O problema de ter memória: a lenda dos milagres de Jesus

Nos últimos tempos, as palavras que mais temos ouvido dos jogadores que chegam ao Benfica é “quero aprender com o mister Jesus” ou “quero crescer com Jesus”. Foi o que disse Bebé, o mais recente reforço benfiquista, depois de quatro anos emprestado pelo Manchester United, onde se celebrizou pelos cruzamentos para a bancada. Mas não é isso que interessa. O que é verdadeiramente importante é que foi criada à volta de Jorge Jesus uma aura milagrosa de formador e potenciador de talentos futebolísticos. Chamo-lhe o síndrome Coentrão. Diz a lenda que, de fracasso em potência, o Fábio de Caxinas transformou-se no melhor lateral esquerdo português. Graças a Jesus. É o que diz a lenda. Mas a lenda não resiste à memória. Nem aos factos.

Em 2009/2010, Jorge Jesus não queria Fábio Coentrão no plantel. O destino era um novo empréstimo. À sua frente, para o treinador, estavam César Peixoto, Jorge Ribeiro e até David Luiz. Terá sido Luís Filipe Vieira a obrigar o técnico a ficar com a jovem promessa portuguesa. O seu destino: o banco ou a bancada. Até que, numa determinada fase da época, os dois laterais e o central estavam lesionados. E Jesus foi obrigado a colocar Coentrão em campo. Correu bem. E Jesus – como sempre acontece quando as coisas correm bem – reclamou os louros. Nascia a lenda da aura milagrosa de potenciador de talentos.

O problema é que, mais uma vez, a lenda não resiste a um exercício de memória. Eu ainda me lembro quando Jesus disse que ia fazer de Yannick Djaló um grande jogador. Alguém sabe onde ele joga hoje? Mas depois de me lembrar do ex-marido de Luciana Abreu resolvi fazer um exercício de memória. E encontrei um camião de talento que Jesus contratou mas não foi capaz de transformar em jogadores de futebol. Preparados? Respirem fundo:

Éder Luís, Keirrison, Roberto, Jara, Élvis (quem?), Carole, José Fernandez (quem?), Leo Kanu (quem?), Derlis Gonzalez (quem?), Bruno César, Wass (quem?), Rodrigo Mora, Melgarejo, Nuno Coelho, Roderick, Mika, Capdevilla, Júlio César, César Peixoto, Shaffer, Airton (quem?), Filipe Menezes, Weldon (quem?), Kardec, Fábio Faria, Yannick Djaló, Urreta, Olá John, Luisinho, Sidnei, Émerson, Luís Martins, Lisandro Lopez, Steven Vitória, Stefan Mitrovic (quem?), Bruno Cortez, Victor Nilsson-Lindelof (quem?), Filip Djuricic, Luís Fariña, Diego Lopes, Michel (quem?) e Funes Mori.

Pronto, confesso. Não me lembrava de todos. A internet é uma coisa maravilhosa. Muitos nem chegaram a vestir o manto vermelho. Simplesmente desapareceram. Ou andam por aí. São 42. E posso ter-me esquecido de algum. Acredito que os contratados deste ano – César, Loris Benito, Djavan, Talisca, Luís Filipe, Eliseu, Victor Andrade, Derley e Bebé – também querem “crescer” com Jesus. Vamos ver onde estarão no fim do ano. Se se juntam ao camião de talento ou se se tornam a excepção.

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

 

3 thoughts on “O problema de ter memória: a lenda dos milagres de Jesus

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  2. Outro problema de ter memória e acesso à internet: desmontar as lendas dos “jornalistas” que desmontam lendas. “Diz a lenda que, de fracasso em potência, o Fábio de Caxinas transformou-se no melhor lateral esquerdo português. Graças a Jesus. É o que diz a lenda. Mas a lenda não resiste à memória. Nem aos factos.
    Em 2009/2010, Jorge Jesus não queria Fábio Coentrão no plantel.”

    Não há rigorosamente nenhum facto que comprove isto.

    “Terá sido Luís Filipe Vieira a obrigar o técnico a ficar com a jovem promessa portuguesa. O seu destino: o banco ou a bancada.”

