O homem dos russos em Donetsk

Logo após a queda do avião da Malasya Airlines, o auto-proclamado ministro da Defesa da República Popular de Donetsk, Igor Girkin, gabou-se de ter abatido um avião na rede social russa VK.com. Conhecido na Ucrânia por Igor Strelkov, o militar é um cidadão russo alegadamente membro dos serviços de informações militares de Moscovo. Este é o texto que escrevi sobre ele há dois meses, na altura do referendo nas regiões leste da Ucrânia.

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Horas depois de serem anunciados os resultados dos referendos em Donetsk e em Lugansk, no leste da Ucrânia, no passado domingo, as auto-proclamadas Forças Armadas da República Popular de Donetsk (RPD) fizeram um ultimato: “Todos os soldados e oficiais das forças armadas, das forças de segurança interna, dos Serviços de Segurança, do Ministério do Interior e outras estruturas paramilitares da Ucrânia estão, a partir de agora, ilegais no território da RPD. Num prazo de 48h eles devem jurar fidelidade à RPD ou abandonar o território. Todos os que passem para o lado da RPD tem garantidos a manutenção do grau militar, o vencimento e prestações sociais.”

O comunicado incluía ainda uma instrução muito clara: “Os comandantes deverão cumprir a partir de agora apenas as minhas ordens”. Neste caso, as “minhas ordens” eram as do autor do ultimato: Igor Girkin. Conhecido na Ucrânia pelo pseudónimo de Igor Strelkov, o militar foi nomeado comandante supremo das Forças Armadas da região de Donetsk. Mas as autoridades ucranianas tem outra versão: garantem que ele é, na verdade, um agente do principal departamento de informações do exército russo, o GRU e a prova de que Moscovo está por detrás do movimento secessionista.

De acordo com o Serviço de Segurança Ucraniano (SSU), Igor Girkin chegou à península da Crimeia a 26 de Fevereiro, logo após a ocupação do parlamento, onde esteve a dirigir a ocupação de instalações militares e edifícios governamentais por tropas e forças especiais russas. Terá também recrutado cidadãos ucranianos para realizar acções subversivas na Crimeia e no leste da Ucrânia. “O sabotador deu ordens pessoalmente a cidadãos ucranianos para ocupar e manter o edifício da administração regional de Kharkiv, postos militares e unidades policiais com o objectivo de apreender armas”, afirmou o SSU em comunicado. Por isso iniciou uma investigação por “homicídio premeditado e por cometer actos que ameaçam a soberania, integridade territorial e a inviolabilidade da Ucrânia e por organizar motins na zona leste” do país.

Igor Girkin chegou à região de Donetsk no início de Abril. Instalou-se com um grupo de milicianos na cidade de Slaviansk e tornou-a no epicentro da revolta militar ucraniana. Antes tinha estado na Crimeia, a península ucraniana anexada pela Rússia, admitiu numa entrevista ao jornal moscovita Komsomolskaya Pradva: “A unidade com que eu vim para Slaviansk foi formada na Crimeia Não vou esconder isso. Foi formada por  voluntários. Diria que metade ou dois terços são cidadãos da Ucrânia”.

Durante cerca de um mês manteve-se na sombra. A liderança separatista de Slaviansk era representada por Viatcheslav Ponomarev, que se auto-proclamou presidente popular da câmara municipal da cidade. Foi ele, por exemplo, quem apresentou em conferência de imprensa, os oito observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa detidos em Slaviansk. No entanto, operações como o ataque ao aeroporto de Kramatorsk, em que dois aviões foram atingidos, e o abate de um helicóptero davam a entender que havia uma liderança militar nos bastidores.

O militar saiu das sobras no final de Abril, durante a apresentação à imprensa de três elementos dos serviços secretos ucranianos capturados na região de Donetsk. Nessa entrevista, Igor Girkin não respondeu às questões dos jornalistas sobre a sua ligação a Moscovo. Nem deu detalhes sobre a sua vida passada. Revelou apenas que o grupo que lidera decidiu ir para Slaviansk, após a anexação da Crimeia pela Rússia, por sugestão de alguns dos seus elementos que são naturais da região. Disse também que a maioria já tem experiência de combate ao serviço dos exércitos russo e ucraniano na Chechénia, na Ásia Central, Jugoslávia, Iraque e que alguns até terão estado na Síria. Será por isso que são considerados os mais ferozes adversários do exército ucraniano.

Numa voz calma e tranquila Igor Girkin, que terá entre 40 e 50 anos, garantiu que nunca teve apoio do governo de Moscovo e que as armas da milícia que lidera foram obtidas em instalações policiais e militares ucranianas. No entanto, poucos dias depois, foi apanhado em escutas telefónicas reveladas pelos serviços de informações ucranianos – e divulgadas pela revista Forbes – a combinar a libertação dos observadores da OSCE com Vladimir Lukin, o enviado especial do presidente russo, Vladimir Putin, para a região. Surgiram também relatos na imprensa chechena que o dão como um dos membros de uma unidade de elite dos paraquedistas russos envolvidos no rapto de um checheno, em 2001.

Logo após a conferência de imprensa, em que o militar foi identificado como Igor Strelkov, as autoridades ucranianas divulgaram a sua verdadeira identidade – incluindo a sua morada em Moscovo. Em poucas horas, equipas de jornalistas ucranianos dirigiram-se ao bairro residencial da capital russa. Vários moradores reconheceram o líder separatista como um dos seus vizinhos e revelaram que, horas antes, um automóvel preto tinha aparecido para transportar a sua mulher.

Nas semanas seguintes, Igor Girkin voltou a desaparecer das páginas dos jornais. A partir de Slaviansk, continuou a dirigir a resistência às investidas do exército ucraniano. Terá estado em contacto com a junta popular de Donetsk que organizou o referendo do passado domingo, dia 11 e que terá dado aos partidários da independência cerca de 89% dos votos. Na província de Lugansk, que também organizou uma votação, os separatistas terão obtido 96% dos votos.

Após o anúncio dos resultados, Igor Girkin foi nomeado comandante das Forças Armadas da RPD. Resta saber o que fará a seguir. Na entrevista que deu ao Komsomolskaya Pradva disse que havia duas tendências no grupo que liderava. Os militares oriundos de Donetsk queriam garantir que a região não voltava a depender de Kiev. Os outros pretendem mais: “não querem parar por aqui, querem ir mais além e libertar a Ucrânia dos fascistas”.

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