O tráfico de pessoas nos média

Há alguns meses recebi um telefonema que me deixou mais ou menos perplexo. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras queria convidar-me para integrar um painel numa conferência sobre o Tráfico de Pessoas e a Criminalidade Transnacional. Segundo me disseram, ficaria integrado num painel com a Ana Sofia Fonseca onde iríamos abordar a forma como o tráfico de pessoas é abordado pelos média. Na altura aceitei. Mas quando tive tempo para pensar melhor no assunto fiquei a pensar se teria alguma coisa realmente interessante para dizer. A sensação de desconforto piorou um bocado quando recebi o programa com a lista dos participantes: Miguel Macedo (que acabou por cancelar), Maria José Morgado, Heitor Romana, José Vegar, Luís Neves, Francisca Van Dunen, José van der Kellen… No que me tinha ido meter. Tinha duas opções: esperar que os paineis anteriores fossem tão interessantes que a conferência atrasasse de forma a que quando chegasse a minha vez já não houvesse ninguém na sala (o que quase aconteceu); ou precaver-me e tentar preparar algo minimamente interessante para dizer. Saiu mais ou menos isto.

“Queria começar por agradecer o convite que me foi feito para estar aqui hoje. E dar os parabéns ao SEF pela organização deste ciclo de conferências.
Tal como a Ana Sofia Fonseca também eu não vou falar das questões concretas do trafico de seres humanos e muito menos de paradigmas de investigação. Não sou polícia. Nem magistrado. Sou jornalista. Vou por isso tentar dar-vos uma perspectiva sobre a forma como o tráfico de seres humanos é visto nas redacções. Para isso tinha duas opções: falar da minha experiência pessoal ou dar uma perspectiva mais geral e de enquadramento. Optei pela segunda. [Felizmente, já que a Ana Sofia Fonseca nos emocionou com o relato da sua experiência pessoal]
Sem querer ferir susceptibilidades, queria começar por dizer o seguinte: o tráfico de seres humanos é, jornalisticamente, um tema muito apetecível. Pela simples razão de que tem todos os ingredientes daquilo a que costumamos chamar uma boa história.
  1. Primeiro, é sobre pessoas. E o jornalismo, mais do que sobre declarações, políticas, estatísticas ou intrigas atinge o seu auge quando retrata a natureza humana. No melhor e no pior. São as histórias com dimensão humana [com gente dentro, como disse a Ana] aquelas que mais chegam aos leitores. Façam esse exercício. Tentem lembrar-se da reportagem que mais vos marcou nos últimos tempos e sobre a qual sentiram necessidade de falar com os vossos amigos ou familiares. Verão que não foi de certeza sobre o último congresso do PS ou do PSD. Foi, certamente, sobre algo que alguém viveu.
  2. Em segundo lugar tem aquilo a que podemos chamar de personagens chave: as vítimas. Normalmente pessoa fragilizadas com quem todos nos identificamos e a quem, como seres humanos, não conseguimos ficar indiferentes. Todos temos um irmão ou uma irmã. Um primo ou uma sobrinha a quem podia ter acontecido alguma coisa do género.
  3. Em terceiro, pode ter o que podemos chamar de enredo: um grupo organizado que subjugou alguém, durante determinado tempo, para alcançar um objectivo. E isso foi feito com recurso a estratagemas, enganos e até mesmo à violência.
  4. Por últimotem também os chamados heróis: vocês. As autoridades. Os inspectores do SEF, da polícia judiciária ou os agentes da PSP que conseguiram desmantelar a organização e libertar as vítimas.

Mesmo sem ter uma base científica – embora fosse interessante fazer esse estudo – julgo que se pode dizer que, nos últimos anos,  as notícias sobre o tráfico de seres humanos têm ganho um maior destaque nos meios de comunicação social. Praticamente todas as semanas são publicadas notícias sobre o fenómeno. Ainda ontem a manchete do Diário de Notícias era sobre o tráfico de menores. Algumas são  baseadas em dados estatísticos divulgados pelo relatório de segurança interna ou em documentos de organizações não governamentais. Mas, mais frequentemente, para não dizer quase sempre, elas sãofeitas com base na acção das autoridades. Seja porque uma rede de trabalhadores ilegais foi desmantelada e essa acção comunicada pelas policias, seja porque houve uma acusação do ministério público ou então porque começou ou terminou o julgamento dos membros de um grupo.

