Leitura para o fim-de-semana: espião maçon conta tudo, versão uncut

Na semana passada, a Sábado fez capa com uma entrevista a Jorge Silva Carvalho. Como acontece na maioria dos casos, o espaço disponível em papel não chegou para acomodar todos os minutos da entrevista feita pelo Fernando Esteves. Houve muito material que ficou de fora – e do bom. Acompanhei o trabalho do Fernando até ele convencer o antigo espião a dar-lhe esta entrevista. Faz por isso todo o sentido que ele tenha publicado no seu blogue uma versão integral: que eu estou a surripiar-lhe descaradamente. Neste caso não é ofensa. Nem roubo. É homenagem. Vale mesmo a pena ler.

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“Nos últimos dois anos fiz-lhe pelo menos 10 pedidos de entrevistas, sempre recusados. Porque é que só agora aceitou falar?

Porque terminou uma fase importante do processo, uma fase que não é a minha, foi despoletada pelo Dr. Nuno Vasconcellos, que fez um pedido de instrução em relação à acusação que lhe foi feita pelo Ministério Público. É uma fase em que eu tinha de deixar correr também a estratégia de defesa do Dr. Nuno Vasconcellos e dos seus advogados. O Nuno é meu amigo, sinto que ele foi injustamente envolvido nesta situação. A acusação do Ministério Público MP) é de cariz político, superficial e sem qualquer base de sustentação.

Onde é que entra a política neste processo?

O crime de corrupção é eminentemente político no sentido lato do termo. É, por exemplo, usado em certos Estados para anular rivais políticos. Quando você acusa alguém de corrupção está não só a colocá-lo no âmbito de um processo criminal, como também a destruí-lo em qualquer sociedade, sobretudo numa sociedade democrática.

O que está a insinuar é que existe uma intenção deliberada do Ministério Público de destruir o carácter de Nuno Vasconcellos.

Não digo que haja uma intenção deliberada de destruir o seu carácter. Aliás, aí ponho-me no mesmo barco que ele. A acusação incide mais sobre mim mas tinha de haver outro lado da moeda. Neste caso começámos a falar do Nuno Vasconcellos mas a questão principal até podia situar-me a mim. Eu acho que a acusação de corrupção surge até pelo próprio grupo de magistrados do MP que faz a acusação, que são particularmente vocacionados para esse crime. Portanto, há coisas que decorrem diretamente da forma de pensar das pessoas que estão envolvidas no processo acusatório. Durante estes dois anos tive de respeitar aquilo que era o direito de exercício dos seus meios de defesa por parte do Nuno Vasconcellos. Foi ele que despoletou a instrução. Esta pronúncia não é sobre mim. Fui acusado há dois anos. Já me cansei de rebater isso, acho que não vale a pena, que o processo mediático é quase autofágico e tem a sua própria lógica. Eu fui posto nesta cobertura noticiosa como o centro mas esta instrução não era minha, eu fui testemunha do Nuno Vasconcellos na instrução. Havia outros aspectos da instrução que eram relevantes para a minha defesa futura e para o meu processo mas não era sobre mim e no entanto acabei por ser eu o cabeça de cartaz no processo, o que nesta fase da minha vida assumo de bom grado porque quando sou eu que estou a ser exposto reputacionalmente não são amigos meus e não são outras pessoas que, coitadas, não têm culpa nenhuma. E portanto não fiz nenhum esforço para nadar contra a maré.

Nuno Vasconcellos terá de responder em tribunal pelo crime de corrupção activa e o senhor pelo de corrupção passiva. Está preparado?

Fá-lo-ei com todo o gosto. Aliás, foi uma opção que desde o início foi tomada. Em Maio de 2012, quando foi feita a acusação do MP, requeri ao tribunal que o julgamento fosse agendado o mais rapidamente possível, prescindindo de toda a tramitação processual possível previamente porque eu sei que só em tribunal poderei explicar melhor a falsidade da maior parte destas acusações. Quando me acusam de corrupção nos termos em que acusaram fizeram-me o pior dos insultos pessoais. E eu vou lidar com esta questão do ponto de vista de uma acusação criminal, mas jamais esquecerei o insulto pessoal.

A acusação de corrupção baseia-se numa troca de sms entre si e o presidente da Ongoing. Nela, entre outras coisas o senhor pergunta a Nuno Vasconcellos quanto é que ele achava que os seus serviços valiam. O MP considera que o que está inerente à sua pergunta é a oferta de informações privilegiadas.

Sim, mas é uma interpretação baseada em zero. Recordo-me que o MP baseia toda a sua  narrativa a partir de um extracto de um sms. Ora, como qualquer pessoa sabe, um sms é apenas uma parte de uma conversa. Muitas vezes não reflecte sentimentos, não reflecte tons, é menos neutral do que a palavra escrita. Depois, esse sms, sendo parcial, não diz coisa nenhuma. Diz apenas que eu estava a comunicar ao Dr. Nuno Vasconcellos quanto é que auferia no Estado. Desmontando a sua pergunta, a questão que está por trás da narrativa do Ministério Público é a história do período de nojo. Não há período de nojo. A minha obrigação era respeitar o segredo de Estado e manter um comportamento eticamente aceitável para um ex-director-geral dos serviços. Nunca me esqueci disso nem durante nem depois de ter saído. Escolhi a Ongoing por uma questão de falta de tempo. Pedi a um amigo um emprego. Não preparei a minha saída dos serviços. Tive de tomar uma decisão perante factos que eu considerava inaceitáveis no Estado português em relação ao serviço de informações.

Quais eram esses factos?

Não posso falar sobre isso. Foram expostos por escrito ao senhor secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP).

É desses factos de que fala quando se refere à questão do levantamento do segredo de Estado na sua defesa?