    Fábio Coentrão foi titular do Benfica pela primeira vez na jornada 7, contra o Paços de Ferreira, fora de casa. Nas 6 jornadas anteriores foi para a bancada 0 (exato, zero) vezes. Nesses 6 jogos, foi suplente utilizado 5 vezes. No primeiro jogo do campeonato, contra o Marítimo, em casa, Carlos Martins lesionou-se aos 17 minutos da primeira parte. O primeiro suplente lançado por JJ naquele campeonato, no primeiro jogo, e aos 17 minutos, foi Fábio Coentrão. Como ele não o queria lá, deve ter pretendido mostrar que ele não prestava fazendo dele a sua primeira escolha. Para ele ter mais tempo para falhar.

    “À sua frente, para o treinador, estavam César Peixoto, Jorge Ribeiro e até David Luiz. Até que, numa determinada fase da época, os dois laterais e o central estavam lesionados. E Jesus foi obrigado a colocar Coentrão em campo. Correu bem.”

    Sobre Jorge Ribeiro, talvez seja bom lembrar o que o próprio (que também deve ter memória) diz: http://relvado.sapo.pt/benfica/jorge-ribeiro-benfica-nao-foi-tempo-perdido-254951 “Na pré-temporada falámos, mas eu já sabia que não contava comigo.” Nunca jogou. Nada mau, para quem estava à frente do Coentrão. O titular começou por ser Shaffer, que curiosamente não entra nesta memória. É mesmo uma excelente memória. No jogo em que Coentrão se estreou como titular, o defesa esquerdo habitual, Shaffer, também foi titular. David Luiz estava tão lesionado que foi titular também. E César Peixoto deve ter conseguido debelar a lesão durante o intervalo, porque entrou aos 70 minutos. Nessa época, David Luiz foi o 2º jogador mais utilizado do plantel. Jogou 29 jogos (completos) em 30. O único jogo que falhou foi por castigo (5 amarelos). Nunca esteve lesionado.

    Basta ir a zerozero.pt, época 2009/2010. Quem não tem memória, pode refrescá-la lá.

    Já Fábio Coentrão, diz o seguinte sobre JJ: http://www.maisfutebol.iol.pt/selecao-coentrao-fabio-coentrao-portugal-mundial-reportagem-cabo-verde/520b7ea53004bc615fd24c84.HTML

    Parece que o próprio acha que foi JJ quem lhe deu aquilo que lhe faltava. Que falta de memória, Fábio…

    • Não é preciso ser jornalista. Basta ser adepto e seguir a vida da equipa. Claro que ser jornalista e ter acompanhado a vida da equipa naquela época permite ter acesso a informação não publicada.
      Mas já que insiste: jornada um: defesa esquerdo, david Luis. Jornada dois, Shaffer; jornada três; Shaffer; jornada 4: césar Peixoto; jornada 5: Shaffer; jornada 6: César Peixoto; Jornada 7: Shaffer (Fábio Coentrão a médio esquerdo); Jornada 8: Fábio Coentrão (Shaffer e César Peixoto lesionados); Jornada 9; Fábio Coentrão (Shaffer e César Peixoto lesionados); Jornada 10 Fábio Coentrão (com Shaffer no banco); Jornada 11: César Peixoto; Jornada 12: César Peixoto; Jornada 13: César Peixoto; Jornada 14: César Peixoto; Jornada 15: César Peixoto; Jornada 16: César Peixoto; Jornada 17: Fábio Coentrao – e foi assim até ao fim da época.
      Ou seja; foram precisas 17 semanas até Jorge Jesus perceber que Fábio Coentrão era o melhor defesa esquerdo do plantel, e em breve do futebol português. Teve mérito. Mas recordo-me perfeitamente da contestação nas bancadas quando ele optava sucessivamente pelos outros jogadores quando a vida tinha corrido bem ao miúdo – que até era português.
      Claro que JJ tem mérito. É, aliás, um excelente treinador. O post servia apenas para alertar que não fará milagres este ano.
      Outro exemplo de que me recordo de como o acaso por vezes influencia a carreira dos jogadores (e sem recorrer à internet). Numa época tumultuosa, Chalana foi chamado a orientar a equipa do Benfica numa única jornada. O que ele fez? Colocou Miguel, até então um extremo razoável, a lateral direito. Nunca mais deixou essa posição que até o levou à selecção nacional. Memória de adepto
      Abraço.

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