“A nova censura”

Este texto do João Adelino Faria foi publicado no Dinheiro Vivo a 26 de Abril. Escapou-me, confesso (desculpa JAF). Só agora o li. E como me parece uma reflexão importante, achei por bem partilhá-lo. Porque é certeiro.

“A nova censura

Comecei a escrever ao lado de jornalistas que lutaram contra a censura. Através deles, conheci o sofrimento por que passaram para impor um jornalismo livre e independente. Deles recebi a garantia de que a partir da minha geração nunca mais teríamos medo de relatar acontecimentos. Quase 30 anos depois de chegar a esta profissão, receio que se tenham enganado.

Nunca senti que um texto meu ou uma peça jornalística na rádio ou na televisão tivesse sido censurada ou condicionada. Algumas vezes tive de lutar, argumentar, barafustar, mas consegui quase sempre aquilo que considero ser isenção e independência jornalística. Acreditei por isso que a nossa imprensa era já totalmente livre. Passados 40 anos de democracia em Portugal começo a perceber agora que estava enganado.

Hoje pode não haver censura direta sobre textos ou reportagens mas nunca o jornalismo e os jornalistas estiveram tão condicionados. A censura sobre a comunicação social é agora bem mais perigosa e poderosa porque atua de forma indireta, silenciosa e camuflada.

Com a criação dos grupos de comunicação social surgiu uma verdadeira estratégia empresarial no produto jornalístico. Com ela vieram os avanços tecnológicos, maior profissionalização, mas também maiores receios e constrangimentos. Mais do que relatar e investigar factos, há agora que assegurar primeiro audiências e financiamentos. Com estas novas prioridades em mente, alguns jornais, rádios e televisões ficaram de imediato condicionados na forma como noticiam certos assuntos. Afinal, ninguém quer pôr em risco a próxima tranche de um empréstimo ou contratos com anunciantes. Para dar a volta ao problema, passou a ser necessário ardilosamente manter a aparência de isenção jornalística, enquanto se evita publicar notícias que belisquem interesses de financiadores ou acionistas.

Em época de crise, esta prática tornou-se ainda mais perigosa. O negócio dos jornais e televisões atravessa um dos piores momentos e por isso vale tudo para conseguir a entrada de capital. Há muito que se deixou de questionar a origem do dinheiro e, como consequência, fecha-se os olhos a algumas investigações jornalísticas. Ninguém proíbe nada mas a autocensura é bem mais eficaz.

Com a queda dos ordenados e a precariedade no emprego, muitos jornalistas da nova geração chegam à profissão já condicionados. Lutam por uma oportunidade num meio difícil, mas muita da energia e do vigor que deveriam aplicar às notícias são de imediato sugados pelo medo de perder o emprego. Para as redações hoje nem sempre entram nem ficam os melhores. Agora vencem muitas vezes os que não contestam nem ameaçam quem lhes paga os ordenados.

Lembro-me do Assis Pacheco, do Cáceres Monteiro ou do Fernando Dacosta me dizerem que eu não sabia a sorte que tinha em começar a ser jornalista com plena liberdade. Diziam-me isto enquanto olhávamos um desfile do 25 de Abril, era eu ainda aprendiz deles nos jornais. Hoje olho sozinho o mesmo desfile, vejo os mesmos cravos, escuto as mesmas canções, mas receio já não encontrar a mesma liberdade que eles nos ofereceram.”

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