A incrível história de Armando Rodrigues de Sá

Há exactamente 50 anos, Armando Rodrigues de Sá desembarcava de um comboio na estação de Colónia. À sua espera tinha os empresários da região, uma banda e a imprensa. Motivo: era o trabalhador estrangeiro um milhão a chegar à Alemanha. Sem saber, estava a entrar na história. Desde então que o seu nome consta dos manuais escolares alemães, é referido em filmes e a motorizada que lhe foi oferecida na ocasião está exposta no museu de história contemporânea, em Bona. Mas em Portugal, poucos sabem o seu nome para além da sua terra natal, Vale de Madeiros. Esta é a sua história, que publiquei na Sábado, no início deste ano, e a peça televisiva, que fiz para a CMTV.

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“Estava tudo a postos. As bandeiras. Os cartazes de boas vindas. A banda. Os empresários. Os fotógrafos. As câmaras de televisão. Faltavam apenas os “convidados”. Um em especial. Era dia 10 de Setembro de 1964. Naquela manhã, chegavam à estação de Deutz, em Colónia, na Alemanha, dois comboios com 1106 trabalhadores estrangeiros: 933 espanhóis e 173 portugueses. E ao contrário do que acontecia habitualmente, iam ter direito a um comité de boas vindas. Motivo: assinalar a chegada do milionésimo gastarbeiter – trabalhador convidado, em alemão.

A primeira locomotiva entrou na estação pouco depois das 8h. A segunda cerca de duas horas mais tarde. Assim que o comboio parou, os passageiros desceram para o cais, intrigados com tanto aparato. Um intérprete começou então a percorrer as filas de trabalhadores e a gritar com um sotaque germânico: “Armando Rodrigues, Armando Rodrigues”.

Ao fundo da plataforma, Armando Rodrigues de Sá, 38 anos, não sabia o que fazer. “Ficou assustado”, conta à SÁBADO a viúva do português, Maria Emília Pais de Sá. “Achou que era a PIDE”, recorda. Nervoso, tentou esconder-se. Por alguma razão que desconhecia poderiam querer prendê-lo. Ou enviá-lo e volta para Portugal, tal como tinha acontecido a 24 parceiros de viagem que não tinham os papéis em ordem e que acabaram por na fronteira.

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A contragosto – e incentivado pelos companheiros de viagem que gritaram “está aqui, está aqui” – o carpinteiro português avançou. “Então o intérprete explicou-lhe que era o operário um milhão a chegar à Alemanha e que o governo tinha um prémio para ele”, recorda à SÁBADO, António da Silva Cravo, 74 anos, que fez a viagem com Rodrigues de Sá.

Levado para o centro da plataforma, Armando Rodrigues de Sá foi rodeado pelos representantes dos industriais alemães. A banda começou a tocar. Os fotógrafos aproximaram-se e dispararam as máquinas. Os operários gritaram vivas a Portugal e a Espanha. As câmaras de televisão captaram as imagens da festa. Apesar dos dois dias de viagem, o homenageado distinguia-se dos demais: de camisa, casaco e chapéu da cabeça, contrariava a imagem que havia sobre os povos do sul da Europa. Aos poucos, a tensão do seu rosto desapareceu. Foi substituída por um largo sorriso quando lhe deram para a mão – para além de um bouquet de flores e de um diploma que assinalava a ocasião – uma mota nova, da marca Zundap.

“Ele nem sabia andar”, recorda António Cravo. “Pegou-lhe com a mão e depois acabou por se montar nela, mas só para tirar fotografias”, diz. Envergonhado, agradeceu, e disse aos jornalistas que a recepção atenuava a dor da separação da família, mulher e dois filhos, que deixou em Portugal. Estava longe de imaginar que, 50 anos mais tarde, a sua fotografia faria parte dos manuais escolares germânicos e estaria exposta em museus como um símbolo da imigração alemã. 

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Armando Rodrigues de Sá nasceu em Vale de Madeiros, distrito de Viseu, a 4 de Janeiro de 1926. Aos 19 anos casou-se com Maria Emília Pais. Ela tinha 15 anos. “O meu pai era muito rico, tinha muitas terras. Como os pais dele eram pobres ele não o podia ver. Disse-me: ‘se deixares o Armando compro-te um cordão de ouro do teu tamanho’. Mas eu não queria o cordão, queria-o a ele. Era mesmo bonito”, recorda Maria Emília. Tiveram dois filhos. João e Rosa. Armando trabalhava na Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos. Era carpinteiro. E apesar de ter emprego decidiu tentar a sorte na Alemanha. “Havia mais gente daqui da zona a ir e ele também quis”, diz Maria Emília.

