Era uma terça-feira. Dia de fecho da revista. Tinha acabado um dos textos que escrevi para a edição dessa semana quando o telefone tocou. Era de casa. Estranhei. A Isabel não me costumava ligar àquela hora. Atendi:
– Estou?
– Olá.
– Está tudo bem?
– Estás a fazer alguma coisa importante?
– Tens que ir para a maternidade?
– Pois… rebentaram-me as águas.
– Vou já sair.
Em poucos segundos enviei o texto para o editor e preparei-me mentalmente para o que estava a acontecer. Na véspera tínhamos ido ao hospital e ficara decidido que, se não acontecesse nada, a Mariana ia nascer daí a dois dias, na quinta-feira. Levantei-me, agarrei nas poucas coisas que tinha, disse para o lado que ia sair e larguei-me a correr pelas escadas abaixo.
Estava num sexto andar. Nem me lembrei do elevador. Tal como não pensei em apanhar um táxi. Saí disparado do edifício que ficava na Av. Conde Valbom e comecei a correr em direcção à Avenida da República. Não sei o que me passou pela cabeça para ter este momento “Forrest Gump”. Nem sequer gosto muito de correr. Pelo contrário. Odeio correr. Só sabia que tinha de chegar a casa depressa. E naquele momento isso significava, simplesmente, correr.
Só quase a meio do caminho, quando já estava a suar em bica, e sem fôlego para continuar é que me caiu a ficha. “Mas que raio estás a fazer pá? Tens a mulher em casa à espera de ter uma criança e desataste a correr? Porque não chamaste um táxi? Ou foste de metro? Por este andar nem sequer consegues carregar a mala quando lá chegares”.
Bom, mas naquela altura era tarde demais. Mais um esforço e nova paragem. E outra. E outra. Numa delas aproveitei para ligar para a redacção a explicar porque tinha saído. Resultado: quando cheguei a casa parecia que tinha corrido a maratona. Ou tido uma criança. O esforço deve ser equivalente. A Isabel abriu-me a porta e ficou a olhar para mim sem saber o que dizer. Até que soltou um “o que aconteceu?” Com esforço lá soltei um “vim a correr, estás bem?”
Ela nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Na verdade nem eu. “Vieste a correr? O que te passou pela cabeça? Tem calma que está tudo bem.” Lá sorri. Até me considero um tipo calmo, que não tem crises de stress. Mas ali, os papéis estavam invertidos. Por qualquer mistério da natureza humana, ela, a mãe, prestes a passar por uma experiência absolutamente nova e potencialmente assustadora, estava ali, maquilhada, “zen”, a dar-me toalhas para eu limpar o suor. E eu, o pai, que devia estar tranquilo e tinha dito a mim mesmo que era preciso manter a calma quando chegasse a hora, não conseguia parar de escorrer.
Foi assim que fomos para o hospital. Com ela a passar-me pequenas toalhas para esfregar o pescoço (enquanto eu tentava conduzir e respirar ao mesmo tempo) e a perguntar-me se EU estava bem. E foi nessa linda figura que lá chegámos: um tipo com uma enorme mancha de suor na camisa e uma mulher grávida perfeitamente tranquila. Não sei o que dá às mulheres. O instinto maternal que as leva a proteger as crias durante a vida também lhes deve injectar uma dose de calmante natural na altura do nascimento. Não será por acaso que é o que acontece nos filmes: os homens a deixarem cair a mala, nervosíssimos, quando são elas que vão ter de passar por tudo. Da minha parte pensava que era um cliché. E que, macho, não ia passar por isso. Enganei-me. Foi naquela terça-feira. Faz hoje dois anos. O dia é da Mariana. Mas este texto é para ti, Isabel.

Uma linda declaração de amor. Parabéns à Mariana, e aos pais
Obrigado, amigo. Abraço