O fim do socialismo de rosto humano

Há exactamente 45 anos o exército soviético entrava na Checoslováquia para pôr fim à Primavera de Praga. A chamada “Operação Danúbio” foi a maior movimentação militar desde o fim da II Guerra Mundial: envolveu 27 divisões, cerca de 300 mil homens, que esmagaram facilmente o projecto de socialismo de rosto humano corporizado por Alexander Dubcek.

Fotografia: Reuters/Libor Hajsky

Fotografia: Reuters/Libor Hajsky

O domínio soviético estendeu-se até à queda do muro de Berlim. Na época, viviam em Praga vários portugueses. Os acontecimentos foram vividos intensamente. O historiador Flausino Torres escreveu um relato desses dias no seu diário, publicado anos mais tarde sob o título de “A Batalha e Praga”.  Meses depois a decisão do Partido Comunista Português em apoiar a intervenção soviética provocou uma enorme discussão entre a comunidade portuguesa residente na capital checoslovaca. Seis destes exilados assinaram uma carta em que se declaravam ao lado da justiça e contra a opressão:

QUERIDOS CAMARADAS

Em virtude de não termos podido obter qualquer informação sobre a posição do Partido Comunista Português no que respeita à trágica ocupação militar da Checoslováquia pelo exército das Repúblicas Populares da Alemanha Democrática, Bulgária, Hungria, Polónia e URSS, nós, Portugueses, exilados políticos, residentes na República Socialista da Checoslováquia, queremos declarar-vos:

– Toda a nossa solidariedade com o Partido Comunista da Checoslováquia, com o seu povo, assim como com os seus órgãos representativos democraticamente eleitos;

– Esperamos que esta ocupação militar termine o mais cedo possível, no interesse do movimento comunista internaciona1;

– Pensamos que esta nossa opinião, de completo desacordo com um erro político dramático, não dê aso a confusões com qualquer acto de anti-socialismo, pois nunca esquecemos as acções do Povo Soviético em prol da libertação dos outros povos, em 1945, da coexistência pacífica, do socialismo

e do progresso;

– Reafirmamos nesta nossa declaração as posições por nós assumidas nos primeiros dias da invasão – documentos entregues às Embaixadas dos países ocupantes, assim como aos dirigentes legais do Partido Comunista e do Povo Checoslovaco. Os dias decorridos entre o 1.º documento e este mais cimentaram as nossas opiniões acerca da injustiça dum tal acto que só ajudou as forças capitalietas e a reacção internacional;

– Expressamente, saudamos a calma, a dignidade, a inteligência, do Povo Checoslovaco e dos seus Dirigentes, desejando o completo restabelecimento do processo de democratização e o desenvolvimento do socialismo na liberdade – que tantas esperanças estava dando aqueles que, tanto nos países socialistas como no mundo capitalista, lutam por um socialismo humano e renovador.

Praga, 16 de Setembro de 1968

Apêndice

l.º Tomámos, apenas nesta noite de 17 de Setembro, conhecimento da decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português e não nos solidarizamos com ela;

2′ . Com a responsabilidade de militantes que demos todos os nossos esforços à luta contra o fascismo português, queremos declarar expressamente que consideramos esta resolução – comprometendo somente o Secretariado do Partido Comunista Português – como renegando e traindo toda a Linha do Partido Comunista Português, aprovada nos seus Congressos, não só no que respeita à política nacional, mas também à política de Paz, de Fraternidade Socialista, de Coexistência Pacífica, no que concerne ao Movimento Comunista Internacional.”

No auge da polémica entre os portugueses, já em Novembro, o historiador Flausino Torres acabou mesmo por pedir a suspensão de Álvaro Cunhal – que nunca aconteceu. O PCP manteve-se ao lado da URSS, que era a sua principal fonte de financiamento.

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