Do choque ao medo das consequências

2015/01/img_0134.jpg
Maimouna Diallo tinha acabado de acordar. Era quarta-feita, 7 de Janeiro. Como em todos os outros dias, ligou a televisão para ver as notícias e saber o que se passava no mundo. “A primeira coisa que me perguntei foi: porque é que estas pessoas fizeram isto?”, recorda à SÁBADO, à porta da grande mesquita de Paris, localizada no quinto bairro da capital francesa. Depois percebeu: os autores do atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo diziam estar a agir para vingar as ofensas dos caricaturistas ao profeta Maomé. “Não compreendo como alguém pode fazer uma coisa destas”, diz. “Muito menos um muçulmano.”
Aos 19 anos, tem opiniões bem vincadas. Sabe exactamente o que responder às perguntas que os jornalistas lhe fizeram nessa manhã. Tinha acabado de dar uma entrevista para um jornal norueguês quando foi abordada pela SABADO. Após as apresentações esboçou um longo sorriso e disse num português com sotaque francês: “aí és português. A minha mãe é portuguesa.”
A mãe, Diamilatou Diallo, chegou a Portugal em 1998, oriunda da Guiné Conacry. Ficou 13 anos. Obteve a nacionalidade antes de partir para França. Maimouna nunca viveu em Portugal. Estudou no Senegal e está em Paris para completar os estudos. Mas as visitas a Lisboa e a Armação de Pêra, no Algarve, permitem-lhe compreender e falar um pouco de português.
Esta sexta-feira, deslocou-se à mesquita para uma das cinco orações diárias. Não chegou a tempo da oração do meio-dia para ouvir o Íman local condenar os atentados e afirmar que “o Islão não é isto”. Mas não precisa. “Um bom muçulmano não faria isto. Os muçulmanos não praticam a violência. É-nos interdito. A nossa vida é rezar, trabalhar e cuidar da família. Não nos é permitido matar inocentes. Só se formos atacados, em legítima defesa”, explica.

2015/01/img_0075.jpg
Dois dias após o massacre, ainda não consegue compreender o que leva alguém a fazer algo do género. Apesar de não gostar do que os responsáveis do Charlie Hebdo faziam com o jornal. “O Charlie desrespeitava a comunidade muçulmana. Eles tocavam no sagrado. O profeta é sagrado para nós. Tem de haver respeito na liberdade de expressão”, diz. “Podemos ter opiniões sobre as pessoas, mas não devemos ser ofensivos. Não se ataca assim de forma gratuita as crenças sagradas”, continua. Contudo, frisa, nada justifica o que aconteceu: “estamos tão chocados como vocês”.
Agora teme as consequências. Sabe que toda a sociedade é afectada. “O problema é que as pessoas começam a olhar para os muçulmanos como terroristas. Há uma islamofobia instalada”, diz. Ela sabe do que fala. No dia-a-dia cobre o cabelo com o hijab. Veste-se de acordo com as suas crenças. “As pessoas olham para mim na rua. Mas o que é que eu posso fazer? É a minha religião”.

2015/01/img_0082.jpg

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s