Tudo o que precisam de saber sobre… a crise com a Guiné Bissau

O ministro de Estado e da Presidência da Guiné-Bissau, Fernando Vaz, disse, em Lisboa, que não percebe o alarido criado à volta do incidente provocado pelo embarque forçado de 74 cidadãos sírios num avião da TAP, em Bissau. Fernando Vaz classificou a reacção de Cavaco Silva de “infantil”, as declarações de Rui Machete de “infelizes” e o próprio incidente de “comercial” que não coloca em causa a segurança no aeroporto de Bissau. O também porta-voz do governo de transição guineense foi mais longe e responsabilizou a própria TAP pelo ocorrido, ao mesmo tempo que rejeitava eventuais responsabilidades do executivo de que faz parte. Bom, isto é o que precisam de saber sobre a crise entre os dois países.

  • A 12 de Abril de 2012, na véspera do início da campanha para a segunda volta das eleições presidenciais, um grupo de militares liderados por António Indjai tomou a rádio nacional, a televisão estatal e a sede do PAIGC. A residência do primeiro-ministro e candidato presidencial, Carlos Gomes Júnior, foi atacada. O exército guineense justificou o golpe como uma forma de impedir um alegado acordo secreto entre a Guiné-Bissau e Angola, que há um ano tinha forças militares no país ao abrigo da MISSANG, uma missão militar com o apoio da ONU.
  • Carlos Gomes Júnior e o presidente interino, Raimundo Pereira, foram detidos. O jornalista António Aly Silva, que relatou o golpe em primeira mão, ameaçado e obrigado a fugir do país. O golpe militar foi condenado internacionalmente e as motivações dos seus autores relacionadas com as redes de narcotráfico que dominam o país. Se houvesse dúvidas, elas desapareceram quando o departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou António Indjai de tráfico de armas e de cocaína.
  • Para além de condenar o golpe de Estado, Portugal começou por activar uma Força de Reacção Rápida que foi enviada para Cabo Verde para o caso de ser necessário evacuar os portugueses residentes na Guiné-Bissau. Mais tarde, o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, decidiu não nomear um novo embaixador para Bissau. A representação portuguesa passou a estar assegurada por um encarregado de negócios, situação que até hoje se mantém. Para além disso, o governo acolheu em Portugal o primeiro-ministro deposto, Carlos Gomes Júnior e o presidente interino Raimundo Pereira. Resultado: quase dois anos depois, o governo de transição que saiu de um acordo entre militares, partidos políticos e a CEDEAU nunca foi reconhecido por Lisboa. 
  • Ainda no ano passado, em Outubro, houve um novo incidente entre os dois países. O governo de transição acusou Portugal de estar por detrás de uma alegada tentativa de golpe de Estado levado a cabo pelo capitão Pansau N’Tchama. Quando foi detido, o militar foi mesmo envolvido numa bandeira portuguesa. Sucederam-se outros: a proibição de entrada no país de elementos do Grupo de Operações Especiais da PSP que iam render os colegas que protegem a embaixada portuguesa e o atraso na colocação em Bissau de um novo Oficial de Ligação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
  • Para além do tráfico de droga, a Guiné-Bissau tem sido relacionada com várias componentes do crime organizado internacional: tráfico de armas, pessoas e até de financiamento de movimentos terroristas.
  • No passado dia 10 de Dezembro, 74 cidadãos sírios com passaportes de serviço turcos falsificados quiseram embarcar num voo da TAP, em Bissau. A falsificação foi detectada e os passageiros impedidos de entrar no avião. No entanto, acabaram todos por subir a bordo do aparelho. Não houve ameaças de armas. Bastou um telefonema do ministro do interior, António Suka Ntchama, um elemento muito próximo de António Indai a exigir o embarque.
  • O oficial de ligação do SEF foi chamado ao aeroporto mas não pôde fazer nada para impedir o embarque. Aliás, há muito que o representante do SEF não está autorizado a colaborar com a TAP no controlo dos passageiros no aeroporto internacional Osvaldo Vieira. A certa altura, as autoridades portuguesas colocaram um elemento a fazer o controlo a bordo dos aviões. Quando o estratagema foi descoberto, foi proibido pelas autoridades guineenses.
  • Os 74 sírios chegaram a Bissau vindos de Marrocos. Alguns elementos do grupo já tinham antes tentado entrar na Europa através das ilhas Canárias mas foram detectados e enviados para trás. Cada um deles terá pago pela viagem, apenas em Bissau, cerca de cinco mil euros. 
  • Esta não foi a primeira vez que refugiados sírios chegaram a Lisboa através de Bissau. No entanto, o governo português considerou o embarque forçado uma grave quebra de segurança inaceitável e a TAP acabou por suspender a ligação com Bissau até serem dadas todas as garantias de que a situação não se voltaria a repetir.
  • O voo da TAP entre Bissau e Lisboa era a única ligação entre a Guiné Bissau e a Europa. Por isso, era considerado de alto risco. Há muito que os elementos do SEF controlavam com uma atenção particular as chegadas à Portela. Ali têm sido apanhadas inúmeras pessoas indocumentadas que chegam a Lisboa através de redes de tráfico internacional de seres humanos e, mais frequentemente, de droga. O caso mais recente ocorreu a 25 de Dezembro: três guineenses foram detidos quando chegaram a Lisboa, vindos do Brasil, com mais de 20kg de cocaína.
  • Temos, portanto, um elemento do governo com ligações ao chefe militar guineense, que é procurado por tráfico de droga e de armas, a obrigar a tripulação da TAP a transportar 74 sírios que pagaram em Bissau cerca de cinco mil euros cada um para embarcar para Lisboa.
  • Ou seja, isto é tudo excepto um “incidente comercial”, como foi classificado pelo ministro de Estado e da Presidência da Guiné-Bissau, Fernando Vaz. É um acto criminoso com a participação das mais altas esferas guineenses. Que não pode passar impune – por mais incómodos que cause aos cidadãos voavam regularmente entre Bissau e Lisboa.
  • Detalhe adicional: esta não é a primeira vez que Fernando Vaz ataca – e ofende – o governo português. Ainda assim, mantém o visto de entrada em Portugal que lhe foi concedido graças ao facto de ser casado com uma portuguesa residente na região de Lisboa. Para já, só a autorização de residência foi cancelada.
Foto: Lusa

