O nazi que afinal era judeu

Csanad Szegedi era apenas uma criança. Tinha acabado de chegar a casa, em Mikolsc, no leste da Hungria e decidiu contar uma anedota sobre judeus que aprendera na escola. Achou piada. A mãe nem por isso: deu-lhe uma estalada. Ele não percebeu porquê. Ela também não se deu ao trabalho de lhe explicar.

Alguns anos depois, em 1999, o jovem Szegedi deixou a terra natal para estudar história na Universidade de Budapeste. Ele considerava-se um nacionalista – e juntou-se a outros estudantes que, entre outras coisas, defendiam a expulsão dos imigrantes do país. Em 2003 esteve entre os fundadores do partido Jobbik – o mais extremista da direita húngara. Tinha 21 anos. O seu número de militante era o 63.

Era também dos mais activos. Em 2007 ganhou notoriedade como fundador da Guarda Húngara, um grupo neo-nazi cujos uniformes negros e bandeiras listadas se assemelhavam aos do partido pró-Hitler que governou a Hungria no final da II Guerra Mundial e que foi responsável pela morte de milhares de judeus. A Guarda Húngara acabou por ser banida pelos tribunais. Mas a notoriedade angariada valeu a Csanad Szegedi a eleição para o Parlamento Europeu em 2009.

Em Bruxelas, o jovem político também não passou despercebido. Numa das sessões de abertura surgiu vestido com o uniforme da Guarda Húngara. E num debate sobre o orçamento comunitário disse em plenário: “esta proposta de orçamento parece um documento escrito por Shimon Peres [presidente israelita]. É um orçamento que fará os húngaros mais pobres e os judeus ricos mais ricos.”

À medida que a sua popularidade crescia, aumentava também o número daqueles que o queriam prejudicar. Em 2010, Zoltan Ambrus, um membro do partido condenado por posse de armas e explosivos recebeu vários documentos que provavam que a avó materna de Szegedi, Magdolna Klein, era judia. Logo, ele também o é de acordo com a lei judaica.

Os documentos diziam, e ela confirmou, que durante a II Guerra Mundial, Magdolna foi enviada para Auschwitz, onde sobreviveu até à libertação pelo exército vermelho em 27 de Janeiro de 1945. O seu avô também esteve no campo de concentração. Os dois casaram-se depois da guerra. Faziam parte dos 105 judeus em 14 mil que conseguiram regressar a Mikolsc. Tiveram uma cerimónia ortodoxa e continuaram a frequentar a sinagoga. Até que, em 1954, com medo de um novo holocausto, deixaram de ser judeus. Magdolna Klein não falava no assunto. Mesmo nos dias quentes usava mangas compridas para esconder o número de prisioneiro tatuado no braço.

De acordo com a revista Der Spiegel, naquele encontro, Zoltan Ambrus confrontou Szegedi e gravou a reunião no âmbito de uma luta pelo poder no Jobbik. O então vice-presidente do partido terá ficado surpreendido. Mas tentou subornar o interlocutor em troca do seu silêncio. Ambrus recusou. E informou a direcção do Jobbik.

Os restantes membros confrontaram-no. Segundo a revista alemã, inicialmente, o presidente do partido terá ficado entusiasmado: “Agora és o nosso escudo contra as acusações de anti-semitismo”. Mas essa ideia não era a dominante. Um dos antigos camaradas disse-lhe que o melhor era dar-lhe um tiro na cabeça. Outro sugeriu que ele pedisse desculpa. Ele pensou: “tenho de pedir desculpa pela minha família ter morrido em Auschwitz?”

Em Junho de 2012 abandonou o partido. Manteve apenas o cargo de eurodeputado. Pediu às livrarias para devolverem os milhares de cópias do livro que publicara com os seus discursos, entrevistas e textos chamado Acredito na Ressurreição da Hungria, deitou-os num contentor e queimou-os.

Depois procurou um rabi na comunidade local. Pediu desculpa pelas declarações ofensivas que fez. Começou a frequentar a sinagoga – nas primeiras vezes muitas pessoas saíram em protesto -, a cumprir o Shabbat, a ter aulas de judaísmo, a comer comida Kosher e, de acordo com o jornal alemão Welt am Sonntag, está a tentar respeitar os 613 mandamentos da lei judia. O último passo também já foi dado: Szegedi foi circuncisado e adoptou o nome de David.

Nos últimos dois anos foi também duas vezes a Israel. Visitou Jerusalém e o museu do holocausto. À chegada, no aeroporto, os seguranças fizeram-lhe várias perguntas, incluindo, “é judeu?”. Szegedi respondeu “sim”. Não era piada. Já sabia porque tinha levado aquele estalo.

Foto: AP/Peter Kohalmi

Foto: AP/Peter Kohalmi

One thought on “O nazi que afinal era judeu

  1. Pingback: O nazi que afinal era judeu | PINN

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s