O Diário de Notícias precisa de um novo provedor. Já

O provedor do leitor é uma figura importante num jornal. Talvez, por vezes, seja desvalorizado pelos próprios jornalistas que os tendem a ver, dependendo dos casos, como uma espécie de dinossauros há muito afastados da realidade e do dia-a-dia de uma redacção. Não importa. Não é para eles que o provedor existe. É para os leitores. É essa a sua função: defender o interesse dos leitores, responder às suas críticas e zelar pelos seus interesses, de uma forma independente da redacção e da direcção do jornal para o qual trabalha. Criada nos Estados Unidos, na década de 1960, a função tem origem numa tradição sueca, o Ombudsman também conhecido como o defensor do cuidadão.

No Diário de Notícias, lugar é ocupado por Óscar Mascarenhas. Desde que chegou o cargo, o veterano jornalista tem-se dedicado a analisar, como manda a sua função, as queixas dos leitores e os trabalhos dos jornalistas. É autor, entre outros, de artigos com os títulos “Estereótipos e grosserias não honram o conceito de liberdade de expressão” e “DN ultrapassou todos os limites da contenção verbal”, apesar de ele próprio abusar da linguagem grosseira e pouco contida. No entanto, nada que pudesse preparar um leitor para o que se passou no passado sábado.

Confesso que só li o texto ontem, movido pela curiosidade que inúmeros comentários me causaram. E confesso também que fiquei sem saber o que dizer. O título prometia: “Poiares Maduro e Lomba são tão-somente o fascismo a bater-nos ao de leve à porta”. E começava com uma afirmação: “Aldrabões”. Um bocado demasiado para um provedor do leitor? Pelos vistos Óscar Mascarenhas acha que não. Ao longo de uma interminável página, o veterano jornalista ataca dois membros do governo com uma carrada de insultos e grosserias que não roçam a boçalidade. Ultrapassam-na. E muito. Eis alguns exemplos:

“E vou mais longe: nos poucos dias em que estes governantes exerceram o poder, o fascismo deu um passo em frente. Nem lhes vou dizer que limpem as mãos à parede, porque podem espalhar a peste, a cólera e a tinha. Lavem-nas, com sabão azul e branco e, de caminho – vão ao banho!

Caro leitor: custou muito chegar à liberdade de imprensa e ainda mais firmar em lei os valores civilizacionais que não deixassem que certos produtos nascidos de uma faísca de ferradura de um cavalo da guarda a raspar no basalto de uma viela os pudessem alterar a seu bel-prazer.

(…)

Venham os Poiares Pedros ou os Lombas Maduros que vierem, jornalista do DN que se acobarde perante este fascismo com pés de lã, pode ter a certeza, à fé de quem sou, que fica com o nome num pelourinho de cobardolas que prometo expor aos leitores. Porque é dos direitos dos leitores que estamos a falar. Enquanto estiver nesta casa e nela tiver voz, o fascismo não entra de esguelha.

(…)

Já não há a Europa da liberdade: somos governados por filhos de Putin.

Inúmeros filhos de Putin.

Cabazes de filhos de Putin.

Em Portugal, os devotos de Putin, discípulos de Miguel Relvas, condiscípulos de Agostinho Branquinho e quejandos chamam-se, entre outros, Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba, lamentáveis expoentes de um passado que parecia inconformista e rebelde, transformados num estalar de dedos em esbirros da política da mordaça, assim que os convidaram a sentar-se num mocho cambaio a metro e meio da mesa do orçamento com direito a côdea bolorenta.

A certa altura achei que podia estar a ler o Jornal de Angola. Pelo tom. Pelo mau gosto. Pela falta de educação. Pela falta de respeito. Pela falta de nível. Pela falta de tudo e mais alguma coisa. Talvez Óscar Mascarenhas tenha tido uma recaída momentânea. Uma insanidade temporária. Talvez não se recorde do que ele próprio já escreveu num dos textos que cito no início deste post: 

“Escrever é, no mínimo, pensar três vezes: antes de escrever, quando se escreve e ao rever. Não acredito que um intelectual que pense três vezes possa transformar uma anedota chocarreira em artigo de opinião. Presumo que terá sido atingido pela petulância do “para quem é, bacalhau basta” – e sai pichelim de pataco.

Em tempo: como todos os meus artigos, desde que me conheço como jornalista, são lidos por várias pessoas dotadas de impiedoso sentido crítico antes de publicar, posso afirmar que são pensados mais do que três vezes. Por isso, o presente vai expurgado de qualquer alusão brejeira – tão à mão de semear – sobre as certezas do autor e do diretor que autorizou a publicação quanto à exatidão da… metáfora.”

Espero bem que Óscar Mascarenhas não tenha pensado três vezes. E que não tenha mostrado este texto  a várias pessoas de apurado sentido crítico. Isso diria muito sobre os autor e seus conselheiros. Também tenho curiosidade em saber o que pensa a direcção do DN deste texto que não se enquadra em lado nenhum do Estatuto do Provedor do Leitor. Resta ainda esclarecer uma questão: a quem os leitores do DN se podem queixar para se queixar do provedor?

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4 thoughts on “O Diário de Notícias precisa de um novo provedor. Já

  1. Isto ‘e a prova que qualquer pessoa pode ser provedor do leitor. ‘E realmente hilariante como ‘e que textos como estes (eu nao qualifico isto como um artigo de jornal) sao impressos. Isto e basicamente um rant mal escrito, sem qualquer tipo de conteudo factual e so prova que o DN ‘e um jornal que esta a lutar pela sobrevivencia e sinceramente se continuam a apostar nestas estrategias populistas na minha opiniao merecem deixar de existir.

  2. Pingback: O Diário de Notícias precisa de um novo provedor. Há bastante tempo | O Informador

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