Mas – e digo isso com grande pena – muito raramente essas notícias são elaboradas com base naquela que devia ser uma das principais funções da comunicação social: investigar e denunciar. Infelizmente a crise que atingiu todos os meios de comunicação social sem excepção faz com que seja muito mais fácil e barato andar atrás do trabalho das policias em vez de levar as policias a andar atrás do nosso trabalho. Porque isso implica um investimento de tempo e dinheiro sem retorno garantido. O último caso de que me lembro de uma denúncia feita por um jornalista de situações de tráfico de seres humanos nem sequer foi feita por um repórter português: foi feita pelo António Salas que esteve um ano infiltrado nas redes de tráfico espanholas e que encontrou ramificações com Portugal, com mulheres a circularem entre bares e casas de alterne nos dois lados da fronteira.
De resto, recordo-me dareportagem da Ana que teve o grande mérito de conseguir falar com vítimas e envolvidos nos esquemas de imigração ilegal tanto em Portugal, Brasil e Roménia. Mas também ela,  e corrige-me se estiver enganado Ana, acabou por acompanhar uma investigação do SEF a uma rede de trabalhadores agrícolas. Há uma falta de investimento na investigação destes temas isso é uma pena.
No entanto, a relação dos média com o tráfico de seres humanos não se esgota na capacidade de atracção que estas histórias exercem sobre os jornalistas e sobre o público. Ou na sua denúncia. Pelo contrário. Os órgãos de comunicação social tem uma importância fundamental na divulgação e denúncia destas situações. Para que esquemas necessariamente secretos saiam das sombras e sejam conhecidos pelo público em geral. Para que opinião pública se indigne e não permita que tal continue a acontecer. Para que, no mínimo, fique atenta ao que se passa à sua  volta e também ela denuncie eventuais casos de abusos.
É claro que há aqui dois tempos diferentes, que em muitos casos não são compatíveis: o tempo da investigação, necessariamente mais lento e cauteloso, e o tempo mediático, obviamente mais voraz e ansioso por manchetes e histórias exclusivas. Há pouco, o dr. Luís Neves referiu-se a um caso concreto dessa incompatibilidade. Uma notícia publicada na semana passada sobre o regime de protecção de testemunhas em que era mencionado um caso concreto de uma pessoa que se envolveu com traficantes de droga colombianos e pediu protecção ao Estado. Não tencionava falar sobre isso, mas como fui um dos jornalistas que assinou essa peça tenho de o fazer.  Sobretudo para salientar uma coisa que o dr. Luís Neves também disse: que os jornalistas estavam apenas a fazer o seu trabalho. Não havia qualquer objectivo de prejudicar uma investigação. Apenas se queria relatar factos verdadeiros que tem interesse público.
Ou seja, é importante que jornalistas e investigadores percebam que cada um está a fazer o seu trabalho e o façam de forma honesta. É importante também que percebam que o nosso trabalho não é totalmente incompatível. Os investigadores querem acabar com o sofrimento das vítimas. Os jornalistas também. Os investigadores querem impedir que outras potenciais vítimas passem pelo mesmo. Os jornalistas também. Os investigadores querem denunciar situações de ilegalidade. Os jornalistas também. Porque em ultima instância, para além de o nossos trabalhos se cruzarem em muitos pontos, trabalhamos todos para os mesmos: os cidadãos e cidadãs – que são também os nossos leitores.
Obrigado.
A prova: Ana Sofia Fonseca; Ana Isabel Xavier e um "intruso"

A prova: Ana Sofia Fonseca; Ana Isabel Xavier e um “infiltrado”

3 thoughts on “O tráfico de pessoas nos média

  1. Muito sinceramente, acho que mereceu o convite e aqueles que saíram da sala perderam muita coisa. Se alguém pedir-me que indicasse um jornalista português para falar do assunto, eu não hesitaria em indicar-lhe. Pode-se fazer mil investigações, prender e julgar os criminosos mas se os jornalistas não cumprirem o seu papel esses trabalhos ficam como um zero na sociedade. Nisto tenho que lhe dar os parabéns! pelos trabalhos aqui publicados, como os outros na revista Sábado. Aliás, este blog faz trabalho que muitos jornais não fazem no que refere aos direitos humanos, actualidade e o mundo digital da nossa era. Resta-me desejar-lhe vida, saúde e paz para continuar!

  2. Pingback: O tráfico de pessoas nos média | PINN

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