Jorge Coelho, a entrada na maçonaria e a desilusão

Jorge Coelho é dos políticos mais influentes dos últimos 20 anos. Sim. É. Como em continua a ser. Ainda hoje tem uma capacidade de interferir em decisões das mais altas esferas do país que não está ao alcance de muitos. Por isso, o Fernando Esteves passou os últimos anos a investigar e a reconstruir a vida de um homem que para muitos continua a ser um mistério. Da infância à entrada na política, da passagem por Macau à doença que quase o matou, da maçonaria ao mundo dos negócios. Está lá tudo. O Todo-Poderoso é um livro incontornável para se conhecer não só o homem como também os bastidores de muitas decisões que influenciaram o país – incluindo a forma como José Sócrates chegou à liderança do PS. Digo isto com especial orgulho: para além de trabalhar com o Fernando há mais de 10 anos, ele é um dos meus amigos mais próximos. Talvez por isso me tenha permitido publicar aqui um dos capítulos da sua obra: sobre a entrada de Jorge Coelho na maçonaria. Leiam, avaliem e comprem. Vão ver que vale a pena.

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“Capítulo XIII

O MERGULHO NA MAÇONARIA

Sentado numa câmara exígua e sombria, Jorge Coelho reflectia. Olhava para as caveiras humanas desenhadas nas paredes gastas da sede do Grande Oriente Lusitano (GOL), em Lisboa, enquanto tentava encontrar as palavras certas para registar os seus últimos pensamentos na qualidade de membro da sociedade «profana». Tinha sido conduzido à sala com os olhos vendados, depois de ter sido obrigado a dar várias voltas pelo palácio maçónico. As curvas e contracurvas confundiram‑no ao ponto de não saber exactamente onde se encontrava. Era esse o objectivo. Se quisesse fugir, não sabia para que lado correr. Restava‑lhe continuar.

Tinha alguns minutos. Sistematizou ideias. Avançou para a folha em branco. Colou a ponta da caneta ao papel e fez o que tinha a fazer. O momento em que finalmente assinou o «testamento maçónico» simbolizou a sua morte profana. O mestre‑de‑cerimonias – uma espécie de mordomo numa loja maçónica, encarregado de fazer cumprir escrupulosamente o ritual – surgiu à porta. Pediu‑lhe o testamento. Precisava de o partilhar com os seus irmãos, no sentido de perceber se Jorge Coelho reunia condições para ser aceite na família maçónica. Seguiram‑se mais uns instantes de reclusão. Até que o mestre‑de‑cerimonias voltou ao seu encontro.

Minutos depois, novamente de venda negra a cobrir‑lhe os olhos, com a perna esquerda das calças arregaçada e uma parte do peito completamente exposta, Jorge Coelho conseguia apenas distinguir sons, vozes e instruções dadas pelo Venerável Mestre – que presidia à cerimónia – da loja a que estava prestes a aderir como aprendiz. O cenário era intimidatório.

Na derradeira prova antes de poder ser membro de pleno direito do GOL, fizeram‑no dar três voltas completas ao templo. Sempre acompanhado pelo mestre‑de‑cerimonias, superou o teste. Pelo caminho, teve de ouvir barulhos violentos de espadas contra o chão e de malhetes a martelar em madeiras. Sentiu o calor do fogo nas mãos e a temperatura fria da água no corpo. Já com os percursos feitos – sempre da esquerda para a direita da loja, que é como quem diz das trevas para a luz –, mas ainda de olhos vendados, foi conduzido ao altar. Estava na altura de ser finalmente iluminado pela figura do Venerável. Tiraram‑lhe a venda.

O cenário era impressionante: dezenas de homens ornamentados com aventais de cores e disposições variadas, alinhados como numa parada militar, olhavam para si. Estavam ansiosos por recebe‑lo. Identificou algumas figuras que lhe eram familiares: João Cravinho, que foi seu colega no Governo; José Miguel Boquinhas, ex‑secretario de Estado da Saúde e seu grande amigo, ou Maldonado Gonelha, ex‑ministro da Saúde. Depois disso ainda apareceria João Soares, ex‑presidente da Câmara Municipal de Lisboa. À sua frente, o Venerável Mestre – Luís Nunes de Almeida, ex‑presidente do Tribunal Constitucional, entretanto morto – levantou uma espada que atravessava o testamento maçónico que o neófito escrevera antes de entrar. Acto contínuo, pegou‑lhe fogo.

