A entrevista (nesta altura só há uma de que toda a gente fala)

Não sou um grande fã de Judite de Sousa. Não o escondo. Mas reconheço os seus méritos. E o facto de ser a única – talvez com José Rodrigues dos Santos – jornalista-estrela do panorama jornalístico português. Ontem, ela voltou aos ecrãs após dois meses de ausência pelos motivos que todos conhecemos. Fez mal.

Primeiro que tudo: é preciso reconhecer a coragem de Judite de Sousa. Não imagino, nem quero imaginar, aquilo por que ela está a passar. Perder um filho é algo inimaginável. Arrasador. Voltar seria difícil para qualquer um. Fazê-lo com uma entrevista a Cristiano Ronaldo é ainda mais complicado. Não pela dificuldade da entrevista em si. Mas pela pressão. Pela expectativa criada pela própria TVI no “regresso em grande” da jornalista-bandeira da estação.

No entanto, o que vimos (e muitos o fizeram), especialmente na sexta-feira, foi uma mulher arrasada a obrigar-se a falar com voz firme (sem o conseguir) para a câmara. Tremia. Tinha dificuldades em articular as perguntas. Emocionou-se. Quase chorou. Teve certamente a simpatia dos telespectadores. Mas também os distraiu. Eu, por exemplo, a certa altura dei por mim a não ouvir as respostas do capitão da selecção nacional, mas a observar o estado de fragilidade da entrevistadora.

A realização também não a ajudou. Exagerou nos planos aproximados que realçaram as suas dificuldades em afastar o nervosismo. Ainda assim, aos poucos, Judite de Sousa melhorou. Ganhou mais à-vontade. A confiança começou a surgir. Houve mesmo um sorriso aqui e ali. Até o tratamento por “tu” que no início pareceu estranho (Ronaldo usou sempre o “você”) se tornou natural e familiar.

Não tenhamos ilusões: Judite de Sousa é uma privilegiada. Estar dois meses sem trabalhar após uma tragédia não está ao alcance de qualquer um. Ainda bem para ela. Teve mais tempo para fazer o seu luto. O que alguém lhe devia ter dito, porque é preciso que alguém o faça, é que só deveria regressar aos ecrãs quando estivesse realmente preparada para o fazer. Ninguém lhe ia levar a mal por isso. Pelo contrário. Podia perfeitamente regressar à redacção, assumir funções fora da antena e, com tranquilidade, voltar à emissão. Ela escolheu outro caminho. Provavelmente terá as suas razões. Há uma coisa que ninguém lhe pode tirar: teve uma coragem do tamanho do mundo. E agora só é possível melhorar.  Bem-vinda de volta.

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