de David contra o Golias dos milhões russos, campeão europeu em título. E ao contrário do que se esperava, parecia que estávamos a jogar em casa. Desde o primeiro momento que aquela onda vermelha prenunciava algo de bom. Algo de histórico. Tinha sido uma caminhada imaculada. Sim, é verdade, os franceses do Bordéus não representaram grande desafio. Mas nesse percurso tínhamos feito história e ganho na Alemanha ao Leverkussen. Demos uma lição aos ingleses do Newcastle. E frente ao Fenerbahçe mostrámos todo o poder do nosso futebol. O rolo compressor que nos últimos anos ganhou corpo no Estádio da Luz atingiu o máximo expoente contra os turcos nos golos de Gaitán e Cardozo. Ontem parecia que estávamos de volta a esse jogo. Fomos dominadores. Autoritários. Encostámos os azuis às cordas. As bolas divididas eram nossas. Os sprints eram ganhos com surpreendente facilidade. Os dribles saiam a uma velocidade tal que alguns ingleses ainda devem estar à procura dos rapazes de vermelho. Sim, a certa altura parecia que os papéis se tinham invertido. Que nós éramos o Golias e os outros o David. Só faltava o toque final. Aquele que nos permitiu marcar 74 golos em 29 jogos no campeonato. Sim, 74. Por várias vezes esse toque esteve ao nosso alcance. Nos pés do Sálvio. Do Rodrigo. Do Gaitán. Do Cardozo. Da armada sul-americana que apoiada por um tanque sérvio destruiu um conjunto de porta-aviões construído com petrodólares de uma província russa. Nas bancadas, as caras dos adeptos vestidos de azul reflectiam o que se passava em campo. Ao mesmo tempo, as vozes portuguesas entoavam cânticos tantas vezes ouvidos em Portugal que davam asas aos nossos jogadores. Mesmo quando sofremos o primeiro golo parecia que o jogo era nosso. O empate estava destinado a ser apenas o primeiro passo rumo a um destino manifesto. Quando aconteceu, foi com naturalidade. Era uma questão de minutos. Em breve estaríamos a rir-nos na cara da maldição do húngaro. Até que uma queda sem bola atirou ao fundo um dos nossos pilares. E nós abanámos. As lágrimas do Garay sentado junto à linha lateral por sentir que não poderia continuar em campo diziam tudo. Ainda assim, continuámos por cima. Estávamos a preparar-nos para o prolongamento quando aquele golo nos gelou da cabeça aos pés. O ritmo acelerado a que o coração tinha batido na última hora e meia abrandou para um estado de quase suspensão  O último lance quase nos reanimou. Só que não havia mais tempo. O apito final do árbitro soltou as lágrimas que nunca esperámos derramar. De derrota. Tristeza. Injustiça. Caímos. De pé, mas caímos. É verdade. Isto está mesmo a acontecer. Agora, é hora de nos voltarmos a levantar.

Francois Lenoir/Reuters

Francois Lenoir/Reuters

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