O Observador, Mário Machado e o jornalismo

Ontem foi um dia feliz para a imprensa portuguesa: nasceu mais um Órgão de Comunicação Social (OCS). No caso, O Observador. Não quis comentar imediatamente o que vi. Por uma questão de prudência. E, sobretudo, para não ser injusto. Porque o primeiro impulso não foi o melhor. Para um OCS pensado e criado para o online, esperava um lançamento em grande. Algo absolutamente surpreendente que deixasse os leitores de boca aberta: um grande trabalho multimédia ao estilo Snowfall, uma infografia animada espantosa ou, no mínimo, uma mega manchete. E não encontrei nada disso.

Mas ao ler O Observador mais atentamente, encontrei muitas coisas boas. Gostei do explicador (algo que vou tentando fazer aqui de vez em quando). Gostei da linha no final dos artigos que sugere uma correcção ou uma dica. Gostei do contacto directo com o jornalista. Gostei da navegação. Gostei da coluna da Helena Matos. Gostei da transparência em relação aos accionistas. Gostei da reportagem multimédia da bebé que nasceu com a troika e que teve o azar de a Notícias Magazine fazer uma capa com um trabalho semelhante. Gostei da consistência global.

Ironicamente, o trabalho que depois da bebé da troika mais se assemelhou a uma verdadeira reportagem multimédia (apesar de faltarem os vídeos) acabou por causar polémica nas redes sociais: A história de amor entre um skinhead e uma menina de CascaisDesde que foi colocado online que o trabalho da Sónia Simões tem sido objecto de debate e escrutínio. Na maior parte das vezes, O Observador é criticado por estar a “branquear” o passado de Mário Machado. Não concordo. Apesar de existirem algumas falhas, o curriculo do mais conhecido skinhead português está lá. Há até toda uma cronologia dedicada ao seu passado criminal.

No entanto, a história tem alguns problemas. Que não são esses. O ângulo da reportagem é óptimo. É surpreendente. Mas num tema tão sensível como este – que despoleta as mais variadas reacções – não basta contar a história de como uma menina de cascais, socialista e benfiquista (não sei se esta parte está lá) se apaixona por um skinhead, defensor do nacional-socialismo e sportinguista. É preciso fazer-lhe algumas perguntas incómodas para que se perceba como é possível uma relação sem que se partilhem alguns ideais. Alguns exemplos: nunca pensou em deixar o seu namorado quando soube que ele andava a assaltar e a fazer raptos?; porque continuou o relacionamento sabendo que ele ameaçou pessoas e defende a supremacia racial branca? Ou confrontá-la com algumas coisas que ela escreveu na internet a defender o nacional-socialismo. Não sei se a Sónia Simões o fez. Acredito que sim. Mas o texto não o transmite. E deixa muitas questões no ar.

Sei que não é fácil fazer um trabalho do género. Na véspera de a Sónia fazer a entrevista dela no alto do Parque Eduardo VII, estive com o Mário Machado e a família num hotel em Peniche onde ele criou o novo partido “nacionalista”. Entrevistei-o. Falei com ela. Vi-o com os pais e os filhos. Sei como ele é um tipo educado, simpático e com uma postura completamente diferente daquela a que estamos habituados a associar ao líder dos skinheads portugueses. Ouvi, novamente, os elogios da Susana à sua postura como pai e marido. Uma pessoa absolutamente normal que, se não fossem as tatuagens, passaria completamente despercebida na multidão.

Mas quando comecei a passar a reportagem para o papel, parei inúmeras vezes para pensar: “estarei a branquear este gajo?” Apaguei o que tinha escrito mais do que uma vez. Recomecei a escrever. Voltei a fazer delete. Tentei um novo arranque. Sempre à procura da fórmula equilibrada entre transmitir o que ele representa e aquilo que ele quer demonstrar. Sim, escrevi que ele se casou na prisão. Que a mulher é socialista e benfiquista (e é conhecida por isso nos fóruns “nacionalistas”). Que estava a criar um novo partido inspirado no Aurora Dourada. Que o fez a partir da prisão. Que está a acabar o curso de direito. Mas também recordei os seus crimes e confrontei-o directamente com isso. Não sei se alguém achou que o estivesse a branquear. Espero que não. Também eu não acho que a Sónia Simões o estivesse a fazer. Apenas encontrou uma história interessante que merece ser contada – e que pode ser melhorada a qualquer momento. Se fosse comigo era o que faria: amanhã teria uma entrevista à Susana Machado a esclarecer todas as dúvidas. Porque o jornalismo é um work in progress permanente.

Para já, parabéns ao O Observador. Da minha parte, ganharam um leitor.

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