Não só. Eu fui para casa em meados de Novembro de 2010 e nunca mais voltei ao serviço, mas permaneci no posto oficialmente a pedido do próprio secretário-geral porque ele não queria causar ondas. A minha saída oficial coincide com o despacho de nomeação do meu substituto, cerca de 15 dias depois da minha saída efectiva. Agora, mesmo para além disso houve um regime de interinato em que eu respondia às perguntas que eram necessárias, havia assuntos que eram da minha lavra, que eram acompanhados por mim. Havia coisas que só eu é que conhecia, que tive de responder por telefone ou pessoalmente a várias pessoas que me foram pedindo. Eu assumi o cargo de director-geral do SIED tinha uma carreira de 17 anos nas informações, quase toda ela feita na estrutura operacional no Serviço de Informações de Segurança, e tinha comigo um lastro de coisas de natureza operacional que eram exploradas por mim directamente. E demorou. Pus-me à disposição para passar isso, para passar determinados dossiers. Veja: é muito difícil fazer uma saída deste estilo, para mim foi uma ruptura de vida, não foi apenas uma decisão de um qualquer director de um serviço de informações que saiu e voltou à sua profissão. Eu não saí só de um posto para que fui nomeado, saí de um lugar que eu adorava, de uma função para a qual fui treinado toda a minha vida, saí de uma função que para mim correspondia ao clímax de tudo o que tinha querido ao longo da vida. Dei tudo o que tinha na função. Julgo que para o SIED, naquela altura, provavelmente, foram os três anos em que passou a assumir-se como um serviço de informações de corpo inteiro e organizado profissionalmente. Não digo que não tenha cometido erros, é impensável dizer isso, mas tenho a certeza absoluta de que o trabalho que o SIED fez naqueles três anos foi respeitado. Sem contar com aquilo que contribuímos para o nosso sistema de informações. Agora, as pessoas olham porque quiseram olhar – incluindo o Ministério Público – para isto de uma forma simplista. Quiseram olhar para um mundo que é de várias tonalidades só olhando a branco e preto. Claro que o Ministério Público olha para isto e olha para um conjunto de coisas que se passaram dois ou três meses depois como se fossem coisas que eu já estava a fazer no sector privado. Ora isto é, no mínimo… não quero apelidar porque não vou cometer o erro que outras pessoas têm cometido comigo durante estes dois, três anos, desde que começou a campanha do Expresso em Julho de 2011. Às vezes a emoção trai-nos e podemos estar também a ser injustos como eu acho que foram injustos comigo, às vezes de forma negligente, outras com dolo.

O Ministério Público diz que na sua negociação com Nuno Vasconcellos ficou assente – e isso é dito de forma concludente – que lhe daria informações internas dos serviços e que terá inclusivamente oferecido a sua influência sobre dirigentes do SIED depois de sair dos serviços. Como é que interpreta isso?

É uma perfeita falsidade. Jamais tive uma única conversa com o Nuno Vasconcellos em que lhe prometesse o que quer que fosse. Esse sms de que fala, eu não consigo perceber como é que se consegue inferir isso daí. O que eu digo ao Nuno Vasconcellos é: “Não te arrependerás do favor que me estás a fazer, vou trabalhar para o merecer.”

Não há nenhum sms em que diga ao Nuno Vasconcellos: “Eu forneço-te informações privilegiadas…”?

O único sms de que me lembro, já não sei se é um sms se é uma declaração, em que eu terei dito ao Nuno Vasconcellos: “Vou-te compensar daquilo que estás a fazer por mim.” E fi-lo. Durante um ano na Ongoing trabalhei e fiz o possível para ajudar a empresa e o grupo a triunfar. Disse ao Nuno Vasconcellos que eu queria fazer um corte, mudar de vida. Trabalhava dez, doze, quatorze horas por dia nos serviços de informações, tinha filhos pequenos, queria deixar de carregar às costas a responsabilidade de tem um cargo público como o que desempenhava.

Ganhava cerca de 4000 euros como director-geral do SIED. Foi para a Ongoing ganhar quanto?

Dez mil euros líquidos.

Foi um salto importante.

Sim, mas foi um salto não negociado, foi puramente oferecido da parte do Nuno Vasconcellos.

Foi administrar logo três empresas.

Mais, até. Acabei por estar envolvido em praticamente todas as actividades do grupo com gosto. Mais do que a minha palavra e do que aquilo que eu digo, basta ler o despacho de pronúncia e ler o que disseram todos os quadros da Ongoing que foram lá testemunhar. E isso deixa-me satisfeito porque mesmo pessoas com quem eu não tenho uma relação pessoal perfeita, que conheci na Ongoing e não tinha visto antes, fazem as declarações que fazem acerca do meu trabalho. As pessoas dizem e eu demonstro à exaustão o que andei a fazer. Andei a fazer coisas que nunca pensei andar a fazer como gestor. Devo-lhe dizer que andei a fazer coisas tão simples como montar serviços comuns, serviços partilhados, que são no fundo funções que eu já tinha tido no Estado mas que eram asseguradas por pessoas abaixo de mim. Eu era um coordenador macro enquanto que ali estive directamente envolvido em actividades de gestão pura e dura.

O PROJECTO DE PODER DENTRO NA MAÇONARIA

Conheceu Nuno Vasconcellos na maçonaria. Quando é que isso foi e quem vos apresentou?

A questão da maçonaria é uma falsa questão por um simples motivo: eu conheci o Dr. Nuno Vasconcellos em 2005 no âmbito de um grupo alargado de amigos. Se eu não falo sobre maçonaria é porque entendo que normalmente a maçonaria é normalmente posta de forma errada na comunicação social.

Porquê?

Porque é um libelo acusatório. Nunca desmenti uma pertença maçónica mas também nunca a afirmei porque isso nunca foi importante para mim.

Há uma sombra tóxica sobre a instituição?

Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. É usada por um conjunto de pessoas para deixar uma marca em determinadas pessoas como forma de as desvalorizar à partida. Nunca desmenti uma pertença maçónica mas também nunca a afirmei porque isso nunca foi importante para mim.

Mas compreende que olhando para a célebre loja Mozart ,em que conviviam empresários poderosos como Nuno Vasconcellos, políticos influentes como Pedro Duarte, Luís Montenegro, Agostinho Branquinho e Vasco Rato, juntamente com alguns espiões, as pessoas pensem que existia ali um projecto de poder?

Compreendo. O grande problema destes grupos humanos é quando o critério de alguma forma falha ou quando crescem demasiado ou se tornam demasiado ambiciosas. A maçonaria, como outras organizações que funcionam da mesma forma, pode ser desvirtuada. Do que conheço da loja Mozart posso dizer-lhe que o grande problema foi ter tentado manter-se à parte, ter-se mantido isolada de eventuais influências perniciosas da maçonaria e de outros sectores, inclusivamente de partidos políticos, etc.

O isolamento da Mozart virou-se contra si mesma, acabou também por se transformar num estigma, não acha?

Acho. E pagou-se caro por isso.

O facto de estarem fechados levou a que as pessoas mesmo dentro da maçonaria pensassem que vocês tinham uma agenda própria.

Claro, estou totalmente de acordo consigo.

Como ficou a sua relação com os seus antigos colegas de loja depois do escândalo eclodir?