Foto: Lusa

 

8 thoughts on “Tudo o que precisam de saber sobre… a crise com a Guiné Bissau

    • Da TAP, não sei.
      Sim, houve mais embarques de refugiados sírios vindos de Bissau. Foram detectados em Lisboa. A diferença é que nessas ocasiões não houve uma ordem do governo guineense a impor o embarque

      • De uns meses para cá, os Agentes da Direcção de Emigração e Fronteiras (DEF) da República de Cabo Verde tem vindo a fazer detenções de muitos cidadãos de nacionalidades sírias que embarcam via Marrocos para Cabo Verde para depois tentarem ir a Guiné-Bissau, com objectivo do destino final a Europa. Ora, o governo caboverdeano tem estado a deter estes infractores e a mandá-los de volta ao país de onde saíram ou usaram como via de saída. Noutros casos mais sensíveis o Governo de Cabo Verde tem dado asilo e a estes cidadãos refugiados. Porém, a segurança aeroportuária foi reforçada, a vigilância da fronteira aumentou, o controle é mais cerrado nas entradas no país via aeroportos e portos e o espaço marítimo tem vindo a ser vigiado com mais meios e forças, o que faz a Guarda Costeira, a Policia Marítima e a DEF gastarem mais verbas do que o orçado no início do plano das actividades.

  1. Olha,o governo portugues de prender este bandido,armando-se de ministro o gazo e um autentico bandido,por ter insultado um homem respeitado,ele pode ser preso e metido nos calabuses,sem olhar para tras.

  2. Se não fossem declarações ridículas até era divertido ouvir este tipo falar… Justificar o que foi feito só pode acontecer num governo de gente no mínimo pouco seria, bolas lá estou eu outra vez a ser educado e a proceder como se falasse para e sobre gente de um estado de direito.

    • Realmente, o senhor está sendo muito educado para com esta gente. E eles não entendem essa tua linguagem. Eles se comunicam em linguagem dos “bárbaros”, ou pior e não entendem as ideias e palavras de gente decente, honesto, humilde, batalhador, ético, profissional e patriota. Os dirigentes guineenses, na sua maioria, somente estão interessados em ganhar muito dinheiro, tirar o máximo de vantagens da desordem e impunidade para facturarem mais e estão “nem aí” para o desenvolvimento do país ou para o sofrimento que trazem ao povo conterrâneo. O Golpe de Estado foi orquestrado para superar outro golpe que já havia sido projectado por outros barões da droga e do tráfico de seres humanos. Esses, de nacionalidade angolana, eram os que realmente queriam fazer da Guiné Bissau, a maior plataforma internacional do crime de lavagem de dinheiro, trafico de droga, trafico de órgãos e seres humanos, etc, daí o motivo por terem ordenado o transporte de tanques de guerra e navios armadas a GB. Tal projecto foi detectado pelo astuto António Indjai que deu o golpe, mas não abdicou do projecto. Portanto, resumindo e concluindo, a GB está condenada e amaldiçoada e se não aparecer um guineense justo e patrota que o salve ninguém mais o salvará.

  3. A Guiné-Bissau é uma sólida e pujante democracia.
    Um Estado de direito, multipartidário, e com altos graus de respeito pelos valores humanos.
    À Guiné-Bissau os Portugueses devem o 25 Abril, a democracia e a liberdade.
    Foi na GB que germinou a grande epopeia, a gesta, do MFA.
    Merece, da parte dos Portugueses, mais respeito.

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