Os vampiros académicos

É uma visão regular. Em Setembro, no início do ano académico, algumas zonas de Lisboa – e presumo que de muitas outras cidades do país – enchem-se de miúdos que, acabados de entrar na universidade, são apanhados por um bando de alunos mais velhos vestidos de preto. Confesso que nunca percebi a utilidade nem a origem do traje. Eles parecem empregados de mesa com uma capa por cima. Uma espécie de vampiros sem dentes nem um castelo assustador. Elas parecem, bom, para elas tenho uma novidade: se querem arranjar um namorado não é vestidas dessa maneira que o vão conseguir. A não ser que eles tenham algum género de deficiência ocular. Ou gostem de homens. 

Ainda assim, o traje é o menor dos males. Nessas alturas, os “veteranos” passam os dias a divertir-se à custa dos caloiros, miúdos mais novos, com um ar que oscila entre o assustado e o divertido. Isso é outra coisa que me ultrapassa: como é que alguém pode ter um ar satisfeito enquanto lhe gritam que é uma besta e lhe ordenam que rasteje ou se atire para uma fonte? Só consigo chegar a uma de duas conclusões: ou o jovem sorridente tem um complexo masoquista ou então uma necessidade de aceitação que o leva sujeitar-se a tudo para se sentir inserido num novo meio. Aos primeiros só posso dizer para gozarem o que puderem. Para os segundos tenho outra novidade: miúdos, não é assim que vão aprender o que é a vida nem ser respeitados.

Quando entrei para a faculdade não achei piada nenhuma à ideia de ser pintado por um bando de desconhecidos que se achavam superiores só por serem mais velhos. Além de que ter de apanhar o autocarro e o comboio naquela figura não me agradava nada. Mas ao longo dos quatro anos que lá passei percebi uma coisa: de ano para ano as praxes pioravam. Das pinturas e jogos passou-se aos castigos, às provas forçadas, ao pagar cervejas aos mais velhos, às humilhações públicas e, em alguns casos, à violência física. As vítimas, tal como nas escolas primárias e secundárias eram, sobretudo, os mais fracos. Aqueles que tinham um ar assustado. E a comparação com o ensino preparatório e secundário não é inocente. As praxes podem ser uma espécie de bulling – mas com um nome aceitável socialmente, pelo menos para os que a praticam.

Parece que, aos poucos, as praxes deixaram de ser feitas apenas nos recintos e imediações das universidades. Parece que os alunos se organizam em comissões que têm direito a regulamento, relatórios e encontros regulares de fim de semana. Confesso que continuo a não perceber o interesse de alguém em fazer parte de grupos do género. E não me venham falar do espírito académico. Isso não existe. Para além de um local de conhecimento e educação, a universidade é um local por onde passamos como tantos outros. Miúdos, vou dar-vos outra novidade: tal como aconteceu com os amigos de infância ou do secundário, ao fim de alguns anos, vocês só vão continuar a manter contacto com uma mão cheia de pessoas da vossa faculdade. Aquelas que se tornaram mais próximas. E serão poucas. As outras vão de certeza encontrar por aí ocasionalmente ou no Facebook e recordar os velhos tempos. Alguns vão lembrar-se do “Luís” e como costumavam gozar com ele. Outros vão recordar o “António”, o atrasado mental vos fazia a vida negra e que acabou preso porque batia na mulher. Agora espírito académico? Esqueçam.

Ao contrário do que já ouvi alguns alunos dizer, a praxe não vos abre os olhos para a vida. Não vos dá disciplina. Não vos ensina a obedecer às hierarquias. Isso aprende-se em casa. Ou na tropa. Como nem o serviço militar é obrigatório, vocês podem dispensar a praxe. O pior que vos pode acontecer: Não sei. O melhor: não serem humilhados, tratados como umas bestas ou, em último caso, morrer numa brincadeira estúpida.

Ainda não se sabe exactamente o que aconteceu no Meco na madrugada do passado dia 15 de Dezembro. Sabe-se apenas que seis alunos vestidos de preto foram levados por uma onda. Até agora tudo leva a crer que o grupo passou o fim-de-semana a receber ordens de um denominado dux que tinha como símbolo do seu poder uma colher de pau gigante. Se foram à praia beber umas cervejas ou fazer outra coisa qualquer só ele poderá dizer. Foi o único sobrevivente. Acredito que o trauma ou a culpa o tenham impedido de falar até agora. Mas chegou a altura: as famílias dos que morreram merecem saber o que aconteceu. E nós – que temos filhos que um dia irão para a faculdade – exigimos ter a certeza que nenhum deles correrá um risco semelhante por causa de uma coisa chamada praxe.

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