Volto a dizer-lhe o seguinte: toda esta situação não começou com a campanha do Expresso, começou um bocadinho antes, com algumas notícias dirigidas por alguns actores políticos através de alguns jornalistas com maior ligação às suas fontes, inclusivamente no Diário de Notícias, sobre o período de nojo, sobre a minha saída do SIED. Recordo-me que houve um relatório do Conselho de Fiscalização que normalmente sai no primeiro trimestre e que acabou por sair mesmo em cima da tomada de posse do Governo. No meio do relatório, se a memória não me falha, vinha uma frase que dizia qualquer coisa como isto: falava-se na transição directa para o sector privado, coisa que é perfeitamente normal. Aliás, anormal seria a existência de um período de nojo que eu não conheço em mais lado nenhum. E como não reconheço em Portugal ninguém com melhor conhecimento de serviços de informações do que eu… Reconheço a outras pessoas tão bom conhecimento como o que eu tenho. Não me lembro de ver nenhum regime de período de nojo como aquele que estava a ser pensado e falado há pouco. E muito mais não existia naquela altura. Mas a questão começou a ser aflorada e começou a ser aflorada de uma certa forma. Foi quase feita uma leitura acompanhada pelo jornalista daquilo que vinha nesse relatório. Você sabe como as coisas funcionam e portanto em Portugal é assim, fez-se uma leitura acompanhada, fizeram-se uns títulos, fizeram-se umas notícias e passado um mês há a tomada de posse do governo, etc. Um pouco mais tarde surgem as notícias do Expresso, a campanha que se inicia e que se concentra basicamente durante seis, sete meses de cobertura jornalística até à minha saída da Ongoing. Curiosamente não foi até à minha acusação em Maio. No final de Janeiro, com a minha saída da Ongoing, que acho que foi uma medida interessante e inteligente, mútua, minha e da empresa, a campanha caba por esmorecer. Termina com aquele episódio relacionado com as acusações maçónicas e com um conjunto de pessoas a prestar declarações sobre essa matéria. Eu acho que hoje, quando se fala do período de nojo e da declaração de interesses, quando as declarações são feitas por elementos do poder político, por deputados mais ou menos inexperientes, ou são feitas de uma forma tonta ou menos tonta não por minha causa ou por causa dos serviços, mas para serem utilizadas como arma política dentro do PSD e dentro do jogo político. Estas coisas quando não são tontas são feitas de uma forma muito agressiva.

Em que sentido é que isso tem sido utilizado dentro do PSD?

Acho que isso é uma mensagem dirigida dentro da cúpula do PSD a outros elementos da cúpula do PSD.

Quem e contra quem?

Pessoas que são tidos como maçons. Só isso. É um ajuste de poder e um ajuste de placas tectónicas dentro do PSD em que por acaso usaram o meu caso…

Diz isso mas Luís Montenegro, que pertence à Loja Mozart, a que o senhor também pertencia, continua como líder da bancada parlamentar.

Não vou falar sobre as ligações maçónicas do Dr. Luís Montenegro. Do que conheço dele pessoalmente só posso dizer bem. Politicamente não tenho acompanhado ao pormenor. Acho que ele e outras pessoas viram-se envolvidas neste processo, que foi logo posto sem que eu tivesse podido defender-me. Foi logo posto de uma forma infamante e usado como arma de arremesso contra pessoas que estão na vida pública. Essas pessoas tiveram várias opções. Uma delas foi defenderem-se. Depois há formas de defesa. Umas fugiram mais aceleradamente há outros que criaram apenas chinese walls e há outros que criaram trincheiras e fugiram completamente e desapareceram e quiseram isolar completamente os dois patamares. É legítimo. Quando as pessoas estão a viver e estão a defender a sua própria vida, aquilo a que têm direito, a sua intimidade, o seu bom nome, é legítimo, mesmo que às vezes isso implique deixar cair um amigo.

 A “INVASÃO” DO TELEFONE DO JORNALISTA DO PÚBLICO

 A 7 de Agosto de 2010 o senhor terá pedido a uma pessoa dos serviços secretos, João Luís, que também vai a julgamento no processo, que obtivesse os dados das chamadas de telemóvel do jornalista Nuno Simas, que tinha escrito uma notícia no Público sobre o mal-estar que se vivia no SIED. Confirma que foi o senhor que pediu o acesso à facturação detalhada?

Sobre esse caso não vou falar de todo. Falarei em tribunal se vier a ser libertado pelo senhor primeiro-ministro do segredo de Estado tal como em relação a todas as acusações que o MP me fez. Cheguei a conhecer o jornalista Simas, não fiquei com má impressão dele, foi uma pessoa que se demonstrou afável. Na sequência da primeira notícia, ele faz duas notícias em meados de 2010.

Sobre o mal-estar nas secretas.

Uma delas horrível, absolutamente falsa. Horrível no conteúdo, não digo que sob o ponto de vista jornalístico não estivesse bem feita. Pedi, aliás, a uma pessoa que nos conhecia, o ex-ministro Miguel Relvas, para me facilitar o contacto com ele. Disse-lhe que precisava de conhecer o jornalista porque não percebia a razão daquela notícia.

Nessa altura tinha uma relação próxima com Miguel Relvas?

Não, de todo. Nunca tive.

Então porque é que lhe pediu precisamente a ele? Miguel Relvas já era nessa altura um facilitador, é isso?

São palavras suas. Não tenho essa impressão dele nem tenho conhecimento para usar qualquer tipo de epíteto. A minha relação com o Dr. Miguel Relvas foi uma relação pontual. Acho que estive dez ou doze vezes com ele no meio de outras pessoas. Não tenho sequer uma opinião formada sobre ele.

Depois de Miguel Relvas ter feito a ponte falou com o jornalista?

Sim, e expliquei-lhe as razões. Eu reconheço que nem sempre os serviços de informações tiveram a melhor política de comunicação no sentido de falar com a imprensa. Mas há uma coisa que eu acho que as pessoas entendem: um serviço de informações é tão mais frágil quanto o seu elemento mais frágil. O SIED sempre teve fugas de informações, reveladoras de fragilidades de estrutura, de nomeações.

E achava que era importante identificar as fontes dentro dos serviços?

