O plano quase perfeito para derrotar os EUA

O plano era perfeito. Saía de Lisboa às 13h20 e chegava ao aeroporto de Newark às 16h20 locais. Mesmo a tempo de ver o jogo entre Portugal e os Estados Unidos. Maravilhas da diferença horária. Estava tudo previsto: apanhava um taxi para Manhatan, deixava a mala no hotel, seguia de metro até Times Square e via a partida num ecrã gigante, pronto para agitar o cachecol e gritar alto e bom som quando aviássemos os gringos. Afinal, eles acham que futebol é um jogo que se joga com as mãos e o corpo.
Mas – há sempre um mas – nada aconteceu conforme planeado. A começar em Lisboa. Não, não houve um furacão. Não, não houve uma erupção vulcânica que cobriu os céus com uma cinza assassina. O avião nem sequer se atrasou vindo de outro local qualquer. Aliás, quando cheguei à porta de embarque com a antecedência necessária ele já lá estava estacionado. Só que ao contrário do que seria expectável não partiu à hora prevista. Passava das 15h30 quando o voo levantou – sem grandes explicações por parte da TAP.
Times Square estava fora de jogo. Restava um ecrã qualquer. Pouco depois da aterragem o comandante informava – com “honra” – que Portugal ganhava um a zero. Entre saír, atravessar os controlos fronteiriços, recolher a bagagem e apanhar um taxi a segunda parte estava a começar. A meio do caminho o motorista resolve alterar o preço e parou na berma da auto-estrada para eu decidir se continuava ou voltava para trás – claro que teria que pagar a corrida de regresso. Estávamos a discutir se as portagens estariam incluídas no preço quando os EUA empataram o jogo. A notícia chegou por SMS. Ao que parecia, não estava a perder grande coisa.
Acabei por fazer as pazes com o motorista, um haitiano simpático chamado Serge que vive há 29 anos nos EUA. Tinha acabado de regressar do seu país onde passou duas semanas numa reunião alargada de família. Viajou com a mulher, filhos, sobrinhos, cunhados e irmãos. A mãe, de 84 anos, também foi. Para a proteger, não lhe contaram que um sobrinho que vive no país morreu recentemente. Disseram-lhe que ele estava a tirar um curso de formação no Canadá. Ela acreditou: “não vale a pena preocupá-la”.
Quando lhe contei que vinha de Portugal, ele disse duas coisas. A primeira: “O jogo está empatado a um.” A segunda: “Tenho um sobrinho que casou com uma portuguesa e vive em Portugal. Conheceram-se na República Dominicana. Estavam os dois a dar lá aulas.”
Entre o transito para atravessar o Lincoln Tunnel não parecia haver muita gente interessada no jogo. Nem o Serge. Sem notícias do que se passava acabámos por ser informados através de um telefonema. A mãe do motorista ligou-lhe para lhe dizer que a partida tinha acabado com um empate a dois golos. Sem honra nem glória. Quando me deixou à porta do hotel, Serge despediu-se com um amigável “até à próxima”. Eu também. Sem grande convicção. O cachecol nem chegou a sair da mala. Só vi os golos mais tarde. Cruzei-me com americanos com a bandeira pintada na cara. O plano revelou-se tudo menos perfeito.

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