Em defesa da Joana Latino (não é que ela precise, mas pronto)

Nos últimos dois dias o mundo jornalístico indígena tem estado entretido em duas discussões: o “estilo” de José Rodrigues dos Santos (JRS) frente a José Sócrates e a reportagem da Joana Latino, sobre a vinda a Portugal de David Hasselhoff, o actor norte-americano que se celebrizou em O Justiceiro e depois em Marés Vivas.

Sobre JRS já aqui escrevi bastante. Mas confesso que hesitei em fazê-lo sobre a Joana Latino. Conheci-a há 12 anos quando cheguei como estagiário à redacção da SIC-Notícias. Ela era uma das principais jornalistas da Edição da Noite e uma das pessoas com quem passei a conviver durante longas horas – que se prolongavam bem para além do final da emissão. Ela provavelmente não se lembra, mas foi uma das que teve paciência para me ensinar a mexer pela primeira vez num programa de edição de imagem – sim, foi na SIC-N que os jornalistas começaram a editar as próprias peças – e das que mais me ajudou a entrar no ritmo infernal da televisão 24h por dia. Nessa altura, a Joana fazia tudo: despachava promos, destaques e seleccionava vivos à velocidade da luz, saia para fazer os directos que fossem precisos – fosse num tiroteio, num incêndio, numa urgência hospitalar ou na sede de um partido político. Quando regressava, ainda deixava uma peça pronta para entrar durante a madrugada e a manhã. Basicamente, era (e é) uma máquina. Uma das mais versáteis repórteres da SIC e que, por isso, teve por várias vezes o reconhecimento do Mário Crespo – em directo.

Já nessa altura, a Joana tinha uma grande qualidade: tentava pensar fora da caixa. Fazia coisas diferentes. Às vezes tão diferentes que não se sabia qual ia ser a reacção. E se há qualidade que ela manteve ao longo destes anos foi essa: tentar surpreender os telespectadores. Todos os dias. Umas vezes corre bem. Outras, nem por isso. Mas o trabalho da Joana tem esse grande mérito: não deixa ninguém indiferente. Que o diga o secretário de Estado da Cultura, Barreto Xavier, que, a propósito da polémica da colecção Miró, foi bombardeado pela Joana em directo com as perguntas mais certeiras que lhe podiam ter sido feitas – e com um grupo de jornalistas impávido a assistir.

Na última semana a Joana foi entrevistar o David Hasselhoff, que veio a Portugal promover o espectáculo que vai ter em Portimão. Quem conhecer minimamente o historial do actor, percebe que ele é, digamos, um cromo. E que a Joana não ia simplesmente fazer uma peça que poderia ter começado assim: “Nos anos 1980 foi a estrela de O Justiceiro. Nos 1990 de Marés Vivas. Agora está em Portugal para promover um espectáculo em que todos poderão reviver essas séries de sucesso”. Não isso seria demasiado fácil – e, lá está, pouco surpreendente.

Ela optou por uma solução arriscada. Que a expõe às críticas mais corrosivas. Mas que deve ter arrancado tantos sorrisos lá em casa, quantas as gargalhadas que devem ter sido dadas enquanto filmavam e editavam aquela peça. Sim, é uma peça divertida, sobre um tema divertido. Mas nem todo o jornalismo tem de ser sério – no sentido de chato. Tem de ser factual – e a peça é. Tem de ser verdadeiro – e a peça também o é. Não deve violar normas e regras deontológicas – e a peça não viola. Tem de ser interessante – e a discussão à volta do tema prova que o é. E também não deve enganar o telespectador – e a peça não engana. Mais: a Joana avisa logo ao que vem no início quando diz.

“Qual a relevância deste momento jornalístico? Nenhuma. A não ser que a peça seja sobre David Hasselhoff.”

E tem toda a razão. No fundo, toda a polémica resume-se a uma questão de gosto. Uns acham que é divertido. Outros acham que é de mau gosto e um péssimo serviço ao jornalismo. Eu confesso que comecei por pensar (desculpa, Joana) “olha, passou-se”. Mas depois de rever a peça, de passar os olhos pelo que é feito na comunicação social, de ler o que foi escrito e de pensar um bocado no assunto, já não tenho tantas certezas. E essa é a beleza do jornalismo. Não há uma verdade absoluta para todas as questões (nem para a do JRS). E quem se acha o dono da razão e tem dificuldade em aceitar outros pontos de vista tem um bom remédio: mudar de profissão. Força, Joana.

Já agora, esta é a peça da polémica.

6 thoughts on “Em defesa da Joana Latino (não é que ela precise, mas pronto)

  1. Honestamente, não encontro um motivo sério para polémica!
    Enquanto espectador da SIC diverti-me a ver a peça. A Joana Latino é, provavelmente a mais “sui generis” repórter de televisão em Portugal. Foi exactamente o que ela fez… um trabalho original em que a notícia relevante era a presença de Hasselhoff em Portugal.
    E toda a gente sabe que o “cromo” é pouco mais que isso. Com todo o respeito! A conduta do actor ao longo da peça é disso um exemplo.
    Em frente Joana Latino.
    A notícia também pode deixar-nos a sorrir!

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