Não é tanto a pessoa que fala porque falou com o jornalista a ou b ou com o político a ou b, é o princípio. Quando cheguei ao SIED em 2008 já o acompanhava, até como chefe de gabinete do secretário-geral. Sempre teve fugas de informações. Desde a sua fundação, inclusivamente com o chamado caso Veiga Simão, teve situações de ruptura interna gravíssima, que tiveram danos reputacionais enormes. Todas as direcções tiveram os seus problemas com fugas de informação. Aliás o meu antecessor teve várias vezes queixas e notícias, inclusivamente na SÁBADO, sobre os serviços. Se eu olhar para aquelas notícias como quadro dos serviços acho que aquilo não tem interesse nenhum. Mas eram reveladoras de fragilidades de estrutura. A pessoa que fala com o jornalista a ou b porque está insatisfeito, porque não se sente bem remunerado, porque acha que é mais inteligente do que o director-geral que lá está ou do que os dirigentes que estão acima dele, não tem carácter para estar nos serviços de informações. Se eu ao longo da minha vida tivesse falado com jornalistas ou com políticos sempre que me senti maltratado ou desvalorizado, tinha falado durante vinte anos com dezenas de pessoas. Nunca o fiz. É assim que começam as fugas a sério. Se você fizer uma análise histórica de todos os casos dos serviços mais conhecidos, daqueles que forma romanceados sobretudo no período da guerra fria, constatará que independentemente das motivações de fulano, sicrano ou beltrano, todos eles tinham uma característica no carácter, que era a necessidade de se exaltarem, de sobressair. Todos eles tinham um factor de queixa.

Do ponto de vista da percepção pública, o seu comportamento pode ser encarado de uma forma muito simples: o director do SIED acedeu à facturação detalhada do telemóvel de um jornalista para fazer uma caça às bruxas dentro dos serviços.

Mas isso é o Fernando que está a dizer.

Não estou a dizer, estou a perguntar-lhe se percebe que a percepção geral é essa.

Nunca fiz uma caça às bruxas! Disse-se tudo durante estes três anos. Disseram-se outras coisas, por exemplo em relação à maçonaria. Nunca nomeei um maçon. Nunca.

Mas relacionava-se com espiões na maçonaria.

Espiões na maçonaria… (hesita)

… João Alfaro fazia parte da mesma loja que o senhor, a Mozart.

Mas o Dr. João Alfaro teve uma passagem episódica pelos serviços e penso que as duas coisas não foram sobrepostas. A minha participação na maçonaria é muito recente. Eu tinha a minha carreira praticamente feita em termos de cargos ocupados, as coisas nunca se misturaram. A questão maçónica foi sempre um espinho na minha carreira. Vou-lhe dizer que a única questão que me foi posta como objecção à minha nomeação para director-geral do SIED foi a ligação à maçonaria, pelo então Secretário-Geral do SIRP, o Dr. Júlio Pereira.

O que lhe respondeu?

O Dr. Júlio Pereira conhece-me desde que eu era director do departamento de relações internacionais no SIS. Sempre fui muito claro com ele. Ele sabia de tudo ou quase tudo da minha loja, o seu nome, etc. Nunca escondi.

José Manuel Anes, um conhecido maçon da Grande Loja Legal de Portugal, acusou-o de ter um projecto de pode dentro da Maçonaria.

Não quero falar sobre isso por um motivo: é como eu estar a falar sobre os meus filhos e estar a descrever-lhe os oxiuros que eles têm de vez em quando. Acho que na vida existem pessoas de quem se pode falar e outras que não têm dimensão nem relevância.

 O CONVITE DE PEDRO PASSOS COELHO E AS ACUSAÇÕES A VASCO RATO

 Houve muitas pessoas que o deixaram cair?

Houve muitas que se afastaram. Em momentos de tensão afere-se a qualidade de muitas relações. Houve muitas que eu até subestimava e que se revelaram férreas e depois houve outras novas, muitas. Hoje sou um homem tranquilo, não porque essas relações me vão dar alguma vantagem mas porque em nenhum momento fui desrespeitado, mesmo as pessoas que desapareceram do meu universo, que agiram como ratos…

…está a referir-se concretamente a Vasco Rato?

(risos) Isso é a sua inferência. O Dr. Vasco Rato não é relevante. Não tenho a opinião dele que ele aparentemente manifestou numa entrevista que lhe deu a si sobre mim.

Entre outras coisas ele afirmou que se arrependia de o ter apresentado a Passos Coelho e que o senhor não era o tipo de pessoa de quem ele gostasse. A expressão que utilizou foi: “He´s not my cup of tea”.

Sim, eu tenho poucas características físicas que me façam comparar com uma chávena de chá. Mas isso são palavras do Vasco Rato, ele disse o que tinha a dizer pelos motivos que entendeu. Era amigo do Dr. Passos Coelho, foi recompensado por essa amizade, é hoje presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Enfim, não é a mesma coisa que ser Ministro dos Negócios Estrangeiros mas tem a sua recompensa e desejo-lhe boa sorte. Há pessoas muito piores na sociedade portuguesa e na política portuguesa.

Alguma vez Vasco Rato ou alguém do PSD lhe deu a entender que caso o PSD ganhasse as eleições podia ser o próximo secretário-geral do SIRP?

Normalmente não falo de convites porque têm de ser as pessoas que fazem os convites a falar deles. Mas uma vez surgiu um convite que me espantou. Já tinha havido eleições estava-se na fase de constituição do governo. Fui consultado por um dos assessores principais de Pedro Passos Coelho, que me perguntou se aceitaria ser secretário-geral do SIRP. Eu recusei, ele insistiu eu entendi que depois de recusar uma primeira vez não podia fazê-lo uma segunda. Disse que aceitava ponderar o regresso se houvesse um convite formal do primeiro-ministro.

Que nunca aconteceu.

Não porque foi um período muito curto de duas semanas, em que houve vários contactos com esse assessor, com outros elementos do gabinete e com pessoas da esfera do Governo a constituir, para quem a minha ida já era um acto consumado.

Mas estamos a falar do gabinete do primeiro-ministro ou do de Miguel Relvas?

Do primeiro-ministro. A única conversa que tive com o Dr. Miguel Relvas sobre esse assunto foi para lhe dizer que não queria liderar o SIRP. Ser secretario-geral nunca foi a minha ambição. Se tive uma foi ser director-geral, era a cereja no topo do gelado.

Uma das acusações que lhe são feitas é que quando ainda trabalhava no SIED terá dado ordens para se fazer um relatório sobre dois empresários russos com quem a Ongoing estava a planear um negócio de 350 milhões de euros. Depois disso terá feito chegar esse documento a Vasco Rato, na altura administrador da Ongoing. Isso é verdade?

Não me recordo de nenhum email para o Dr. Vasco Rato. Não tinha com ele nenhuma relação de cariz profissional nem quando ele estava fora nem dentro da Ongoing. Lembro-me que ele teve um papel importante no agendamento de um encontro com Pedro Passos Coelho quando este ainda era chefe da oposição e o Dr. Vasco rato quis que ele tivesse uma percepção do que se passava nos serviços de informações.

Vasco Rato diz que o apresentou a Pedro Passos Coelho a seu pedido.

O Vasco Rato certamente confundiu-se quanto a esse assunto…

Então como foi?