Ficaram todos a assistir à transformação dos pensamentos do aprendiz em cinzas. O socialista era oficialmente membro de pleno direito de uma das organizações mais discretas do mundo. Jorge Coelho foi um maçon tardio. Seduzido a entrar no GOL, a maior e mais tradicional obediência maçónica portuguesa, por Maldonado Gonelha, nunca foi um «irmão» exemplar. Apesar do entusiasmo inicial, a sua taxa de comparência nas reuniões da loja sempre foi muito baixa. «Não tinha muito tempo. Entrei porque tinha curiosidade. Os meus amigos que lá estavam diziam‑me maravilhas da instituição e comecei a desenvolver a vontade de participar, na perspectiva do aperfeiçoamento pessoal.»

Ao contrário do que acontece com muitos dos aderentes à maçonaria, naquela altura Jorge Coelho não precisava da organização para nada. Já tinha sido tudo o que queria na política. Mas o contrário não era verdade: alguns membros da organizaçãoprecisavam de si, nem que fosse para ostentar – e tirar disso proveito junto de outros, quer no plano político quer no campo empresarial – a alegada «influência» que o estatuto de «irmandade» com o dirigente socialista lhes proporcionava.

Em Fevereiro de 2005, José Sócrates venceu, como se esperava, as eleições legislativas, derrotando um Santana Lopes profundamente desgastado pela sucessão de escândalos que ditou a convocação de eleições antecipadas por Jorge Sampaio. Com a maioria absoluta que obteve Sócrates, poderia fazer literalmente o que quisesse. O seu estado de graça era total.

No processo de formação de Governo deu que falar a alegada «varridela» sofrida pela ala maçónica do partido, na qual se incluía Jorge Coelho. Novas figuras como Pedro Silva Pereira, Freitas do Amaral (convidado para ministro dos Negócios Estrangeiros) ou Mário Lino estavam distantes de quaisquer rituais relacionados com a utilização de aventais e outro tipo de parafernália pouco ortodoxa. À boca fechada, os pedreiros livres criticavam o processo.

Numa escuta telefónica do Caso Portucale (uma investigação ao alegado tráfico de influências, dentro do Governo PSD/CDS, para a aprovação de um projecto imobiliário do grupo Espírito Santo), o dirigente do CDS Abel Pinheiro (responsável pelas finanças do partido e proprietário do telefone sob escuta) e Rui Gomes da Silva (ex‑ministro do Governo cessante de Santana Lopes), concordavam que os maçons estavam sob fogo cerrado de José Sócrates, que supostamente se encontraria empenhado em afrontar os «irmãos» do GOL.

Para Abel Pinheiro e Rui Gomes da Silva, as nomeações para o Governo deveriam respeitar uma quota maçónica. E, garantiu Abel Pinheiro, as escolhas de Sócrates mereciam a censura de muitos, incluindo a de Jorge Coelho. A transcrição da escuta, realizada no dia 6 de Março de 2005 entre as 16h15 e as 16h36, é reveladora sobre dois fenómenos: a leviandade com que dois maçons falam entre si sobre assuntos do Estado e a tentação da utilização do nome de outros para insinuar uma influência e um acesso ao poder que é muitas vezes ilusório:

Rui Gomes da Silva: Tou!

Abel Pinheiro: Rui!

Rui Gomes da Silva: Abel, como está?

Abel Pinheiro: Você está a descansar, já?

Rui Gomes da Silva: Tou, tou, estou a descansar.

(…)

Abel Pinheiro: Eles [o PS] vão dar cabo disto tudo, não é? (…)

Quando o professor Freitas [do Amaral] é ministro dos Negócios

Estrangeiros, isto revela variadíssimas coisas.

Rui Gomes da Silva: É.

