O santo e os pecadores de mãos dadas

Todos os anos, no último domingo de Junho, a imagem de S. Pedro deixa a igreja de Provincetown, em Cape Cod, na costa leste dos Estados Unidos, e atravessa as ruas da cidade. Carregado por quatro voluntários de origem portuguesa, o andor com o santo lidera uma procissão rumo ao cais de onde, desde o século XIX, navios com marinheiros lusos partem para dias, semanas ou meses de pesca nos mares do Atlântico. Junto ao mar, a imagem é colocada no chão para uma primeira benção em terra. Em seguida sobe a bordo de um navio que encabeça um cortejo de embarcações adornadas com bandeiras de Portugal e dos EUA que também recebem a benção católica.

A cerimónia é o último grande evento do festival português de Provincetown. Durante quatro dias a localidade fica coberta de bandeiras nacionais, é palco de promoções gastronómicas, espectáculos musicais e de uma parada que atravessa a Commercial Street, a principal avenida da cidade. Nela desfilam  ex-militares que combateram na guerra colonial, imigrantes que mantém vivas as tradições das suas regiões – como os ranchos folclóricos -, e também luso-descendentes que fazem questão de afirmar as suas origens.

Todo o evento é uma forma de assinalar a importante presença portuguesa na região. Os primeiros a chegar foram pescadores recrutados sobretudo nos Açores, mas também em Portugal continental, para trabalhar na indústria pesqueira norte-americana no início do século XIX. Por volta de 1890, a vila teve um rápido crescimento e devido às suas praias e belezas naturais começou a ser frequentada por artistas e escritores e a desenvolver uma pequena indústria turística – sobretudo homossexual. O grande boom de popularidade deu-se na década de 1960. Os preços baixos, o ambiente informal e libertino, os cafés, bares e restaurantes junto à praia atraíram uma clientela cada vez mais endinheirada que fizeram os preços das propriedades crescer brutalmente. Hoje, tem uma população de cerca de 3000 pessoas que no Verão cresce para os 60 mil e que a tornam no principal destino gay da costa leste dos Estados Unidos.

O contraste entre a tradição e libertinagem é enorme. No desfile do passado sábado, homens e mulheres com trajes minhotos acenavam a varandas cheias de grupos de homens em tronco nu e camisolas de alças, a casais de mulheres com um aspecto másculo ou drag queens que promoviam os eventos dessa noite. Já durante a procissão do dia seguinte, a imagem de São Pedro percorreu as ruas estreitas ladeadas por moradias de um ou dois andares que, na véspera, foram palco de festas e actos muito pouco católicos. Cruza-se com casais de homens de trocam carícias. Mulheres que se beijam na rua. Sempre num ambiente de grande tolerância. Vão de mãos dadas. Santos e pecadores.

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