Os salários “milionários” dos diplomatas

As generalizações são quase sempre injustas. As médias, potencialmente, também. No início da semana, o Público divulgou no seu site uma excelente infografia que pretende ser um retrato da função pública portuguesa em 2013, feita com base na Síntese Estatística do Emprego Público. Através dela, conseguimos saber onde trabalhavam os 563,5 mil funcionários do Estado no ano passado e os respectivos vencimentos médios. Dessa leitura salta à vista um dado: ao mesmo tempo que é a carreira com menos efectivos – 362 – os diplomatas são aqueles com uma média salarial mais elevada: €8113,35 por mês. Ora bem, isto, apesar de a fonte dos dados ser a Direcção Geral da Administração e do Emprego Público, é injusto.

Tenho alguns amigos diplomatas. Alguns estão em Portugal. Outros, no estrangeiro. Uns ganham mais. Outros menos. E a maioria tem, normalmente, uma história comum para contar. A daquele dia em que se reuniram com um grupo de amigos ou encontraram um tio afastado e falaram na crise e nas dificuldades em pagar as contas e tiveram como resposta: “eh, pá, tu és diplomata, ganhas não sei quantos mil euros”. E eles lá tentam explicar que não é bem assim. Que é verdade que há quem ganhe bem mais do que os oito mil euros em alguns postos no estrangeiro, mas que eles, quando estão em Lisboa – e são obrigados a isso, ciclicamente –, podem ganhar abaixo da média do sector empresarial do estado. Mas na maior parte das vezes já nem tentam explicar. Não vale a pena.

Os números não mentem. Quando alguém entra na carreira diplomática, como adido, recebe 1291,08€ líquidos. Ao fim de dois anos, quando confirmados, passam à categoria de terceiro secretário de e a ter como salário líquido 1374,63€. Quando chegam a primeiro secretário, têm como salário líquido 1669,3€. Se forem promovidos conselheiros recebem 1816,19€. Um ministro já ultrapassa os 2100€ e um embaixador chega aos 3000€. Estes são os ordenados que recebem em Lisboa. Quando são colocados no estrangeiro, continuam a receber este salário base, acrescidos de uma série de subsídios de função, que variam conforme o posto: de habitação – para pagarem uma casa, já que o Estado não as fornece sempre –, de representação – para desempenharem as respectivas funções – e, no caso dos que têm filhos, para pagar os respectivos colégios. Em alguns países os valores são mais do que suficientes e chegam a ultrapassar os 10.500€. Em outros, estão desactualizados perante o custo de vida local. E nenhum conta efectivamente como salário, pois não é objecto de descontos para a segurança social – o que se reflecte nas reformas. Ah, estes subsídios são exactamente os mesmos que recebem polícias, magistrados e antenas dos serviços de informações colocados no estrangeiro.

Não quero com isto dizer que os diplomatas são uns coitadinhos. Não são. Quando estão colocados no estrangeiro recebem ao fim do mês quantias com que a maioria dos portugueses não sonha. A maioria são funcionários altamente qualificados que representam o país nos mais diversos fóruns internacionais. Mas há muitos que o fazem a receber pouco mais de mil euros. Tal como comecei este post: as generalizações são quase sempre injustas.

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5 thoughts on “Os salários “milionários” dos diplomatas

  1. É bem verdade, estive em Bruxelas equiparado a diplomata e sei bem como é. O Estado exige de nós uma postura caríssima que só com ordenados ” elevados ” se pode cumprir. Cá é a pobreza franciscana que bem sabemos

  2. Caríssimo “Informador”, tomando em consideração o seu “post”, gostaria de ser elucidado quanto à seguinte situação:
    Teoricamente a matéria relativa a abonos não é revista desde 1992. Como se pode imaginar o nível de vida e as rendas desses mesmo países variou, o que leva a uma perda de poder de compra da nossa representação. Ora, tendo eu bem presente os valores atribuídos em 2006 e os atuais, através da comunicação social, verifico que os mesmos desceram, muito consideravelmente. O que “não bate certo”, dado que os mesmos não são atualizados desde então, pelo menos deveriam ter sido mantidos. Qual é a explicação???Houve algum corte? Sei que o orçamento retirou em 2013 cerca de 6% e o de 2014 cerca de 4%. Mas face a 2006, denoto, nalguns casos, que a perda é de 30% na representação (exemplo Pequim) o que acaba por ser verba que não é utilizada para representar o pais, mas, e apenas, para custear despesas básicas.
    Realço também, e contra a demagogia nacional, que os salários base são, atualmente, e a par com a Grécia os menores de toda a U.E.
    A Itália, por exemplo, paga um salário base cinco vezes superior ao nosso, alem do subsídio bastante acima do nosso. Claro que esta situação tem efeitos práticas, dado que “não se fazem omeletes sem ovos”.
    Basta conhecer qualquer representação nacional para se verificar que existem inúmeras carências.
    Cumprimentos e Agradecimentos pelas publicações claras e concisas que publica.

    • Confesso a minha ignorância em relação à sua dúvida.
      Mas agradeço o comentário – que acrescenta alguns dados interessantes e a leitura. Espero que continue por aqui.

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