Abel Pinheiro: Revela que o PS comprou um ministro.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Comprou, como se compra… vá lá, o queijo limiano, isto é o queijo limiano elevado ao cubo, não é?

Rui Gomes da Silva: Exactamente. Isto é o queijo limiano.

Abel Pinheiro: Bom, eu acho que isto é mau porque ninguém tem coragem de dizer que o Freitas é um vigarista! Tem de se dizer com todas as letras: «É um vigarista!» (…) E segundo: um ministério, um ministério, que um sujeito aceita ser ministro e faz as declarações que fez ao Expresso.

Rui Gomes da Silva: Ah, da carta a dizer que isto…

Abel Pinheiro: Aceitei ser ministro depois de saber a lista dos outros.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é uma vergonha para um primeiro‑ministro! Logo à cabeça.

Rui Gomes da Silva: É, é uma vergonha.

Abel Pinheiro: Quer dizer, um primeiro‑ministro que aceita um senhor ser ministro, diga «Diga cá os nomes a ver se me servem.» Ó meu caro amigo! Bom, isto é para pôr de lado, o senhor. Depois, quando você vê – disse‑me o Miguel Relvas que falou ontem… falou… falou‑me ontem, que tinha falado na sexta‑feira com o Jorge Coelho, que está em Paris a fazer tratamento.

Rui Gomes da Silva: O senhor está em que estado? Ai está pior, não é?

Abel Pinheiro: Ele foi fazer aquilo… não sei se está pior, mas tem… aquilo é recidivante, tem de fazer… pronto, coitado, tem de fazer o tratamento. E diz que o Coelho estava de cabeça perdida! Disse uma coisa logo. «Eles que não pensem que o Seguro vai ficar como líder parlamentar!»

Rui Gomes da Silva: Pois, porque ele… mas ouça lá! Ele fez isto como? Este Governo? Este Governo é uma vergonha, porque não (imperceptível) ninguém…

Abel Pinheiro: Mas ouça, eu acho o Governo, como disse o António José… como é que se chama? O gajo do Noticias do Porto?

Rui Gomes da Silva: António José Teixeira, sim.

Abel Pinheiro: Que não é do nosso lado, é do lado deles.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Disse aquilo que é definitivo: «Isto não é um Governo do PS, é um Governo do Engenheiro Sócrates.»

Rui Gomes da Silva: É, sim.

(…)

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é um Governo em que quem tem na prática o poder é o preto [António Costa], não é?

Rui Gomes da Silva: É, é.

Abel Pinheiro: O resto são histórias.

Rui Gomes da Silva: Olhe uma coisa, e maçonaria, não entra ninguém, pois não? Ele…

Abel Pinheiro: Quem?

Rui Gomes da Silva: Os gajos da maçonaria [estão] todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: Dizia o Nobre Guedes ontem lá no Conselho Nacional que este é o Governo mais anti‑clerical desde o 25 de Abril!

Rui Gomes da Silva: Eu acho… é o mais anti‑clerical e anti‑maconaria. O gajo mete os gajos da Igreja todos fora e da maçonaria todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: [o] que o torna muito vulnerável, não é!

Rui Gomes da Silva: Claro, sim.

Sobre esta escuta, Jorge Coelho limita‑se a dizer que «o senhor Abel Pinheiro tem uma imaginação muito fértil. Nunca disse nada daquilo, como é óbvio!»

Na Camões, o socialista era a figura mais proeminente. Ao contrário do que seria expectável, não foi colocado numa das lojas mais importantes do GOL. Poderia ter escolhido estruturas tradicionalmente ligadas ao poder, como as lojas Convergência, Universalis, República ou outras. Nelas poderia privar com figuras como Rui Pereira, ex‑ministro da Administração Interna; Miguel Relvas, ex‑ministro do PSD; ou Armando Vara, ex‑presidente da Caixa Geral de Depósitos. Não escolheu. Mais do que esticar o seu poder, procurava a afirmação de uma certa espiritualidade laica. Que acabou por não encontrar nos corredores do velho palacete situado no Bairro Alto. «Foi uma desilusão.» Resultado: actualmente não pertence à maçonaria. Pediu o «atestado de quite» há cerca de dois anos. “

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