Nos bastidores da campanha socialista

Durante quase 10 anos o Gonçalo Bordalo Pinheiro foi director adjunto da Sábado. Depois de deixar a revista, não fez questão de se manter entre aqueles que pensam que um jornalista, depois de chegar a director, não volta a ser jornalista. Pelo contrário. Durante quase um mês acompanhou para o Observador a campanha do PS. Teve um acesso privilegiado a Francisco Assis, quando comparado com os restantes repórteres. A condição foi só uma: só publicar no final da campanha. O resultado é um texto fantástico, cheio de detalhes sobre a forma como a campanha se desenrolou e que permite perceber o caos interno do partido – e também o fraco resultado eleitoral. Só um apontamento: devia ter sido publicado há mais tempo. De qualquer forma, estão de parabéns. O Gonçalo e o Observador.

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“A vitória que fez implodir o PS

por Gonçalo Bordalo Pinheiro

Eram 10h da manhã. O dia 19 de maio era importante para a campanha do PS. Francisco Assis estava sentado ao sol na esplanada de uma estação de serviço perto da Figueira da Foz, com as pernas esticadas em cima de uma cadeira de plástico. O diretor de caravana tinha ligado para o seu carro há cerca de meia hora a mandá-lo fazer uma “paragem técnica”. O barco que iria descarregar o peixe na lota estava atrasado e ninguém queria fazer esperar o cabeça de lista do PS às eleições europeias – pelo menos, esperar em público, à frente das câmaras de televisão.

Enquanto Assis, a sua mulher, o motorista e os dois assessores bebiam vários cafés ao sol, o Audi A6 de António José Seguro parava na lota da Figueira da Foz. Lá dentro levava uma impressora portátil para imprimir documentos de última hora, fruta, barras energéticas e um frasco de álcool gel para o líder do PS poder desinfetar as mãos depois das arruadas.

Era o primeiro dia do secretário-geral do PS a 100% na campanha. No sábado, o Expresso tinha noticiado que as sondagens internas da Aliança Portugal indicavam que a distância entre as duas forças políticas estava a encurtar. A notícia não era nova para os socialistas. Na sexta-feira à noite, o presidente de uma concelhia já tinha telefonado para um elemento da coligação e recebido as novidades antecipadamente: o partido estava há quatro dias consecutivos a cair nas projeções e o PSD a subir.

Pior: o Governo de José Sócrates estava a ser o centro do debate eleitoral – Paulo Rangel não desistia de puxar o tema. Pior ainda: Marinho e Pinto estava a crescer nas intenções de voto – todos esses eleitores deveriam vir da área do PS. Era o momento de apostar tudo e recentrar a campanha nos últimos anos do Governo PSD/CDS e não em José Sócrates. Não podia haver mais falhas. Mas houve.

A MÁQUINA DO PARTIDO

António José Seguro saiu do carro vestido com umas calças beges claras, uns sapatos de camurça cor de camelo, um blazer azul escuro e uma camisa justa, impecavelmente engomada. Olhou à sua volta, sorriu mas não viu Francisco Assis. A direção de campanha tinha avisado Assis para esperar, mas não conseguira telefonar a Seguro para fazer o mesmo – nem ele nem o motorista haviam atendido o telefone.

Agora Seguro estava ali na lota, com a sua maquilhadora, com a sua assistente pessoal, com a sua assessora que lhe atualiza o perfil no Facebook, com o seu fotógrafo, com o seu chefe de gabinete, com a sua assessora de imprensa e com um reforço de militantes da JS – mas sem o seu candidato ao Parlamento Europeu. Em poucos minutos teve de decidir se esperava que Assis chegasse ou se avançava sem ele. Avançou. E errou.

A equipa de reportagem da SIC começou a filmar os telefonemas dos responsáveis da campanha a mandarem o carro de Francisco Assis avançar “rapidamente”. Depois, os jornalistas perceberam que Assis tinha chegado à porta errada da lota e voltado para trás, que Seguro tinha parado a visita a meio quando viu que toda a gente já sabia do desencontro e especialmente que o candidato do PS tinha chegado 27 minutos depois do líder do partido por causa de um erro de comunicação.

Quando saiu da lota em passo apressado para fugir da chuva, Seguro estava furioso. A SIC haveria de fazer uma notícia sobre a confusão e isso abalava a imagem de competência do partido. Para mais, começara a chover e a visita programada à feira de Soure teria de ser cancelada. O dia estava a ser uma desgraça.

Seguro mandou parar o carro num bar, que abriu as portas propositadamente para o receber, enquanto a caravana avançava para preparar o almoço na sede da banda filarmónica local. O que se passou a seguir foi várias vezes comentado na campanha:

Os motoristas ficaram à porta e o líder do PS chamou o seu chefe de gabinete. À frente de vários assessores, começou aos gritos com Miguel Ginestal por causa do caos da organização da campanha. O tom dos berros foi de tal forma elevado que os presentes ficaram incomodados com a cena.”

O artigo completo está aqui.

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