Naquela época, quem quisesse obter um passaporte válido para sair do País tinha que recorrer à Junta da Emigração (JE) e preencher uma série de requisitos: ter o serviço militar cumprido, apresentar uma certidão do registo criminal, documentar o grau de escolaridade, entregar uma certidão de nascimento, comprovar o estado civil e assinar uma declaração em que se responsabilizava pelo bem estar da família. Criada em 1947, a JE cooperava com entidades parceiras dos países que angariavam operários em Portugal. No entanto, o objectivo não seria incentivar a saída de trabalhadores do país. Seria controlá-la. De acordo com um artigo da historiadora Alexandra Ventura, em 1961, a embaixada alemã em Lisboa queixava-se, numa comunicação para Berlim: “Todo o processo é muito vagaroso e burocrático, o que atrasa a emigração. Isto é sem dúvida intencional por parte do governo que, se não pretende proibir a emigração para a Europa, pelo menos procura limitá-la”.

Para facilitar o processo, a 17 de Março de 1964 os governos de Portugal e da República Federal Alemã assinaram um acordo de destacamento de trabalhadores. Ao abrigo desse protocolo, o Departamento Federal do Trabalho germânico abriu dependências em Lisboa e no Porto. Mas o recrutamento continuou lento, apesar de a Alemanha estar a viver um período de grande crescimento económico. “Os alemães não percebiam porque não chegavam mais portugueses. Pensavam que era porque não conheciam a Alemanha. E decidiram então fazer uma cerimónia para mostrar que eram bem recebidos”, diz à SÁBADO o investigador do Instituto de Ciências Sociais, António Muñoz Sánchez. Havia ainda outro objectivo, para consumo interno. “Era preciso mostrar à sociedade alemã que eram necessários trabalhadores estrangeiros”, diz à SÁBADO Arnd Kolb, director do Domid, um centro de documentação e museu da imigração de Colónia. “Nesse ano chegou-se ao milhão de imigrantes. Mas não era possível saber qual era o milionésimo. Não havia uma lista. Armando Rodrigues de Sá foi escolhido. Foi uma decisão política e dos empresários para mostrar que a imigração era positiva”, concretiza António Muñoz Sánchez, que está a tentar organizar uma homenagem ao carpinteiro, em Setembro.

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Sem saber o que o esperava, Armando Rodrigues de Sá apanhou o comboio em Canas de Senhorim rumo a Lisboa. Com os requisitos preenchidos, embarcou para Colónia a 8 de Setembro de 1964 – o mesmo dia em que era publicado no jornal alemão Handelsblatt um artigo a lamentar a escassez de trabalhadores portugueses. Antes de deixar a capital portuguesa enviou um telegrama à mulher a pedir-lhe para ir ter com ele à estação de Canas de Senhorim (por onde passava o comboio). “Cheguei a casa e fui a correr para lá. Era para me dar a mala de ferramentas porque não era preciso levá-la”, conta Maria Emília Pais de Sá.

Daí, o carpinteiro seguiu para o Porto. António Cravo embarcou na estação de Campanhã e recorda uma viagem difícil. “Em Espanha juntaram-se muitos trabalhadores ao nosso grupo. Na fronteira com a França mudámos de comboio porque os carris eram diferentes e fomos para Paris. Aí mudámos novamente e seguimos para colónia. Foi uma viagem de 48h em bancos de madeira que faziam doer o rabo e com poucas casas de banho”, diz. Lembra-se de falar com Armando Rodrigues de Sá durante a viagem, mas já não recorda o assunto. “Éramos só homens. Conversávamos para passar o tempo. Uns tinham um realejo, outros concertina. Recebemos também uma espécie de ração de combate, com bolachas e atum”.

