O poder em casa

António Cabral é uma figura importante da comunidade portuguesa do Massachusetts, nos Estados Unidos. Eleito pela primeira vez para a Câmara dos Representantes estadual – o parlamento local – em 1990, está neste momento a cumprir o 11o mandato em representação da cidade de New Bedford. Nessa qualidade lidera o comité de gastos financeiros e bens estaduais. Ou seja, tem poder. E é muito respeitado. Sobretudo na comunidade portuguesa.
Percorreu um longo caminho desde que, em 1969, quando tinha 14 anos, a sua família imigrou da ilha do Pico para os Estados Unidos. Como a maioria dos imigrantes portugueses, nenhum sabia dizer uma palavra em inglês. Anos depois, “Tony” Cabral não só dominava a língua como dava aulas nas escolas públicas de Tauton, Plymouth e Carver. Daí à Câmara dos Representantes foi um passo.
Em 2011, candidatou-se a Mayor – presidente da Câmara – de New Bedford. Concorreu e perdeu (por pouco mais se 800 votos) contra Jon Mitchell que, para além de procurador adjunto dos EUA, é… o seu vizinho do lado. “Foi estranho”, diz à SÁBADO Jessica Cabral, a mulher do político luso-americano.
O casal recebeu a SÁBADO na passada segunda-feira num jantar informal com o presidente da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento (FLAD), Vasco Rato, e o cônsul português em New Bedford, Pedro Carneiro. Tony e Jessica vivem com a filha de cinco anos, Victoria, numa moradia de três andares numa zona nobre de New Bedford. Como a maioria das casas, tem uma bandeira norte-americana pendurada no alpendre. No piso térreo Tony Cabral faz questão de mostrar os inúmeros sinais da herança portuguesa: quadros, cerâmica e, sobretudo, a fotografia a preto e branco do seu avô, de charuto na boca, que imigrou duas vezes para os EUA e acabou por morrer nos Açores.
O próprio edifício tem uma história que o casal faz questão de conhecer – e contar. Construída por um senhor chamado Walter Spooner no início do século XX, tinha um objectivo particular: conseguir que a filha do proprietário se casasse. Para além de não ter arranjado marido, a jovem desafiou as convenções da época e mudou-se para lá com uma companheira. Quando ela morreu, o edifício foi vendido a um advogado, depois a um casal de professores e, finalmente, a outro de artistas peculiares. “Ele fazia esculturas, ela pintava. E eram muito, mas muito, explícitos”, diz Jessica no final de um jantar americano servido no alpendre: churrasco, batata assada com creme, espargos e salada temperada com azeite especial. “É produzido pela minha irmã que vive em Itália”, diz Tony Cabral.
O político habituou-se a estar rodeado por mulheres: cresceu com sete irmãs e vive com outras duas. Victoria é a menina dos seus olhos. Como a mãe, não fala português. Isso não o impede de lhe responder aos pedidos constantes com uns carinhosos “yes amor” ou “I’m going amor”. Ele é o deputado estadual. Mas, em casa, elas é que têm o poder.

Nota: A SÁBADO viajou para os EUA com o apoio da FLAD

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