Mensagem de ano novo

Há cerca de uma semana andava pelo Chiado quando me cruzei com uma senhora que vinha a descer a rua no mesmo lado do passeio. Não sei dizer ao certo a sua idade. Tinha mais de 60 anos. Provavelmente menos de 70. Vestia-se impecavelmente: saia e camisola de malha, tapada quase na totalidade por um casaco de fazenda cinzento. Trazia na mão esquerda uma mala preta. O cabelo, grisalho, apanhado num carrapito. Podia ser apenas mais uma avó que ali tinha ido para trocar os presentes de Natal. Mas não era. Ao aproximar-se não seguiu o seu caminho rumo a uma qualquer loja. Parou e perguntou-me se teria 50 cêntimos que a ajudassem a pagar a conta do gás. Fê-lo com o sorriso envergonhado de quem não está habituada a pedir. De quem nunca precisou de o fazer.

Não tinha nada para lhe dar. Pedi desculpa. E fiquei tão atordoado com o que acabara de acontecer que não tive discernimento para mais nada. Nem para lhe oferecer qualquer outra coisa. Ou fazer alguma pergunta. Ela limitou-se a sorrir. Agradeceu a atenção e desejou-me felicidades. Sorte. E continuou a descer a rua. Desde então que aquela mão estendida a pedir 50 cêntimos para o gás não me sai da cabeça. Claro que não foi a primeira vez que me pediram dinheiro. Nem será a ultima. Só que por mais vezes que isso aconteça ou por mais reportagens que se leiam ou façam sobre a crise e sobre o aumento da pobreza, aquele sorriso envergonhado, aquela mão que tremia já não pertence aos outros. Pode estar em nossa casa. Na nossa família. Entre os nossos amigos. Ao nosso lado. É minha. É nossa.

É por isso que 2014 é um ano fundamental. Este tem de ser o ano em que dizemos basta. Em que contrariamos o discurso instalado da falta de alternativa. De que o caminho do empobrecimento forçado é o único possível. Não é. Não pode ser. Tem de haver uma alternativa. Um caminho diferente daquele que leva aos cortes cegos que atingem sempre os mais fracos. Os mais frágeis. Aqueles que mais precisam da solidariedade e do apoio da sociedade. Um caminho diferente do da mentira. Daquele que se serve da manipulação dos números e que adapta as palavras e os ideais às necessidades do momento. Que se baseia na intriga e cuja prioridade é a a sobrevivência pessoal em vez da luta pelo bem comum.

Um caminho diferente. Melhor. Sim, o país está a cumprir um programa de ajustamento cujo principio fundamental é obrigar-nos a fazer reformas essenciais à sobrevivência do próprio Estado que não conseguimos fazer sozinhos. Mas isso não pode servir de desculpa para os mais básicos e selvagens atropelos aos direitos dos cidadãos. Aqueles que trabalham todos os meses em troca de um rendimento cada vez menor fruto de sucessivos aumentos de impostos ou da criação de taxas extraordinárias tornadas cada vez mais permanentes. Ou daqueles que trabalharam uma vida inteira e fizeram os devidos descontos para agora verem o contrato de solidariedade que assinaram ser rasgado unilateralmente sem possibilidade de discussão.

Este tem de ser o ano em que dizemos basta. Em que paramos de nos indignar no café. Em que nos revoltamos contra estratagemas como o pagamento dos subsídios de férias e Natal em duodécimos que servem apenas para esconder aumentos brutais de impostos que atingem até aqueles que recebem pensões que não chegam sequer à metade de um salário mínimo. Aumentos que são disfarçados com palavras e expressões como “minimizar o impacto” ou “recalibrar a contribuição especial”.

Não. Este tem que ser o ano em que nos insurgimos contra este caminho que já tem longos anos. Governos sucessivos acenaram-nos com a inevitabilidade das soluções que apresentavam. Garantiam que não havia alternativa à austeridade. Aos cortes. À redução do défice. Mas a verdade é que apesar dos sacrifícios que foram impostos o défice nunca foi reduzido. As reformas não foram feitas. E a dívida não parou de aumentar.

Este tem de ser o ano em que este caminho chega ao fim. O ano em que a comunicação social assuma na plenitude o papel que lhe está reservado de vigilante dos poderes instituídos. Sem pretensões justiceiras ou intenções persecutórias. O ano em que os jornais, revistas, rádios e televisões deixem apenas de reproduzir discursos, as reacções a esses discursos e as reacções às reacções a esses discursos. O ano em que o jornalismo deixe apenas de servir como veículo de transmissão de opiniões de poucos. O ano em que os jornalistas deixem de relatar os factos de forma acrítica e passem a relacioná-los e a interpretá-los de forma correcta em benefício de muitos. O ano em que os órgãos de comunicação voltem a confrontar os poderes instituídos de forma permanente e não se conformem com uma resposta silenciosa cujo único objectivo é deixar a maré passar até surgir uma nova polémica. O ano em que os meios de comunicação social, sem receio de pressões, voltem a ter auto-estima suficiente e passem a ser respeitados por aqueles sobre quem escrevem. Sempre de acordo com as regras legais e deontológicas que regem a profissão.

Se isso acontecer, todos estarão melhor preparados para responder ao rolo compressor que nos tem passado por cima. Uma sociedade informada é uma sociedade mais exigente. Com os mais próximos e com quem nos dirige. Uma sociedade informada é uma sociedade mais democrática. Mais justa. Mais igualitária. Uma sociedade a quem a história da senhora que descia a rua no Chiado não é indiferente. Porque a história dela pode não ser diferente da minha. Da de todos nós.

Bom dia, bom Ano Novo e boa sorte. Vamos precisar.

Wordle: Mensagem de ano novo

One thought on “Mensagem de ano novo

  1. Deus o ouça. Ao ler certos comentarios a “noticias” de alguns pasquins tenho dúvidas de que muitos cidadãos gostem que lhe sirvam noticias imparciais. O odio que destilam quando a informação não é da cor que gostam faz-me duvidar que a verdade seja tão importante como eu acho que é. A vitoria do Rio contra o porco assado deixou-me com a convicçaõ que é possivel dar a volta mas com um projecto com pés e cabeça e que dê confiança tambem pela projecção em pessoas sólidas e atraentes.Um papa franscisco com carisma é que era preciso e que juntasse os que querem abandonar os subamrinos que nos têm arruinado.

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