O homem que achava que “a beleza de uma mulher elegante é a atrapalhação do cabrão do macaco da Indochina”

Começam hoje as cerimónias fúnebres do ex-presidente da Guiné Bissau, Koumba Yalá. Este foi o obituário dele que escrevi para Sábado há uma semana.

Koumba Yalá

(1953-2014)

Marcelo Rebelo de Sousa era presidente do PSD e estava de visita a Bissau para dar uma aula na Faculdade de Direito. Como é habitual sempre que o líder da oposição visita um país, o então embaixador português na Guiné Bissau, Francisco Henriques da Silva, organizou encontros com os representantes dos partidos políticos locais. Os preparativos estavam a correr bem. “Até que liguei ao Koumba Yalá e ele diz-me: ‘obrigado mas eu não vou. Se ele quiser que venha falar comigo’”, recorda à SÁBADO. Dias antes, Marcelo Rebelo de Sousa tinha afirmado que a Guiné não era um Estado viável e o então líder do Partido da Renovação Social (PRS) ficou ofendido. Depois de falar com o diplomata, Marcelo decidiu: “não há alternativa, temos que lá ir”. Depois de várias voltas pela periferia de Bissau, a comitiva portuguesa parou junto a uma casa pobre, com telhado em chapa de zinco. Entraram na moradia. Pouco tempo depois Koumba Yalá apareceu sorridente, esticou a mão direita e disse: “Sejam bem vindos! Afinal o passarinho veio comer à mão, não é verdade?”

Koumba Yalá era assim: polémico, directo, desbocado, carismático e populista. Nascido em Bula, a 15 de Março de 1953, aderiu ainda adolescente ao Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Aos 18 anos chegou a Portugal. Viveu em Loulé, onde trabalhou como servente de pedreiro e jogou futebol no Louletano. Era extremo-direito. Mas depressa trocou o futebol pela política.

Após a independência, tornou-se um dos primeiros críticos do presidente João Bernardo “Nino” Vieira e, em 1992, fundou o PRS pelo qual se candidatou a todas as eleições presidenciais multipartidárias. Ganhou notoriedade através da construção de uma imagem. “Espalhou a convicção de que era licenciado em teologia e filosofia pela Universidade Católica mas só frequentou as aulas. Só acabou o curso de direito na Universidade de Bissau”, diz à SÁBADO o investigador Eduardo Costa Dias. Passou a usar o barrete vermelho como símbolo do “homem grande” balanta – alguém que concluiu uma cerimónia de iniciação que inclui uma estadia no mato, roubo de gado e uma cerimónia de circuncisão – e foi dessa forma o primeiro a promover a tribalização política.

Nas presidenciais de 1994 perdeu para Nino Vieira por apenas 4% dos votos. Apesar das acusações de fraude, acabou por aceitar os resultados. Após a guerra civil de 1998-1999, foi eleito presidente. Bateu Malan Bacai Sanha com 72% dos votos. Como presidente promoveu militares balantas e teve uma gestão desastrosa  que levou o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial a suspenderem a ajuda económica. “Chamava-me por tudo e por nada. Às vezes só porque estava aborrecido”, diz à SÁBADO o então embaixador em Bissau, António Russo Dias. “Cheguei a assistir a conselhos de ministros onde ele me pedia opiniões”. Em 2001, numa reunião na ONU em que foi
abordado o tema da corrupção, disse: “Vou ser muito duro, podem acreditar. Por exemplo: aqui a senhora ministra. Se
descobrir que ela rouba, que é corrupta, podia mandar matá-la. Mas não a vou mandar matar! Mas vai levar tanta porrada (…) que nunca mais vai querer roubar”, recordou o embaixador Seixas da Costa no blogue Duas ou Três Coisas.

Acabou por ser deposto num golpe de Estado em 2003 – o mesmo ano em que editou o livro Pensamentos Políticos e Filosóficos do Dr. Koumba Yalá. Nele constam frases como “A beleza de uma mulher elegante é a atrapalhação do cabrão do macaco da Indochina”.

Alcoólico, mudou-se para Marrocos onde se converteu ao Islão e terá tratado uma grave cirrose. Em 2005 – apesar da proibição de participar na vida política durante cinco anos – regressou ao país para participar nas eleições presidenciais. Ficou em terceiro. Voltou a candidatar-se em 2009 e em 2012. No final da primeira volta, em que obteve apenas 23,36% dos votos, avisou: “Não há segunda volta, nem terceira volta, porque não reconhecemos o resultado”. Dias depois, um golpe de Estado liderado pelo balanta António Indjai depôs o governo e o presidente interino. Nas eleições do próximo fim-de-semana, apoiava o candidato independente Nuno Nabiam. Morreu no passado dia 14 de Abril, na sua casa no bairro popular, rodeado de uma guarda pessoal de cerca de 200 homens e deixou um desejo: ser enterrado após as eleições de 13 de Abril.

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