Uma longa viagem

Portugal, 1964. A crise sísmica dos Rosais deixou muitos habitantes da ilha de S. Jorge, nos Açores com uma alternativa: a imigração. Muitos foram para os Estados Unidos. Mas, por pressão do Estado Novo, 21 famílias foram enviadas para Angola onde formaram o colonato de S. Jorge em Cela. Entre elas estava um rapaz de seis anos. Luís Pedroso viajava para África pela primeira vez com o pai, a mãe, a irmã mais velha, a irmã gémea e ao irmão mais novo. Não se adaptaram. Ao fim de um ano regressaram aos Açores. E em 1969 partiram para a Califórnia. Viviam numa quinta, onde o pai de Luís Pedroso trabalhava como leiteiro. Pareciam ter estabilizado. Até que, quatro anos depois, uma visita do seu pai ao médico terminou num diagnóstico arrasador: leucemia.

A mãe optou por não lhe dizer o que tinha. “Ele sabia que era mau, mas não sabia o que era”, recorda Luís Pedroso à SÁBADO sentado no seu gabinete na Accutronics, a firma de componentes electrónicos que criou há 10 anos para dar emprego à família. Doente, o pai decidiu voltar aos Açores. No dia seguinte à chegada, foi internado no hospital de Angra do Heroísmo. Morreu 30 dias depois. Sozinha, com quatro filhos, a mãe de Luís Pedroso concordou em ir para Angola, onde os seus pais tinham ficado. Não contava com a revolução de 25 de Abril de 1974. Um contacto para São Jorge não podia ser mais explícito: “pegue nos seus filhos e vá para os Estados Unidos. Não há nada aí para si”.

Como grande parte dos açorianos, tinham família nos EUA. “A minha mãe escreveu a uma prima a perguntar-lhe se havia fábricas onde as mulheres pudessem trabalhar e se ela nos ajudava. Ela disse-lhe que sim”, conta Luís Pedroso. Um mês depois chegavam a Lowell, no Massachusetts, sem falar uma palavra de inglês. “A minha mãe e a minha irmã que já tinha 16 anos foram trabalhar para uma fábrica de sapatos dois dias depois, nós fomos para a escola”, continua.

Luís Pedroso fez o liceu mas decidiu não ir para a faculdade por não saber exactamente o que queria. Acabou a trabalhar numa fábrica de montagem de placas de computadores com a mãe e a irmã mais velha. Esteve lá um ano. Demitiu-se, arranjou emprego como caixa num banco, não gostou, voltou a despedir-se e regressou à electrónica. Foi contratado por uma empresa que produzia equipamentos electrónicos. Começou no armazém. Passados dois anos e meio tinha responsabilidades nas áreas da documentação, inspecção, montagem e inventário.

A empresa estava a crescer. Começaram a introduzir máquinas na produção para trabalho industrial. E iam deixar de produzir para algumas companhias. “Vi aí uma oportunidade”, recorda. “Falei com um colega que lidava com os clientes e disse-lhe que se conseguisse trazer um deles nós podíamos começar algo”. Após várias tentativas uma das empresas disse que sim. “Um mês depois demiti-me. Três semanas despediu-se ele. Começámos a Qualitronics”, conta.

Na época (em 1984) não era preciso muito capital para montar uma empresa. Era tudo feito à mão. Bastavam algumas mesas e ferramentas. A mãe e os irmãos despediram-se e foram trabalhar com ele. Dois anos depois comprou a parte do sócio na firma. O negócio cresceu. Todos os anos. Tornou-se avassalador. O trabalho era tanto que Luís Pedroso teve um esgotamento. No ano 2000 a firma tinha 165 empregados e facturava 25 milhões de dólares por ano. “Decidi vender a uma empresa que por sua vez fazia 800 milhões em vendas”, conta. Não revela o valor do negócio. Mas sabe que o timing foi perfeito. A crise afectou a área profundamente e essa firma acabou por ser vendida a outra que facturava oito mil milhões.

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Aos 42 anos estava reformado. Tinha uma vida tranquila. Mas quando a companhia decidiu levar as instalações para o México e para outros Estados, o irmão e as duas irmãs ficaram desempregadas. Pediram-lhe para os ajudar a começar algo. A primeira resposta foi não. “Só que acho que a minha irmã mais velha pediu à minha mãe para falar comigo”, ri-se. Criaram a Accutronics em Janeiro de 2004. Luís Pedroso concordou em financiar o negócio e ajudá-los durante cinco anos. Contratou duas pessoas, um engenheiro e um vendedor, sob condições muito específicas: só seriam pagos quando o negócio lhes pudesse pagar. “Era o incentivo deles”, diz.

Não resultou. Durante dois anos a empresa perdeu dinheiro todos os meses. “Essas duas pessoas saíram e nessa altura tive de entrar a tempo inteiro”, recorda. Foi o suficiente. Seis meses depois atingiram o equilíbrio financeiro e desde então que a firma dá lucro. A reputação que detinha no mercado terá ajudado. Os clientes começaram a aparecer. Hoje emprega 102 pessoas e estão a expandir-se para novas instalações. Produzem todo o tipo de equipamentos que tenha um circuito e que não compensa aos fabricantes produzirem devido ao nível de especialização necessária: impressoras de 3D, estúdios de televisão, scanners médicos, aparelhos rebóticos, componente de aviões, lasers, etc. Facturam cerca de 14 milhões por ano e, com a expansão, quer aproximar-se dos 30 milhões em cinco anos.

É Luís Pedroso quem gere o negócio. Mas é também accionista minoritário. Criou a empresa para os irmãos. E tem por objectivo trabalhar em part-time, apenas a olhar para os números. “Dei-lhes cinco anos e já vou em 10. Não me importo, mas quero libertar-me”, diz. Está profundamente envolvido na comunidade. Para além de benemérito, é consultor da Parker Foundation. Durante vários anos esteve na administração da Greater Lowell Community Foundation que apoia organizações não governamentais locais. Saiu recentemente porque foi nomeado para a administração do maior banco da cidade. Vai longe o tempo em que se sentia intimidado pelos engenheiros e vice-presidentes que tinham um diploma universitário. “Comecei a perceber que nem todos sabem tudo. Às tantas eles começaram a fazer-me perguntas e eu pensava: ‘esperem aí, vocês é que deviam saber isso’. A faculdade é importante e ajuda a quebrar barreiras, mas o senso comum não é assim tão comum. O tipo que inventou a expressão enganou-se: devia ser o senso incomum”.

A SÁBADO viajou para os Estados Unidos com o apoio da FLAD.

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