Leitura para o feriado: Os estrangeiros que mandaram em Portugal

A Sara Capelo não é só a benjamim da secção de política da Sábado. É também uma das mais talentosas e versáteis jornalistas que conheço. Não sei como ela consegue mas, entre as mil e uma coisas que ela faz na revista todas as semanas, a tese de mestrado e as aulas da mandarim, conseguiu ainda escrever Os estrangeiros que mandaram em Portugal, um livro sobre os sete governantes internacionais que estiveram à frente dos destinos do nosso País antes da chegada da troika: Filipe I, Cardeal Alberto, Diogo de Silva y Mendoza, Margarida de Sabóia, Junot, Wellesley e Beresford.

Para além disso, é tão – mas tão – simpática que me deixou publicar aqui o excerto do capítulo sobre Wellesley. Leiam que vale a pena. E para quem quiser, ela vai estar hoje, sexta-feira, a dar autógrafos e pronta a falar sobre a história de Portugal na feira do livro de Lisboa, às 16h30, na editora Matéria Prima.

1507-1

“Wellesley

A preparação da defesa da capital continuava. O plano: deixar os franceses descer até perto de Lisboa, mas não conseguiriam passar dali. E estariam tão debilitados com a falta de víveres, que não teriam forças para lutar. Para enfraquecê-los a este ponto, [Wellesley] mandou que os portugueses esvaziassem as suas casas e queimassem as suas colheitas. Aqueles que se recusassem, seriam enforcados.

[…]

No dia 7, o padre Feliciano José Alves Ferreira realizou a última missa em Vale de Pinta. Foi um espectáculo de dor: o povo chorava, gritava, pedia a salvação a Deus. E, depois, o silêncio. A partir dessa tarde, os sinos das igrejas de Santarém praticamente deixaram de tocar. Durante cinco meses, escreveu o oficial inglês, John T. Jones, duas mil milhas do território português ficaram quase desabitadas (Rita 2010, 46; 49). Os frutos e cereais produzidos entre a Chamusca e Samora Correia foram enviados para a capital. Quase nada ficava para que os inimigos se abastecessem.

****

Quando chegaram perto de Torres Vedras, a visão das linhas deve ter espantado os franceses. Um mês ficaram ali, com o seu chefe supremo a admitir que aquela construção era intransponível. Pelo menos com o número de homens que tinha. Massena pediu reforços e mais artilharia. E depois deu ordens para que os seus homens recuassem até Santarém, onde os soldados esfomeados e, provavelmente, enraivecidos pela espera, cometeram crimes terríveis. Nas povoações tinham ficado os que não conseguiam andar para fugir ou não tinham transportes para carregar os seus bens e não os queriam abandonar. As casas foram queimadas. Os potes de barro lá deixados, partidos. Os bens mais preciosos roubados. E até as octogenárias que se encontravam acamadas eram estrupiadas.

Mesmo as raparigas e mulheres que se escondiam nos campos e comiam figos e bagas de uvas eram encurraladas pelos soldados que as violavam. Os padres eram encontrados escondidos com famílias em cavernas. Os homens que eram apanhados, eram obrigados a carregar alimentos até onde os soldados mandavam. Muitos iam nus e descalços para divertir a tropa. E se não conseguissem (ou mesmo que cumprissem a função tal como mandavam) eram açoitados:

– Jumento francês, dá-me o argent senão eu mato-te!

Manoel Paschoal foi morto com uma pistola por não lhes dar dinheiro. Ao leproso Francisco Coelho, que há anos causava comoção entre os seus vizinhos pelo seu aspecto, arrancaram as orelhas (ainda ele estava vivo!) por ser incapaz de carregar bens. Depois, cortaram-no em pedaços com uma espada. Os corpos ficavam ao ar-livre e logo eram devorados pelos cães. O ar estava infecto.

[…] Os soldados ingleses e portugueses também cometiam crimes: arrancavam e queimavam portas, janelas, móveis; roubavam o gado; tiravam os poucos bens que os coitados dos migrantes forçados tinham conseguido carregar com eles e só os devolviam a troco de dinheiro. Beresford mandou que estes militares-ladrões fossem julgados. Wellington confessou vergonha por estes comportamentos: “As tropas britânicas têm a este respeito, em muitas ocasiões, causado mais prejuízo do que o inimigo”.

Entretanto, os franceses desenvolviam um plano de ataque às tropas sediadas nas Linhas de Torres. Desde Outubro que trabalhavam na construção de uma ponte flutuante que lhes permitisse atravessar o Tejo, obter víveres na outra margem e atacar o flanco inimigo. Neste período de espera, eram cada vez menos os franceses. Muitos desertavam: 1.600 chegaram a fugir de uma vez, comandados por um general que os levou a roubar e cometer outros crimes na zona oeste. Estavam em roda livre estes franceses, que para evitar a fome, até cães comiam. Outros morriam com a febre tifóide, que se propagava sem amarras entre os organismos destes homens, enfraquecidos pela falta de comida e de condições de higiente e pelo frio. Eram as condições ideais para esta epidemia, que também atacou os portugueses. Os medicamentos escasseavam. O povo quedava-se de fome, frio e de tifo. Ao que estava destinado: se não a morrer às mãos do inimigo, a perecer por causa do aliado.”

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