Quando chegaram a Colónia mandaram-nos sair do comboio. “Depois começaram a chamar pelo nome dele. Estava perto e ele não queria dizer nada”, recorda. Ao mesmo tempo, o grupo de empresários alemães esperava ansiosamente. O nome de Armando Rodrigues de Sá tinha sido seleccionado previamente de uma lista de 20 portugueses por corresponder ao imigrante ideal para a sociedade alemã: tinha 38 anos, era casado, com dois filhos e ficaria no país temporariamente. E, naquela altura, os industriais não sabiam se ele tinha sido um dos 24 a ficar retido na fronteira. “Por isso eles tinham outro nome de reserva, um português de apelido Varela”, diz Arnd Kolb.

Não foi necessário. Armando Rodrigues de Sá identificou-se, foi homenageado, deu entrevistas e depois seguiu para o seu destino. “Separámo-nos nessa altura”, diz António Cravo. “Os representantes das firmas com quem tínhamos contrato estavam à nossa espera. Eu fui para Noist. Ele para Estugarda”, lembra. A viagem do carpinteiro foi seguida pelas câmaras de televisão. E nas semanas seguintes continuou a dar entrevistas. Fosse na empresa onde trabalhava ou nas camaratas onde dormia – já de fato e gravata.

Assim que pôde, Armando Rodrigues de Sá avisou a família do que tinha acontecido. “Soubemos através de um telefonema”, recorda à SÁBADO o seu filho mais velho, João Pais de Sá. O governo português também foi informado, no dia seguinte, através de um telegrama enviado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros pelo cônsul geral em Hamburgo: “As entidades deste país decidiram dar certo relevo à chegada do imigrante que completasse o número de um milhão de trabalhadores estrangeiros contratados para trabalhar na Alemanha. (…) [Armando Rodrigues de Sá] foi por isso alvo de várias homenagens, havendo discursos de boas vindas, várias ofertas de carácter pessoal, fotografias, etc. O acto foi transmitido pela televisão e os jornais de hoje referem-se largamente ao assunto.” E continua: “Devo acrescentar que o Sr. Sá Rodrigues [sic] deixou boa impressão, apesar de não poder esconder o seu espanto por uma recepção totalmente inesperada. Apresentou-se muito decentemente vestido, contrariamente a alguns imigrantes do grupo mas que foi impossível reconhecer se seriam portugueses ou espanhóis”.

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá Foto: Sérgio Azenha

João, Rosa e Maria Emília Pais de Sá
Foto: Sérgio Azenha

Nos seis anos seguintes, Armando Rodrigues de Sá passou várias temporadas na Alemanha. A primeira durou apenas três meses. “Ele voltou em Dezembro e despachou a mota para cá. Antes de regressar foi buscá-la a Lisboa. Mandava dinheiro todos os meses, quatro contos e tal”, recorda Maria Emília Pais de Sá. Provavelmente teria ficado mais tempo se não tivesse sofrido um acidente de trabalho em 1970. “A montar uns painéis de madeira apanhou com um no estômago”, recorda João Pais de Sá. “Nós escrevíamos três cartas por semana e de repente esteve uns 10 dias sem dar notícias. Como estava preocupada fui ao bruxo e ele disse-me: ‘vá descansada. O seu marido esteve no hospital mas já está bem. Quando chegar a casa já lá tem uma carta dele’. E foi verdade”, diz Maria Emília.

No entanto, o carpinteiro não estava totalmente bem. De regresso a Portugal, foi-lhe diagnosticado um cancro. Passou os anos seguintes em tratamentos. “Foi operado em Lisboa e ainda regressou para cá”, conta João Pais de Sá. O anonimato em Portugal contrastava com o reconhecimento de que era alvo na Alemanha. “Tornou-se um símbolo que representa a história da imigração”, diz António Muñoz Sánchez. “Aparece nos livros escolares, é frequentemente referido em documentários televisivos e há vários filmes que recuperaram as imagens da chegada dele a Colónia”, continua.

Maria Emília Pais de Sá confirma. “Ao longo dos anos vieram cá muitos jornalistas e historiadores alemães”, diz. “Portugueses nem por isso”, ri-se. No final da década de 1990, um grupo de responsáveis pelo museu de história contemporânea da RFA, em Bona, deslocaram-se a Vale de Madeiros com um objectivo: adquirir a mota que lhe foi oferecida em 1964. Hoje, o veículo está em destaque na secção dedicada à imigração junto a uma fotografia de Armando Rodrigues de Sá, que acabou por falecer a 5 de Junho de 1979. Longe das câmaras.”

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