Como?

Como se despede alguém? Melhor: como se escolhe quem deve ser despedido? Quais são os critérios objectivos? Eles existem? Vão embora aqueles que ganham mais? Vão os que não produzem? Vão aqueles que recusam fazer favores? Vão os que não passam todos os dias no gabinete para dizer olá? Vão os amigos? Os inimigos? Aqueles por quem a chefia nunca teve especial simpatia? Vão os calados? Os tímidos? Vão os barulhentos? Os atrasados? Os que cheiram mal?

Como se despede alguém? Em teoria é simples. A administração de uma empresa decide que é preciso cortar custos, estabelece um valor e encarrega a direcção de um jornal – porque é disso que se trata – de o atingir. Isso pode ser feito de várias formas: reduzir a dimensão do papel e alterar a sua qualidade para pior, diminuir o número de páginas, cortar colaboradores externos, etc. Quando nada mais resta, só há uma solução para diminuir custos fixos: cortar salários. Ou seja, despedir pessoas.

Em seguida os directores reúnem-se e fazem uma lista daqueles a dispensar. Não importa quanto tempo das suas vidas elas deram àquele jornal. Quantas horas perderam em prol de uma notícia, uma reportagem, uma crónica. Quanto tempo roubado à familia ali foi investido. Quantas vezes os filhos ficaram por deitar porque o fecho atrasou. Quantas noites foram passadas fora de casa. Não. Há um número a atingir. Houve uma ordem. É preciso cumpri-la. E salvar o próprio lugar.

Como se despede alguém? Faz-se uma ronda pela redacção e pinta-se um alvo nas costas dos jornalistas? Fica-se a olhar através dos vidros de um gabinete para o que se passa lá fora e decide-se em função de quem parece estar menos ocupado? Aquele que está no Facebook?

Como se despede alguém? Como se opta conscientemente por enfraquecer um jornal? Como é que se consegue dizer aos leitores que aquelas páginas vão continuar a ter a qualidade suficiente? Como se pode garantir que aquele órgão de comunicação social vai continuar a cumprir os seus deveres de informar, vigiar, denunciar? E nós? Como é que podemos ficar calados enquanto continuam a pregar pregos no caixão do jornalismo?

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2 thoughts on “Como?

  1. Bem-vindos à realidade da maioria dos portugueses… sujeitos a todas as arbitrariedades possíveis em nome de uma imaginária eficiência e um ainda mais fictício mérito.

  2. Pingback: Como? | PINN

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