Tudo o que precisam de saber sobre o… Estado Islâmico

É vulgar dizermos que os extremistas islâmicos são loucos. Doidos. Varridos. Que vivem numa época medieval onde a razão não impera. Lunáticos. Fanáticos. Assassinos sem respeito pela vida humana. Radicais. Extremistas Irracionais. Mas serão mesmo? Ou será que – pelo menos os seus líderes – sabem exactamente aquilo que querem e qual a forma de alcançar esse objectivo. Assassinos, sim. Medievais e extremistas, também. Agora loucos? Talvez não. Desde o início que o grupo tem por objectivo a criação de um califado islâmico e, a partir de certa altura, seguiu uma estratégia clara e objectiva para o conseguir. Imediatamente. Ontem, na véspera de mais um aniversário dos antentados de 11 de Setembro, Barack Obama anunciou a estratégia para o tentar impedir: ataques aéreos às zonas controladas pelo EI no Iraque e na Síria. A longo prazo. Isto é tudo o que precisam de saber sobre o Estado Islâmico.

  • O grupo – ou a sua ideia – começou a formar-se na cabeça do jordano Abu Musab al-Zarqawi há mais de 20 anos. O islamita, nascido a 30 de Outubro de 1966, viajou para o Afeganistão no final da década de 1980 para lutar contra os soviéticos. No entanto, quando chegou, as tropas da então URSS já tinham deixado o país. De volta à Jordânia, criou o Jama’at al-Tawhid w’al-Jihad (JTJ) com o objectivo de derrubar o governo. Sem grande sucesso. Voltou então ao Afeganistão em 1999 para criar um campo de treino para terroristas. Foi aí que conheceu Osama Bin Laden.
  • Ao contrário de outros, al-Zarqawi preferiu não aderir à Al Qaeda. Continuou a tentar implantar o seu grupo. Mas a invasão norte-americana após o 11 de Setembro de 2001 obrigou-o a fugir para o Iraque. Aí, passou despercebido durante dois anos. Até que, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado Colin Powell o indicou como um dos motivos que justificavam a invasão do Iraque. Segundo Powell, al-Zarqawi seria o elo de ligação entre Saddam Hussein e a Al Qaeda. Não era. Mas desde então que passou a ser uma figura a ter em conta.
  • Após a invasão norte-americana, al-Zarqawi tornou-se uma das principais figuras da resistência aos EUA. Mas não só. O seu objectivo passava também por derrubar o governo iraquiano e estabelecer um estado islâmico – tal como a Al Qaeda. As diferenças eram poucas. Prendiam-se sobretudo com a intenção de al-Zarqawi de atacar a população xiita, que via como herética. Foi ele que orquestrou o bombardeamento do templo de Najaf, um dos locais mais sagrados para os xiitas. Os objectivos eram também políticos: conseguir o apoio da população sunita, afastada do poder após a queda de Saddam.
  • Em 2004, al-Zarqawi tinha lançado uma campanha de ataques suicidas no Iraque. Bin Laden deu-lhe o seu apoio. E ele retribuiu, aderindo à Al Qaeda: o JTJ foi rebaptizado de Al Qaeda do Iraque (AQI). No entanto, a extrema violência dos ataques à população civil começaram a gerar anticorpos na hierarquia da Al Qaeda. Ele não ligou. Aqueles que lhe resistiam eram executados. Ao contrário de outros grupos ligados à Al Qaeda, a AQI não pedia resgates pelos presos estrangeiros. Os ocidentais eram capturados com um objectivo: serem executados. Al-Zarqawi tornou-se mesmo conhecido como o “sheikh dos matadores” por decapitar pessoalmente os detidos. O seu estilo era inconfundível: os presos eram obrigados a vestir um fato cor-de-laranja (como em Guantánamo). As execuções tornaram-se tão frequentes que o então número dois da Al Qaeda pediu-lhe para parar e matar apenas os prisioneiros.
  • Al-Zarqawi não chegou a cumprir o seu sonho. Em Junho de 2006, morreu durante um bombardeamento ao local onde estava escondido, na sequência de uma ofensiva preparada pelo General David Petraeus em colaboração com as tribos sunitas a quem foram prometidos perdões por crimes anteriores, contratos lucrativos no futuro e uma parte do poder político. A estratégia resultou – mas apenas em parte. Os ataques suicidas pararam e a AQI foi praticamente desmantelada. Mas as promessas aos sunitas não foram cumpridas: não receberam contratos e foram afastados dos cargos de poder pelo primeiro-ministro  Nouri al-Maliki.
  • Quando os Estados Unidos retiraram do Iraque, a AQI praticamente não tinha actividade. Mas continuava a existir. Era então liderada por Abu Bakr al-Baghdadi, um natural de Samarra que se licenciou em Estudos Islâmicos pela Universidade de Bagdade e subiu na cadeia hierárquica do grupo ao longo de oito anos. A AQI tinha também mudado de nome para Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Al-Baghdadi voltou à estratégia do fundador do grupo: ataques indiscriminados contra a população xiita, numa tentativa de voltar a conquistar o apoio sunita. Conseguiu. Muitos daqueles que tinham sido armados pelos Estados Unidos para combater a AQI voltavam-se agora para o grupo que se dispunha a atacar o seu opressor: o governo iraquiano.
  • Com o início da guerra na Síria, al-Baghdadi viu uma oportunidade: recrutar milhares de jihadistas ávidos de combater. Com soldados calejados por anos de combate no Iraque, o ISI destacou-se facilmente dos restantes grupos que lutavam contra Bashar al Assad. Rapidamente voltou a mudar de nome: tornou-se no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, em inglês). O objectivo era claro: o estabelecimento de um estado islâmico na região entre os dois países.
  • Nesta altura as relações entre o ISIL e a Al Qaeda já não eram as melhores.  Em 2011, após a morte de Osama Bin Laden, al-Baghdadi jurou obediência ao novo líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahri. Mas, apesar dos objectivos comuns – o estabelecimento de um califado islâmico – os dois divergiam sobre a forma de o alcançar. A Al Qaeda prefere uma estratégia de desgaste lento dos governos apoiados pelo ocidente, sem campanhas de terror para não alienar a população civil. Já o ISIL defende a estratégia do caos, com bombardeamentos e ataques indiscriminados, que deixe os governos sem capacidade para os impedir de estabelecer um emirado.

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