Nunca tive interesse claro em conhecer o Dr. Pedro Passos Coelho. Tive um almoço com ele no Gambrinus.

O que falaram nesse almoço?

Puramente sobre o sistema de informações. Antes de ir avisei o Dr. Júlio Pereira. A reacção não foi particularmente boa. Argumentou que estávamos num período político intenso e eu disse-lhe que a PSP e a GNR também recebiam os líderes da oposição para visitas institucionais.

Júlio Pereira receava que José Sócrates, que tutelava directamente os serviços, não gostasse.

Foi assim que eu li as suas reservas.

E pareceu-lhe que Pedro Passos Coelho percebia alguma coisa sobre serviços secretos?

Pareceu-me não particularmente vocacionado. É difícil ter um conhecimento específico sobre esta área. Mas demonstrou-se interessado.

Alguma vez José Sócrates tentou utilizar os serviços secretos em benefício próprio?

Isso tem de perguntar ao Dr. Júlio Pereira, não a mim. Não tive uma relação directa com o primeiro-ministro José Sócrates.

Era ele quem politicamente tutelava o serviço.

Sim, mas directamente nunca me tentou contactar.

Sentiu que alguma coisa mudou a partir do momento em que os serviços passaram a ser tutelados pelo primeiro-ministro?

Mudou o apoio. A grande vantagem de os serviços estarem com o primeiro-ministro é uma certa proximidade ao centro de decisão. Mas infelizmente há também uma perda de poder relativo em termos de negociação orçamental porque o primeiro-ministro é um primus inter pares, quando está num conselho de ministros tem de tomar decisões equilibradas entre ministérios. E por isso o PM tem muitas dificuldades em proteger os serviços de informações. Nos últimos quatro anos foram feitos cortes mesmo em coisas importantes para que um pais como nós, até na circunstância de fragilidade em que estamos, são importantes para nos manter íntegros como Estado e essa foi uma das questões de base na minha decisão. Sair dos serviços foi a decisão mais difícil da minha vida em termos profissionais.

 A UTILIZAÇÃO DUVIDOSA DE INFORMAÇÃO CONFIDENCIAL

É acusado de, já depois de ter entrado na Ongoing, ter continuado a receber dos serviços os resumos diários das notícias e de as reencaminhar para uma mailing list onde estavam altos quadros da Oingoing como Nuno vasconcellos, Rafael Mora, Vasco Rato ou José Eduardo Moniz. Isso é verdade?

Sim, é verdade. O que o MP entende é que eu deveria ter feito uma lobotomia, como se depois da saída dos serviços deixasse de ter qualquer ligação aos mesmos.

Não é suposto que quando se abandona os serviços não se partilhe este tipo de informação?

Porque é que é suposto?

Porque é informação pública.

É suposto eu não usar a informação erroneamente. Qualquer contacto que eu tenha tido com os serviços de informações foi sempre para tentar ajudá-los e, através disso, o Estado português. A minha opção de serviço público é uma opção de vida. Podia ter tido outras carreiras melhor remuneradas desde muito cedo. O Ministério Público parte de um pressuposto idiota porque eu estava num lugar em que segundo o MP eu tinha um conjunto de acessos e eu fui deixar esse lugar onde era relativamente inimputável pela funcão que exercia para quê?, para vir para um sítio e ficar a depender de contactos. Ninguém minimamente estruturado ou inteligente faria uma coisa dessas. Mais: conhecendo determinadas pessoas do MP que são supostos especialistas em corrupção, elas sabem perfeitamente que não é o modus operandi.

O que o MP diz é que havia uma intenção da sua parte de dar a entender às pessoas com quem trabalhava de que continuava a ter acesso a informação privilegiada.

Isso é a narrativa do MP. Se a comparar com a do Expresso é basicamente igual. Até os termos são os mesmos. Não sei quem contagiou quem. Se olhar a acusação ela podia ser reduzida a menos de um terço. O resto são especulações. Nunca violei o segredo de Estado nem o dever de sigilo. Prová-lo-ei  à exaustão.

O que o MP diz é que qualquer relatório interno do SIED está em segredo de Estado. Tendo em conta que o senhor terá divulgado um relatório interno sobre dois empresários russos…

Não é verdade e a acusação nesse aspecto é falaciosa e propagandística nesta perspectiva: juntam os quatro crimes de que sou acusado e montam-nos de forma a tornar indefensável ou a tornar a defesa cada vez mais difícil porque há situações que se referem a momentos em que exerci as minhas funções de director-geral, há situações que se referem a coisas que teria feito no período transitório e há coisas que dizem respeito ao tempo em que já estava na minha vida civil, se quiser. Entre a mentira e a verdade há várias tonalidades. Há a verdade desvirtuada, a verdade que pode ser apresentada de diferentes formas…  Voltando atrás, a história não começa no Público, começa com o Expresso e com o caso Bairrão. Depois, passado uma semana ou quinze dias vem uma notícia sobre mim com a história dos russos e outras completamente alucinadas mas que não são despropositadas. Eu ainda não tenho a certeza de que o Expresso tenha desvirtuado deliberadamente a informação ou se quem lhe enviou a informação ajudou a fazer uma leitura negativa da coisa. Tenho uma carta do director do Expresso em meu poder em que ele diz que não teve acesso a nenhum email meu. Alguns desses supostos emails são verdadeiros e aparecem fotocopiados no cacifo do deputado Sousa Pinto na Assembleia da República de uma forma até engraçada de descrever, sobretudo tendo em conta as relações humanas dos diferentes intervenientes.

A verdade é que as notícias que o Expresso publicou foram validadas pelo MP, que as confirmou na acusação. Ou seja, tudo indica que as notícias eram verdadeiras.

É precisamente por isso que eu digo que as duas narrativas se acompanham. Sou contactado pelo Expresso aquando da primeira notícia no final de Julho de 2011 por uma jornalista que eu até tinha em boa conta. Sou contactado na sexta-feira por volta das três, quatro horas. O jornal estava a fechar. Sou posto perante uma acusação gravíssima. O Expresso tinha aquela linha definida, pegou no que as suas fontes disseram e fizeram as notícias. Eu ainda não tenho a certeza de que o Expresso desvirtuou deliberadamente a informação ou se quem lhe enviou a informação ajudou a fazer uma leitura negativa da coisa. Tenho uma carta do director do Expresso em meu poder em que ele diz que não teve acesso a nenhum email meu.

Foi surpreendido pela busca que a Polícia Judiciária (PJ) fez em sua casa?

Naquele dia sim.

Não estava à espera?

Estava à espera até porque sei como as coisas funcionam.

