Fábio, o Estado Islâmico e uma entrevista

Quando surgiram no Expresso as primeiras notícias de que havia portugueses a combater nas fileiras do Estado Islâmico fiquei imediatamente interessado no tema. Quem eram aquelas pessoas? O que os levava a aderir a uma ideologia radical, contrária aos valores dos locais onde haviam sido criados? Eram algumas questões que importava responder. E isso implicava falar com eles. Quase todos teriam uma característica: eram activos nas redes sociais. Ao longo de semanas tentei localizá-los por todos os meios. Semana após semana a frustração foi crescendo na igual medida em que o Hugo Franco e a Raquel Moleiro iam fazendo um trabalho exemplar no Expresso (chápeau) Foram eles que contaram em primeiro lugar a história de Fábio e de Ângela, a rapariga que viajou para a Síria para casar com ele.

Quando encontrei finalmente uma página de Fábio na Internet, enviei-lhe uma mensagem. Não tinha grandes expectativas: a página estava inactiva há quase um ano e referia-se a um período antes de ele viajar para a Síria. Durante semanas não obtive resposta. Até que, no passado domingo, acordei com uma mensagem: um email de contacto. Contactei-o mas a mensagem veio devolvida. No entanto, esse email permitiu-me encontrar a nova página de Facebook de Fábio. Ou melhor, de Abdu Rahman Al Andalus. Contactei-o novamente, e ele respondeu. Primeiro em português. Depois, em inglês. Essa troca de mensagens inicial durou mais de seis horas. Continuou no dia seguinte. E no outro – já a partir de uma nova página porque a primeira tinha sido bloqueada.

O resultado dessa conversa foi publicado na última edição da Sábado. Foi o tema de capa e tem provocado alguma polémica – sobretudo entre jornalistas. Quanto a isso, tenho algo a dizer: acredito que todas as opções editoriais são criticáveis. Costumo dizer que essa é uma das belezas do jornalismo: não há verdades absolutas. Cada um de nós atribui importâncias diferentes a temas diferentes. Exemplos: o telejornal da RTP pode abrir com o ébola, o da SIC com a sobretaxa do IRS e o da TVI com o prémio Nobel da Paz. São escolhas diferentes e legítimas, de acordo com os critérios de quem está a coordenar a emissão.

Nos jornais essa escolha é feita todos os dias. Qual a melhor notícia para manchete? Qual a mais importante? E sim, qual a que mais vende? Porque um jornal que não vende é um jornal que, mais tarde ou mais cedo, morre. E essa não é uma boa notícia. Nas revistas essa escolha é diferente. Por norma, os temas de capa são planeados com antecedência. A não ser que haja uma questão de actualidade que se sobreponha, como a implosão do BES. Ou no caso de surgir uma história exclusiva que, pela sua relevância mereça o destaque de capa. Foi o caso da entrevista a Fábio. A existência de portugueses nas fileiras do Estado Islâmico (EI) é notícia? É. Perceber os motivos que os levaram a viajar para a Síria é relevante? É. Saber o que se passa do outro lado do mundo é importante? É. A decisão de fazer capa com a entrevista foi boa? Na minha opinião sim. É propaganda ao EI? Claro que não. É informação. E é essa a função dos jornalistas: publicar toda a informação para que os leitores possam tomar decisões conscientes e formar opiniões próprias. Não é escondê-la. Mesmo que ela agrida os nossos valores. Porque ocultá-la seria, isso sim, uma opção totalitária. E porque se quisermos melhorar o mundo, primeiro temos de conhecer os males que nele habitam.

SAB - 545 - Destaque - 36-37 AbduA

9 thoughts on “Fábio, o Estado Islâmico e uma entrevista

  1. Apoiado a cem% sr Jornalista Nuno Pinto, ;conte comigo para o apoiar sempre que precise desde que não se deixe capitular as mãos dos capangas que acham que têm o divino direito de escolher o que os jornalistas podem escrever e os leitores devem ler.

  2. Posso estar a ler mal a coisa, mas a Câncio apenas comparou o discurso do Estado Islâmico ao dos Nazis. Isso só é uma crítica à Sábado na medida em que a Sábado achar que não deveria entrevistar um nazi. Se achar que devia, à luz de tudo o que aqui é exposto, então não há porque levar a mal a coisa.
    Seja como for, não consigo olhar com indiferença para esta capa da sábado. Porque me desperta apenas a convicção de que andamos a fazer algo de muito errado nesta sociedade. De tal forma que empurramos jovens para isto. E também os empurramos glorificando as suas idas com primeiras páginas de revistas, com fotografias como a escolhida.
    E sim, o discurso do jihadista português, é panfletário e mentiroso. E o que lhe foi dado foi tempo de antena.
    Já agora. Pelo que percebi, o Nuno não aceita a ideia de ir à Síria, certo? Não aceita a ideia de ir lá ver com os próprios olhos, pois não? Isso seria jornalismo. Arriscado, mas jornalismo.

    • Está a ler mal: A Fernanda Câncio fez uma crítica à Sábado porque ela acha que a entrevista não é relevante nem devia ter sido feita. Mas este post também não era dirigido a ela – nem nada foi “levado a mal”.
      Concordamos em que andamos a fazer algo de errado na sociedade. Discordamos na parte da glorificação e do tempo de antena. Nesse caso, tudo seria considerado tempo de antena.
      Não aceito ir à Síria por motivos óbvios. Não só por gostar demasiado do meu pescoço mas porque, mesmo que quisesse arriscá-lo, sob a alçada do EI não há liberdade de imprensa: se houvesse dúvidas, esta lista de regras acaba com elas: http://www.huffingtonpost.com/2014/10/07/rules-journalists-syria-11-territory-media_n_5945012.html

      Abraço

  3. Essa é de facto a função de um verdadeiro jornalista, actualmente o jornalismo está nas mãos dos grandes lóbis… força Nuno Pinto, a tua forma de fazer jornalismo premia-te pela diferença.

  4. Pingback: Fábio, o Estado Islâmico e uma entrevista - PINN

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