Leitura para o feriado: “A vítima perfeita”

Foi há 19 anos. Alcindo Monteiro, um português de origem cabo-verdiana, foi espancado até à morte por um grupo de skinheads, na Rua Garret, em Lisboa, depois de uma série de confrontos que começaram no Bairro Alto. Esta semana, o Observador publicou uma excelente reportagem escrita pelo Fábio Monteiro que reconstitui detalhadamente os acontecimentos dessa noite e que serve para refrescar a memória a muitos de nós que vamos mesmo ao ponto de escrever de forma errada o nome da vítima.

O tema é sensível, sobretudo depois da polémica causada pela publicação recente da reportagem sobre a relação de Mário Machado com uma militante socialista. É por isso mesmo que, apesar dos muitos méritos desta reportagem, me parece que ela tem uma falha: não explica qual o papel de Mário Machado nos confrontos, nem diz se ele participou nas agressões que levaram à morte de Alcindo Monteiro. Diz apenas que ele foi preso no Cais do Sodré com a namorada, que hoje está arrependido e se prepara para fundar um novo partido. Não inclui sequer a pena a que foi condenado [dois anos e seis meses]. E isso é grave, apesar de a leitura valer muito a pena.

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A vítima perfeita

Entre 1995 e 1997, o nome Alcindo Monteiro fez manchete inúmeras vezes dos jornais portugueses. Passados 19 anos, foi só isso que restou: um nome, muitas vezes escrito de formaerrada. Uma memória a dissipar-se e silêncio. Quem foi a pessoa no epicentro de uma mudança tão importante na realidade portuguesa?

I

Pirilampos brancos e vermelhos, apressados. Lisboa, madrugada do dia 11 de Junho de 1995. Domingo. As ambulâncias pareciam andar num carrossel e não paravam de chegar desde a uma e meia da manhã ao hospital de São José. Andavam em círculo, entre as ruas do Bairro Alto e o Martim Moniz. A cada cinco ou dez minutos voltavam com novos pacientes. Apareciam a cambalear, ajudados pelos enfermeiros ou acompanhantes, em macas ensanguentadas, com hematomas em forma de punho ou cilíndricos. As faces de alguns estavam desfiguradas, os narizes partidos. Num caso notavam-se mesmo falhas no cabelo, aparentemente arrancado à força, e a nuca amolgada – como uma bola de futebol furada que fica com a forma do pé quando pontapeada. Contavam-se 10 indivíduos agredidos, todos negros.

Pouco antes das três da manhã, a polícia trouxe um décimo-primeiro também para receber cuidados. Um homem branco. No hospital de S. José, na zona do Martim Moniz, ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer, mas também não se estranhava porque vinha do sítio do costume: o Bairro Alto. Uma noite de confusão, era só mais uma noite. O código das ruas ditava que, em caso de zaragata, se entrasse em tudo o que fossem portas abertas, fechando-as atrás de si. Em último caso ir a correr para o Cais do Sodré. A maioria das vezes eram escaramuças ligeiras, embebidas pelo álcool, que não chegavam a ser noticiadas.

Naquela noite foi diferente. À primeira vista, os feridos tinham estado envolvidos em cenas de pancadaria. Nalguns conseguia mesmo distinguir-se, a olho nu, marcas de soqueiras e objectos redondos, no corpo. Um dos registos clínicos era especialmente dramático em comparação com os outros.

Lia-se no relatório médico: “Hemorragias sub-pleurais e sub-endocirdicas; edema pulmonar; graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas; lesão no tronco cerebral; edema cerebral muito marcado; fractura da calote craniana.” Dias mais tarde, Jorge Sampaio, presidente da Câmara Municipal de Lisboa na época, lançaria a pergunta: “Como é que é possível que a 500 metros do Governo Civil nada aconteça durante estas duas horas?”

O paciente Alcindo Monteiro, português nascido em Cabo Verde, tinha 27 anos e foi encontrado sem sentidos na rua Garrett, em frente à montra da loja da Gianni Versace. O corpo do homem era tão franzino que dava para imaginá-lo a levar uma lambada e a rodopiar sobre si próprio. Nos bolsos, Alcindo tinha uma carteira cinzenta. Lá dentro, estava um bilhete de identidade português, algum dinheiro e uma agenda de contactos amarrotada. Na primeira página da agenda estavam escritos os dados pessoais.

Era 1h16min da madrugada quando, na linha de emergência pública nacional – o número 115 – começaram a chover denúncias, mais uma vez, da barafunda no Bairro Alto, principalmente nas ruas da Rosa, Atalaia e Diário de Notícias.

Nessa noite, a maioria das forças de segurança estava concentrada entre o Rossio e a Avenida 24 de Julho. Os cachecóis verdes e brancos e as bandeiras leoninas levantavam-se bem alto, pelos adeptos sportinguistas. Afinal, passados 18 anos desde a última conquista da Taça de Portugal, acabaram por vencer, num jogo em que o avançado Iordanov fora o herói.

A televisão pública, que tinha transmitido a partida de futebol durante a tarde, filmava agora o banho da vitória de alguns dos membros da claque Juve Leo, mergulhados no fontanário, alheios ao que se passava a poucos quarteirões de distância. Já todos os feridos estavam no Hospital de S. José quando a polícia reagiu, às 2h30 da manhã, e capturou nove indivíduos – sete rapazes e duas raparigas –, diante do nº32 da Rua D.Luís I, uma rua paralela à avenida 24 de Julho, não muito longe do Cais do Sodré.

Identificar os agressores foi fácil. O modo como se vestiam e a aparência física denunciou-os: as calças de ganga curtas e dobradas no fundo, para mostrarem as botas de biqueira de aço – na maioria da marca britânica Doc Martens e Sendra -, as t-shirts e calças com padrão camuflado, blusões negros, e o cabelo rapado – um suposto sinal de limpeza.

Dos nove detidos, dois eram militares no activo: Mário Machado, 2º Cabo da Polícia Aérea da Força Aérea Portuguesa; Nuno Monteiro, soldado do exército português. Outro era natural de uma ex-colónia portuguesa, Moçambique: Nuno Cláudio Cerejeira, escriturário no Aeroporto de Lisboa; um outro da Venezuela: Nelson Silva, empregado de balcão. Os restantes: Nuno Themudo, vigilante nocturno; Jaime Hélder, mecânico de frio; Alexandre Cordeiro, estudante. No grupo estavam também duas raparigas, namoradas de Nuno Monteiro e Mário Machado, ilibadas de todas as acusações passados seis meses.

Manuel Dias Loureiro, na altura Ministro da Administração Interna e responsável pelas forças de segurança, afirmou dias antes do 10 de Junho, que tinha “este tipo de grupos sob controlo.” Até ao mês de Novembro de 1995, foram detidos mais 10 indivíduos. José Lameiras, empregado num minimercado; Hugo Silva, repositor de estoques; João Martins, estudante; Ricardo Abreu, desenhador gráfico; José Paiva, vigilante; Jorge Martins, estudante; Tiago Palma, estudante; Jorge Santos, ajudante de motorista; Nelson Pereira, electricista; João Homem, montador de peças.

Às 8 da manhã do dia 11 de Junho de 1995, todas as rádios nacionais falavam, ainda sem grandes certezas, do que tinha acontecido no Bairro Alto e esperavam que não se tratasse de um novo 28 de Outubro de 1989, data em que um grupo de skinheads esfaqueou José Carvalho, dirigente do Partido Social Revolucionário (PSR). Alcindo Monteiro estava em coma.”

O artigo completo está aqui.

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