Entre outras coisas a PJ encontrou na sua residência caixotes com listas com os contactos das antenas do SIED no estrangeiro. Porque é que tinha esse material em casa?

Isso é tudo especulativo…

Não é verdade que encontraram esse material?

Sim, mas nesta perspectiva…

E é verdade ou não que isso contraria as normas de segurança?

Não. Não vi os documentos, mas sei que não encontraram nenhum documento oficial. Quando saí do serviço deixei tudo. Até a caneta. Não voltei e fiz gala disso. Esse material foi-me enviado alguns meses depois. Já eu estava na Ongoing quando me foi entregue em casa pela segurança dos serviços como material retirado do meu gabinete. Esses documentos estavam na minha agenda de papel, que é uma agenda robusta. As minhas secretárias tinham acesso a ela e foram elas que juntaram tudo e meteram lá dentro. Não cheguei a ver os documentos mas penso que o que está em causa são documentos que eu próprio classifiquei. Ou seja, eram documentos que um director-geral tem à mão. Normalmente classificava-os como confidencial para me chamar à atenção. Estamos a falar de cinco meses depois de ter saído. Estavam na minha arrecadação!

O que esta a dizer é que não foi o senhor que os levou para casa; eles foram para lá enviados pelos serviços.

Sim. Quando os inspectores da PJ foram lá a casa abriram o lacre original e eu frisei isso junto deles. E são documentos no mínimo acessórios. Isto é um jogo e as pessoas dizem só o que querem dizer. Daí que quando vi a acusação tenha concluído que é claramente persecutória. No processo de inquérito nunca o MP me quis ouvir. Porquê?

Acha que a decisão de o acusar estava tomada desde o início?

Sim.

O MP elenca mais situações em que terá existido confusão entre as suas funções públicas e privadas. Uma delas respeita a um caso em que entre 10 e 21 de Dezembro terá pedido ao espião João Luís que recolhesse informação sobre um empresário madeirense. Para isso, ele terá consultado uma base de dados, a Dun & Bradstreet, e ter-lhe-á enviado esses dados. Isso é verdade?

Não me recordo em absoluto.

Foi uma das notícias do Expresso.

Sim, eu sei disso, mas não me recordo nem de o ter pedido, nem de o ter recebido do Dr. João Luís ou de outra pessoa qualquer do serviço. Agora, há uma coisa que lhe vou dizer: não conheço as pessoas descritas na notícia do Expresso, não me lembro de nenhum email, embora não diga que não haja.

O que a acusação conclui é que há dois emails, um direccionado para uma conta e outro para outra. E que as duas são suas.

O que o Expresso me diz por escrito é que não tem esses emails. Quando eu fiz uma queixa contra terceiros a dizer que tinha sido violada a minha privacidade e que alguém tinha feito um ataque electrónico ao meu computador, que por acaso era um computador que me tinha sido dado pelo serviço e que por acaso era mantido tecnicamente por alguém do serviço…

… Está a insinuar que esse ataque pode ter sido feito a partir do próprio serviço?

Não estou a insinuar nada. Estou-lhe a dizer duas coisas: o computador foi-me cedido pelo serviço, a operação de transferência da memória de outro computador que eu tinha para esse computador foi feita por pessoal dos serviços e a última manutenção foi feita por uma das testemunhas de acusação do MP.

Conhecendo tão bem os serviços secretos, e sabendo que tem inimigos lá dentro, nunca pensou que uma coisa dessas podia acontecer?

As palavras são suas. Não considero ninguém inimigo nos serviços.

Quando entrou para director-geral trocou pessoas de postos, fez novas nomeações e criou uma série de resistências.

Tudo o que diz foi feito com base em razões puramente técnicas, aconselhado pelo secretário-geral do SIRP, que formalmente foi quem fez as nomeações e exonerações.

O senhor era considerado de forma mais ou menos unânime o espião mais qualificado de Portugal. É estranho que o funcionário mais qualificado possa ser alvo de um ataque deste tipo. Não se precaveu.

Aceder ao computador de alguém é um crime grave, não é? Pensar que alguém – e ainda não quero acreditar que foi alguém dos serviços – que jurou um conjunto de princípios, vai infringi-los a todos com base numa putativa suspeita ou numa rivalidade pessoal…

Isso não é uma perspectiva ingénua por parte de uma pessoa com o seu perfil?

Não. Eu até admitiria que alguém que discorde do seu chefe e que acha que ele é uma pessoa nociva e corrupta pudesse cometer um crime para prevenir um mal maior e que depois fizesse queixa. Isso de alguma forma desculparia o comportamento criminoso. Mas o que aconteceu foi mais grave do que isso. Quanto aos emails que a procuradoria entende que existem, nomeadamente os dos russos, estamos a falar de um tempo mediado entre a minha saída, em Novembro de 2010, e o princípio de Agosto de 2011. Oito meses, no total. Alguém que está na posse de tal “bomba” imagino eu que tivesse ido imediatamente a correr falar com a Presidência da República, com a Procuradoria-Geral da República, com a PJ ou outra instituição… Curiosamente esses emails que dizem que existem –  e note, quem tem acesso a cinco ou seis como a Procuradoria descreve, tem acesso a todos. E portanto no meio de centenas de emails, seis foram escolhidos e vieram à superfície. E volto a dizer: em nenhum desses emails há qualquer tipo de passagem de informação para qualquer tipo de empresa privada, não só para a Ongoing. Esperaram oito meses.

E qual é a sua interpretação para que isso tenha acontecido?

Coincidentemente com a tomada de posse do novo governo.

Acha que é só uma coincidência?

O que lhe posso dizer é que as notícias surgiram e não é à toa que surgem no Expresso, que tinha um conflito com a Ongoing. Aquilo caiu como mel na sopa. O que quero dizer com isto é que a intenção de quem quer que tenha protagonizado essa actividade criminosa foi a de beneficiar o seu grupo e o seu sector numa lógica de jogo de poder do mais nocivo que existe.

Acha que as pessoas tiveram medo que o senhor, com a nomeação de Pedro Passos Coelho, voltasse aos serviços?

Sim, é natural. Eu fiz uma limpeza profunda nos serviços tentando acabar com estes grupos e tentando profissionaliza-los. Em nenhuma nomeação que eu tenha proposto ao secretário-geral estiveram critérios pessoais. A única pessoa que foi nomeada com base num conhecimento pessoal aprofundado foi uma pessoa que tinha 25 anos de experiência, que provavelmente é a que mais sabe sobre a actividade operacional dos serviços de informações. Foi o Dr. João Luís, que é das pessoas mais injustiçadas neste processo. Mesmo o meu director-adjunto, o Dr. João Bicho, é um quadro nado e criado no SIED com uma reputação a toda a prova como profissional dentro do serviço. Todas estas pessoas foram massacradas.

