As ligações perigosas na comunicação social

O ex-jornalista da SIC, Waldemar Abreu, escreve hoje no i sobre a relação entre jornalistas e banqueiros – e o estado da comunicação social em geral. É um texto que vale a pena ler e sobre o qual importa reflectir.

Banca e jornalismo

Por Waldemar Abreu

Um banqueiro declarou, recentemente, “pouco ortodoxo” o negócio de aquisição, pelo banco a que preside, de parte do capital de um importante grupo de comunicação social. O negócio não é “pouco ortodoxo”. É anómalo e assaz insólito. A Constituição garante que “o Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico”. Ora, poder económico maior que o da banca não se conhece.

Este não é um caso isolado. Outro banco é o real proprietário de um jornal económico e de uma televisão por cabo da mesma área.

É dos livros. Aos banqueiros não lhes basta condicionarem a actuação dos media por via da publicidade ou das dívidas. Se puderem, controlam as linhas editoriais.

Quando não o conseguem directamente, recorrem à via política, onde têm colocadas muitas peças a todos os níveis e muito notoriamente no governo. Começa a ser moda jornalistas da área económica, onde se praticam grandes fretes e até se plantam notícias falsas, saltarem para a direcção de órgãos de comunicação social com grande penetração na sociedade.

O problema não está no facto de os media começarem a ser orientados, na vertente editorial, por jornalistas da área económica, onde existem bons profissionais. A questão é os lugares de topo serem ocupados, maioritariamente, por jornalistas com ligações perigosas a agências de comunicação que representam interesses poderosíssimos, incluindo políticos. Jornalistas, agências de comunicação e políticos – um triângulo absurdo que perverte o jornalismo.

Assim como assim, a generalidade dos órgãos de comunicação social é, hoje, dirigida por jornalistas que nunca se distinguiram em coisa alguma. Ninguém lhes conhece uma única reportagem. À excepção da RTP e pouco mais, num passado não muito remoto só chegavam à direcção editorial jornalistas com créditos firmados, provas dadas anos a fio na reportagem, género nobre credor de respeito. Eram tempos em que a informação estava vedada às administrações. Nem estas se atreviam a interferir, nem as direcções o admitiam.

Agora, ascende à direcção quem se mostra mais disponível para – sem tugir nem mugir – cumprir as ordens do patrão. Quanto mais baixo descem mais subserviência demonstram e, por essa via, mais se alapam aos lugares. Mesmo que isso signifique atirar borda fora os que pensam pela sua cabeça, batalham pela ética e não se ajoelham perante a inépcia. Os melhores, quase sempre.

Em finais de Março, mais de uma dúzia de jornalistas de um canal generalista estava de baixa médica, boa parte das quais por razões psiquiátricas. Em condições normais, a outra parte dos jornalistas dispensaria a baixa. O problema é não reconhecerem mérito às chefias, estarem desconfortáveis na profissão. Grandes repórteres são colocadosad eternum a fazer o trabalho de estagiários ou na prateleira. Entraram no árduo jogo da resistência e arriscam-se a ganhar um passaporte para o desconhecido. Se cederem, alguém há-de ser recompensado…

O mais grave é as pessoas terem desaparecido das páginas dos jornais e dos alinhamentos dos noticiários. Além de números, só se trata de bola, criminalidade e trivialidades. Nas televisões, impressiona o investimento de meios humanos e materiais em doses industriais de faits divers. As pessoas deixaram mesmo de existir.

Quando os banqueiros apregoam que temos de fazer sacrifícios, os seus vassalos coniventes estão atentos. Quanto menos dinheiro para as pessoas, mais sobra para a banca. Não falta quem, com responsabilidades editoriais, nos venha logo dizer que o estado social tem de levar mais umas machadadas. São os mesmos que logo se aprestam a dar sugestões ao governo, designadamente para cortar mais naqueles que se “aproveitaram” da regra dos 10 melhores dos últimos 15 anos para a formulação do cálculo das reformas. Um mimo…

A banca está nas lonas. Mas os banqueiros estão cada vez mais ricos. Dormem bem acompanhados.

Jornalista

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