Eu e o King. Porque todos temos uma história com os nossos heróis

Olá King,

Foda-se. Morreste. Não posso dizer que tenha sido uma surpresa. Mas mesmo assim: foda-se. Morreste. Ontem de manhã, quando soube da notícia, fiquei sem reacção. Como muitos, fui seguindo o desfile de personalidades e declarações que surgiam em catadupa nas televisões. Umas atrás das outras. Todos pareciam ter alguma coisa a dizer. Uma história para contar. Como li hoje escrito por aí, é isso que distingue os heróis. Todos temos uma história com eles para contar. Mesmo que não os tenhamos conhecido ou com eles privado. E se dúvidas houvesse, elas acabaram: tu és um deles. Dos bons. Dos heróis.

Sim, também eu tenho histórias contigo. Nenhuma é de um grande feito. E tenho a certeza que tu, onde quer que estejas, não tens a mais pequena memória delas. São histórias de um miúdo que aos fins-de-semana ia para a catedral assistir aos jogos e que lá chegava com muita antecedência. Um miúdo que ia com o tio, que era o médico do Benfica, a tia e o primo mais novo. Um miúdo que adorava aquela sensação de poder atravessar o gradeamento por onde poucos passavam e entrar no estádio pela porta principal. Depois esperava. Pelos jogadores. Pelos treinadores. Por ti.

Tu chegavas sempre com o teu sorriso humilde e cumprimentavas-nos. “Como está doutor?” “Olá miúdo, estás bom?”. Eu lá abanava a cabeça. Eras o Eusébio. E estavas a falar comigo. Como podia dizer que não? Nunca te vi jogar. Ao vivo, pelo menos. Mas ouvi vezes sem conta a descrição da forma como corrias, como inclinavas o corpo para a frente quando rematavas a bola, como a tua perna ficava esticada a apontar para a baliza, como deixavas os braços perfeitamente equilibrados junto ao corpo, como os teus remates tinham uma potência incrível numa época em que as bolas de futebol, molhadas, deviam pesar uns três quilos – ao contrário dos balões com que hoje se joga futebol.

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Durante anos guardei uma bola do Benfica onde, junto ao símbolo, só havia espaço para um único autógrafo: o teu. Os dos outros jogadores da equipa estavam à volta. Guardei-a até o passar dos anos vencer a teimosia da tinta e as assinaturas desaparecerem. Mas havia um motivo para a tua ser a única junto ao símbolo da águia. Foi graças a ti, acima de todos os outros, que o Benfica, o meu clube, se tornou no maior clube do mundo. Que me fez chorar de alegria e de tristeza. Me fez celebrar. Por isso, mesmo sem te ter visto jogar, foi também graças a ti que festejei bastante.

Mas isso agora não importa. Acho que os meus amigos nunca acreditaram muito quando lhes contava que tinha estado contigo. Nem mesmo quando lhes descrevia que tinhamos ido jantar a um restaurante chamado “Petiscaqui” e nos tínhamos sentado na tua mesa. Ouvia-te com atenção contar histórias do tempo de jogador ou de quando tinhas ido com o Benfica a qualquer lado. Normalmente acabavam com uma gargalhada. Comias bem. Bebias melhor. Pedias sempre mais picante. Jindungo, de preferência.

Naqueles anos tu fazias parte da equipa técnica do Benfica. Alternavas entre adjunto e treinador de guarda-redes. E mesmo com mais de 40 anos batias aos pontos muitos dos avançados que faziam parte da equipa. Na potência de remate. Na colocação. No jeito. Hoje, quem revê os teus golos percebe facilmente porque eras idolatrado. Está lá tudo. A força, a garra, a alegria, a forma como festejavas todos os golos como se fosse o mais importante da tua vida. Em campo, tudo em ti era puro. Como se a beleza do futebol assumisse uma forma humana. Muito diferente dos ídolos de hoje, em que a humildade foi substuída pela arrogância. Em que o prazer da vitória foi trocado pela satisfação da derrota do adversário. Tu, mais do que qualquer outro, querias ganhar. Mas eras capaz de o fazer e, ao mesmo tempo, aplaudir uma defesa do guarda-redes adversário. Da bancada via-te sentado em todos os jogos ao lado do banco de suplentes. Tinhas o teu lugar reservado. A tua toalha branca sempre a postos. Só a tua presença deixava os adversários em sentido.

Durante muitos anos não te voltei a ver. Sim, ouvi muitas histórias tuas. Algumas boas. Muitas más. Bastantes, verdadeiras. É um lado teu que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser contado. É inevitável. Porque todos os heróis tem um lado negro. E o teu era bastante. Ainda assim, hoje, o que importa é recordar o lado bom da força. E essa, tinhas muita. A última vez que voltei a estar contigo foi em 2008, na Suíça. Portugal tinha acabado de ser eliminado pela Alemanha no Campeonato Europeu. Eu desci para a zona mista e quando estava a chegar vi um vulto a cair e a apoiar-se num automóvel. Eras tu. Corri, ajudei-te a levantar e a encostar ao carro e, instintivamente, tratei-te como muitos dos que te eram próximos faziam: “King, estás bem?”

Lembro-me que olhaste para mim com uma expressão de desespero enquanto passavas a mão pela perna. Explicaste que tinhas muitas dores no joelho esquerdo por causa das operações e que às vezes as forças faltavam. Eu disse que sabia e não resisti em contar-te a minha história contigo quando era miúdo. E tu sorriste. Como se te lembrasses mesmo de mim. Perguntaste pelo meu tio, como ele estava e pediste-me para lhe enviar um abraço. Não sei se o cheguei a fazer. Provavelmente, não.

Nos últimos anos, as notícias que me chegavam sobre ti eram quase sempre más. Os internamentos sucessivos deviam ter-nos preparado para isto. Mas nada prepara. Morreste. Foda-se. Só hoje, quando vinha para a redacção, que fica junto ao estádio, é que caí em mim. Foda-se. Morreste. As milhares de pessoas que estavam à volta do estádio provavam-no. Tal como os cachecóis, bandeiras e flores deixados junto à tua estátua. Foda-se. Morreste.

À hora de almoço, como muitos, acabei por ir ao estádio despedir-me de ti. Durante a tua última volta à Catedral lembrei-me de muitas coisas. Algumas deixo-as aqui. Sei que não têm importância nenhuma. Mas deixo-as na mesma. É que, mais uma vez, é isso que define os heróis: as pequenas histórias que temos com eles; as lágrimas derramadas por estranhos. Ao cumprires o teu último desejo nós batemos palmas. Gritámos o teu nome. Cantámos o hino nacional. Chorámos. E entoámos o hino do Benfica. Porque tu mereces. Mas sabes uma coisa? Dificilmente a letra e a voz do Luís Piçarra voltarão a soar tão tristes como hoje. Morreste. Foda-se. O King morreu. Viva o King.

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2 thoughts on “Eu e o King. Porque todos temos uma história com os nossos heróis

  1. Reblogged this on O Informador and commented:

    Hoje o King vai para o Panteão Nacional. Queria escrever algo sobre ele. Mas não me sai nada melhor do que aquilo que publiquei ainda a quente, logo após a sua morte. Viva o King

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