Como sabe eles são apresentados pelo MP como as suas toupeiras dentro dos serviços secretos.

O MP queria a todo o custo fazer uma acusação, que é uma coisa que eu não esperava do MP. Aceitou um conjunto de indícios como provas válidas. Pensei que quisesse procurar a verdade. Não procurou uma explicação da minha parte. Quando fui constituído arguido apresentaram-me quase o texto da acusação e aí entendi que não devia prestar declarações. Quando fiz uma queixa contra terceiros por causa da invasão do meu email nem me ouviram. Zero.

O RELATÓRIO SOBRE A VIDA PRIVADA DE PINTO BALSEMÃO

É complicado de aceitar que o MP acuse alguém de crimes tão graves como o da violação do segredo de Estado ou de corrupção de forma tão leviana como o senhor diz que aconteceu.

Não estou a dizer que foi leviana…

…o que me está a dizer é mais do que isso. Está a afirmar que não só a fundamentação é leviana, como a própria atitude da procuradora que conduziu o caso também o foi.

O termo adequado não é leviano, é persecutório, intencional. Leviano implicaria que não foi intencional.

Mas o que é que ela pode ter contra si? Não se conheciam, certo?

Não.

Mas acha que há uma agenda do MP contra si?

Acho que é uma agenda demasiado fácil. Você tem a maior empresa de comunicação social contra si, um inimigo da maior dimensão em Portugal, habituado a por e dispor em função dos seus interesses. Não tenho nada com o Dr. Balsemão, não tenho particular apreço pela sua figura histórica não o conheço nem tenho interesse em conhecê-lo…

 …terá de o conhecer agora porque o senhor acaba de ser pronunciado pelo crime de devassa da sua vida privada. Vão encontrar-se em julgamento.

O Dr.Balsemao quer fazer-se conhecer. Ele foi no mínimo precipitado neste processo. Veio a praça pública fazer acusações infundadas contra os serviços…

 …mas foi ou não o senhor que pediu um relatório sobre o Dr. Pinto Balsemão em que havia detalhes sobre a sua vida privada?

Não vou pronunciar-me sobre isso. Conheço o relatório, que estava na minha posse.  O que  lhe posso dizer é que não fui eu que o fiz.

Mas foi o senhor que o mandou fazer.

Aquele relatório assim não.

Então qual foi o relatório que encomendou?

No âmbito das minhas funções havia um conjunto de solicitações sobre stakeholders importantes envolvidos até em casos judiciais, e isso pede-se a empresas no mercado. Aliás, o Dr. Balsemão tem uma empresa no grupo Impresa que faz isso mesmo: recolhe informação em fonte aberta faz relatórios sobre pessoas, assuntos ou instituições.

Quando solicitou o relatório não pediu dados sobre a vida privada de Pinto Balsemão?

Não, aquilo que era solicitado habitualmente não era isso. Mas se há dados sobre a vida privada de uma pessoa em fonte aberta, na internet, é porque alguém os deixou ir para lá. O que o MP fez é uma interpretação talibã da lei, que não esperava. Devo dizer-lhe que acho o relatório do Dr. Balsemão um lixo.

Porquê?

E um documento que eu jamais escreveria, e se fosse alguém que trabalhasse para mim a fazê-lo nunca o faria naqueles termos.

O que e que está mal feito?

É um relatório formalmente errado, e uma justaposição de supostos factos.

 Eu li-o e o que me parece e que é uma elencagem de rumores.

Alguns serão rumores, que apareceram de alguma forma. Um jornalista do Crime que fez uma notícia sobre o assunto foi ouvido pelo MP e elencou claramente onde estão as fontes desse relatório.

 Quando o leu não lhe pareceu que era um documento irresponsável pelos boatos de natureza privada que continha?

Irresponsável não sei.

Irresponsável no sentido em que é uma pessoa com muitas responsabilidades na sociedade portuguesa, é um ex-primeiro-ministro, não é uma pessoa qualquer. Um relatório daqueles que seja tornado público pode ter danos reputacionais arrasadores sobre o visado.

O documento nunca foi tornado público. Quem o tornou público foi o MP por acção do processo penal.

 Mas é um perigo ter um relatório daqueles numa prateleira de uma empresa.

Um perigo porquê? O uso é que é negativo, não a sua existência. Se ler o que se escreveu na internet sobre mim nos últimos três anos, tem coisas doentias.

Nunca usou internamente o conteúdo do relatório enquanto administrador da Ongoing?

Hoje em dia nos negócios há um direito à privacidade mas também há um direito à informação. Você sabe que hoje não é apenas o cash flow que conta num negócio, não há nenhuma empresa que olhe para uma aquisição ou fusão que na olhe para quem são as pessoas que estão lá dentro, para os riscos reputacionais…

 …é exactamente esse o caso dos empresários russos por que responderá em julgamento.

Não tem nada a ver.

O princípio é o mesmo. A Ongoing queria saber quem eram duas pessoas com quem se preparava para fazer um negócio de mais de 300 milhões de euros.

Não posso falar sobre isso. Para mim das coisas mais sagradas – e só usarei isso se o primeiro-ministro me permitir – é a preservação das minhas fontes. Nunca ninguém se lembrou quando analisa esses casos de pôr as coisas ao contrário.

Como assim?

Você quando tinha um email ou um SMS de um processo, imagine que alguém lhe manda dez pecas informativas. Você como jornalista recebe dez informações, você depois devolve e dá orientações de acordo com os interesses da revista. Depois alguém isola um dos emails e acusa-o de andar a dar informações da revista a uma pessoa qualquer. E é sobre isso que eu não posso falar.

 A LISTA TELEFÓNICA COM A ORIENTAÇÃO SEXUAL DE UM CONTACTO

 Quando lhe foram apreendidos os seus telemóveis tinha neles fichas em que tinha informações sobre as convicções políticas, partidárias e aspectos da vida privada dos seus contactos, incluindo a sua orientação sexual. Arrepende-se ou não de ter feito este tipo de registos?

Estamos a falar do Outlook, de um programa que deve ser utilizado por umas oito milhões de pessoas em Portugal.  Uma vez mais é a interpretação talibã das coisas. Há coisas que fazemos à pressa no telemóvel por alguma razão. Mesmo para uma pessoa treinada, que no fundo regista para apagar depois e com a vida agitada acaba por não apagar. Estamos a falar de coisas que para uma pessoa com o ritmo de vida que eu tinha era difícil de me lembrar, mas que, quando são esmiuçadas a posteriori com intenção persecutória, até as virgulas são utilizadas. Se fiz isso em relação a alguém não é bonito. Nem sequer é alguma coisa que me desse alguma vantagem. Nada, zero. É-me absolutamente irrelevante a orientação sexual. Pelo contrário, precisava talvez como auxiliar de memória, para quando estivesse com essa pessoa não cometer uma gafe. Não procedi correctamente ao não ter apagado. Mas também não me lembro de ter lá qualquer tipo de dado confidencial.

Qual é a utilidade que tem para si o facto de na sua lista telefónica registar a orientação sexual de um político ou de quem quer que seja?

Eu tinha cerca de quatro mil fichas individuais em vários telefones. Não me lembro de quem era a pessoa sobre a qual haveria esse tipo de indicação. Mas se foi, foi apenas uma.

Não se lembra de quem era?

Não. O meu advogado disse-me que é um jornalista. Foi um disparate.

Não houve uma fase em que, enquanto director-geral do SIED, sentiu algum inebriamento pelo poder?

Nunca desmaiei nem me inebriei, nunca perdi a consciência.

 Nunca se deslumbrou?

Não, eu tenho uma pessoa em casa, que é a minha mulher, que é mais anti-inebriamento possível. Para além disso, sou filho de pais de classe média. Estou habituado a trabalhar para ter as minhas coisas, nunca me esqueço de onde vim. Sou muito realista. Gosto do sentir o Sol no fim do dia depois de ter transpirado na terra.

 A NOVA VIDA E O FUTURO

 Como está o processo da sua reintegração na PCM agora que o Supremo Tribunal administrativo lhe deu razão no processo que interpôs contra o Estado?

Estou a espera que a PCM me contacte para ser reintegrado. Acho que temos de manter um grau de humildade nestas coisas. Tendo em conta a campanha que me foi movida, eu estou perante um tipo de ofensiva mediática sem meios de defesa. Durante estes dois anos tive de respeitar aquilo que era o direito de exercício dos seus meios de defesa por parte do Nuno Vasconcellos. Foi ele que despoletou a instrução. Nunca existiu qualquer tentativa do Nuno Vasconcellos para me corromper. Mas isto sou eu a dizer. Não há. É muito injusto para ele. Preferia que ele tivesse saído do processo. Tem toda a minha amizade e solidariedade. Eu estou manietado desde muito cedo porque pedi ao senhor primeiro-ministro… não que tivesse grande gozo particular em usar a informação que tinha para me defender, eu preferia não ter sido atacado. Mas o mesmo Estado, o mesmo governo,  o mesmo secretario-geral do SIRP que com base numa interpretação mais ou menos pessoalística de uma suposta declaração que eu fiz numa entrevista, reencaminha o processo para a Procuradoria, no fundo não é mais do que sacudir a água do capote e eliminar um putativo rival para o lugar, segundo ele. Porque sendo magistrado do MP sabe que alguém que é envolvido num processo com este nível de incidência reputacional, mesmo que não venha a dar em nada, deixa de ser opção para qualquer tipo de cargo. Nos processos internos, ao que sei, o meu nome nunca foi envolvido. Se ler as declarações do Dr. Júlio Pereira na acusação, há uma em particular então que é absurda, quando diz que no inquérito interno não tinham meios para ter a certeza de que havia fuga de informação. “E então reencaminhamos para a PGR”. Foi a coisa mais feia que alguém já me fez. Porque alguém que trabalhou comigo, que me conhece profissionalmente a fundo, que me conhece pessoalmente, que esteve em minha casa, dar a entender que não apuraram nada mas não podia garantir que não tenha havido… Pois eu também não posso garantir que não tenha havido de uma série de coisas por parte de outras pessoas. Chama-se a isso a inversão do ónus da prova e o Dr. Júlio Pereira não hesitou em fazê-lo.

 Foi traído por Júlio Pereira?

Nesse aspecto sim. Completamente.

 E neste momento o seu regresso ao Estado e um embaraço para Pedro Passos Coelho.

Não sei. Não tenho qualquer relação com o primeiro-ministro. Como cidadão discordo de muitas das suas opções. Situando-me pessoalmente no espectro ideológico da social-democracia, eu sempre me situei no mundo das informações num âmbito suprapartidário. Há pessoas que confundem isso. Com este meu processo os serviços foram remetidos a sua menoridade.

 O que mudou na sua vida nos últimos dois anos?

Muita coisa. Este processo nunca me deixou fazer uma ruptura total com os serviços. Se alguém gostaria que isso acontecesse falhou. Aproximou-me de pessoas.

 Como é o seu dia-a-dia?

Estou muito mais tempo com a família, tem sido o mais importante. Finalmente consegui acompanhar os meus três filhos. Enquanto quadro dos serviços nunca tive muito tempo para lhes dedicar e hoje sou um pai presente, até demasiado. Também voltei a praticar actividade física….

… Desportos de combate.

Sim, voltei as artes marciais, ao judo, comecei há três anos a praticar kickboxing para recuperar fisicamente. Dediquei-me também a estudar. Era profundamente dedicado ao que fazia e não tinha tempo. Fiz várias pós-graduações a longo da vida muito à pressa porque a profissão não me dava muita disponibilidade. Enquanto alguns dedicaram muito tempo a estudar e menos a trabalhar, eu fiz o contrário. Agora fiz o mestrado, entreguei a tese, as coisas correram muito bem. Fi-lo na área da gestão, não tanto com o objectivo de procurar uma actividade profissional imediata porque tenho de ter em atenção o meu processo, mas tenho feito algumas coisas com amigos, com empresas…

 Tem feito consultadoria?

Sim, na área da gestão estratégica, internacionalização, novos mercados, que são áreas de que gosto muito, e na área da gestão do conhecimento.

 Acredita que algum dia poderá reconstruir a sua imagem depois deste processo?

Nao. A cem por cento não. Mesmo que seja totalmente ilibado em tribunal. Nos últimos vinte anos o meu caso foi o que mais primeiras páginas fez no Expresso. Mais do que a pedofilia. Em seis meses foram cinquenta por cento de assunto de primeira página. Apenas em dois números não foi focado. Há um colunista em particular, ex-director do jornal, que escreveu uma coluna violentíssima. Como era meu amigo no Facebook perguntei-lhe o porquê de tanta violência, em mensagem privada. Ele respondeu-me “para não levar o assunto pessoalmente”. Nem respondi. Bloqueei-o da mesma forma que fiz com Miguel Relvas ou Nuno Magalhães a seguir a uma ida dos dois ao Parlamento para falarem do meu caso. Há coisas que não se fazem!”

Já agora, fica aqui novamente a peça que editei para a CMTV

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